O continente Africano marcado pela instabilidade política por causa das guerras
“Novos confrontos no norte do país entre o exército e os rebeldes põem à prova os esforços de vinte anos da Igreja local para a pacificação. E diante da fuga de milhares de civis, também a Igreja do vizinho Malawi sente o peso da falta de recursos”
Tradução: Orlando F R Almeida
Entre o campo de Kapise, no Malawi, e a fronteira há algumas centenas de metros, mas foram suficientes para muitas famílias moçambicanas se afastarem do medo da guerra. “Em todo o distrito, em janeiro, o número de refugiados chegava a 3.500 e quase 300 estão na área de Nsanje”, informa Carsterns Mulume, diretor da Caritas Malawi. O que levou essas pessoas a fugir, através de uma fronteira quase virtual em muitos casos, têm sido os confrontos na província moçambicana de Tete, que se arrasta com altos e baixos há meses.
A ofensiva do Exército do governo começou em junho passado, quando os soldados atacaram algumas localidades onde se suspeitava que estavam as bases da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), o movimento rebelde que se opôs às autoridades na guerra civil terminada em 1992.
Mas o que fez subir a tensão foram também as sequelas das eleições políticas de 2014: os ex-rebeldes, que há duas décadas se organizaram como partido político, ainda não quiseram reconhecer os resultados eleitorais, que os consideravam derrotados.
Seu líder histórico, Afonso Dhlakama, recentemente ameaçou mesmo tomar o poder nas províncias do Centro-Norte do país, onde o seu movimento é mais forte.
Tendas improvisadas no campo de refugiados moçambicanos em Kapise, no distrito de Mwanza, no Malawi.
Tendas improvisadas no campo de refugiados moçambicanos em Kapise, no distrito de Mwanza, no Malawi.
Embora seja difícil saber quantas tenham sido realmente as vítimas dos últimos confrontos, o fato de muitos optarem por buscar segurança do outro lado da fronteira lembra, em escala menor, os anos da guerra civil.
“No ano passado, alguns milhares de pessoas fugiram para o outro lado; muitos voltaram depois, mas encontraram um cenário de destruição; quem vive perto da fronteira, frequentemente, continua a voltar para o Malawi à noite e bastam alguns tiros de armas de fogo ou o boato de novos ataques para criar pânico”,

disse o padre Claudio Zuccala (Foto ao lado), missionário dos Padres Brancos, da cidade de Tete, no noroeste de Moçambique.
Em ambos os Estados, as Igrejas procuram enfrentar como podem este cenário:
“Os refugiados têm necessidade de apoio imediato, para manter condições de vida aceitáveis e para evitar a propagação de doenças – esclarece Carsterns Mulume do Malawi – mas não conseguimos sustentá-los porque faltam os recursos”.
Condição comum, não só da Caritas, mas até das Nações Unidas, já em dificuldade para assistir outros refugiados, os da região dos Grandes Lagos, concentrados no campo de Dzaleka.
Para a Igreja de Moçambique, por outro lado, o desafio é o da paz. Já durante a guerra civil foi o então Arcebispo da Beira, D. Jaime Gonçalves, que se encarregou da mediação junto com os representantes da Comunidade de Santo Egídio e do governo italiano.
Também diante das últimas desordens, a Conferência dos Bispos voltou a fazer ouvir oficialmente a sua voz:
” depor as armas incondicionalmente e retomar o diálogo entre as partes em conflito” foram os principais pontos da carta divulgada pelos bispos em novembro passado.
“Reiterado em outras ocasiões, o apelo no entanto parece ter caído no vazio: o líder rebelde Dhlakama citou a Igreja, juntamente com o governo sul-africano, entre os mediadores bem-vindos, mas nenhum sinal veio da capital Maputo”. Concretamente estão sendo obtidos menos resultados do que durante o conflito: os documentos correm o risco de permanecer no papel”, reconhece também o padre Zuccala.
Crianças são a maioria nos campos de refugiados de moçambicanos no Malawi. Campo de Kapise, distrito de Mwanza. Janeiro, 27, 2016
A atenção ao tema da paz, apesar de tudo, nunca deixou de existir: multiplicaram-se celebrações, encontros e até pedidos formais às partes em conflito quando a tensão, ao longo dos anos, voltou a crescer.
Também houve um forte trabalho de base para manter a coesão social no país, onde o crescimento econômico recente tem sido robusto, mas mal distribuído, abrindo outras fraturas entre a população.
Mas ainda falta dar início a uma outra tarefa, pondera o missionário: “A consciência cívica ainda quase não existe; faltam outras forças, além dos partidos, que tomem iniciativas e sejam capazes de trazer ar fresco”.
Aqui, continua, abre-se um espaço possível para a iniciativa da Igreja: “Precisamos de uma ação coral para identificar as raízes do mal-estar e dos problemas vividos e formar uma consciência civil; do púlpito e na prática, nas comunidades, podemos fazer muito, mas agora precisamos nos dirigir a um público mais amplo”.

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