O grande enigma (2)

Anselmo Borges – 06/02/2016

O número de ateus confessos era reduzido. Foi a partir da modernidade que a ideia de Deus se tornou problemática e o ateísmo, face ao teísmo dogmático, se afirmou a si próprio também dogmaticamente, num frente-a-frente de dogmatismos.

2- Aspecto essencial da obra já aqui citada no sábado, do jesuíta Javier Monserrat, O grande enigma. Ateus e crentes face à incerteza do Além, é afirmar uma “mudança crucial” na história do pensamento, concretamente nos últimos dois terços do século XX.

Com o nascimento da nova ciência, da nova física, estamos colocados na consciência de enigma e de incerteza e, por isso, numa profunda inquietação quanto às perguntas e respostas pela ultimidade. Pessoalmente, diria que esta é a ferida profunda da consciência europeia: de modo mais ou menos consciente, mais ou menos explícito, vive-se com a consciência da possibilidade do niilismo e do vazio de sentido último. O dogmatismo, tanto teísta como ateu, dava segurança.

O teísmo crítico e o ateísmo crítico, pelo contrário, de acordo com a nova consciência do enigma do universo e da incerteza metafísica, sabem que os seus argumentos “são hipotéticos, não impositivos, e devem ser avaliados pela razão de cada homem até chegar a uma decisão pessoal livre”. Deus não se impõe, não se manifesta com evidência, e o crente sabe que Deus poderia não existir e o ateu sabe que Deus poderia existir.

3- Na modernidade crítica, “teísmo e ateísmo são possíveis e podem ser construídos pela razão de forma legítima e honesta moralmente. Aliás, é o que vemos socialmente”: há crentes e ateus honestos, que sabem o que isso quer dizer e se respeitam mutuamente, já que o carácter enigmático do universo está aberto às duas alternativas.

Segundo o modelo cosmológico padrão, vivemos num universo que se produziu no big bang e terminará numa morte energética futura: “um universo que nasce a partir de um “fundo” desconhecido no qual será reabsorvido”. Trata-se, pois, de um universo que, existindo num tempo finito, dificilmente pode ter a sua suficiência em si mesmo, pondo assim a pergunta: qual é o seu fundamento último e absoluto?

Como entender esse fundo ou “mar de energia”, “essa espécie de meta-realidade ou dimensão metafísica à qual este nosso universo parece estar referido, segundo as evidências empíricas?” Pode-se argumentar que, a partir da finitude e das propriedades antrópicas deste universo, a realidade última, raiz e fundamento último em que assenta, é “uma Inteligência Pessoal capaz de criá-lo”.

O ateísmo seria outra conjectura metafísica, também filosófica: no pressuposto das teorias especulativas de multiversos ou múltiplos universos e de supercordas, essa meta-realidade apresentar-se-ia como “uma realidade impessoal na qual se produziria de modo cego o nosso universo”.

4- Teísmo e ateísmo são confrontados com o silêncio de Deus. Este silêncio manifesta-se num duplo plano: no plano cósmico, porque Deus não se revela de modo evidente enquanto criador do universo. O outro é o silêncio de Deus “perante o drama da história, devido ao sofrimento humano pessoal e colectivo e ao mal natural cego e à perversidade humana”.

Para o ateísmo, o silêncio de Deus é

“prova” da sua inexistência, pois há incompatibilidade entre um Deus real e o seu silêncio, sobretudo quando se pensa no calvário do mundo. Como é que um Deus criador, infinitamente bom e poderoso, cala, quando, perante o sofrimento atroz, insuportável, concretamente dos inocentes, se lhe pede ajuda, gritando, suplicando? O silêncio de Deus faz que o ateísmo seja como que “um ajuste de contas” com Deus, sobretudo quando se pensa na malvadez dos responsáveis religiosos.

Se Deus existe, é como se não quisesse que acreditemos nele. Para o crente, não é menor o desconcerto, ao ver-se confrontado com a dor alucinante, o abandono, o fracasso, a traição, a guerra, um tsunami, a angústia da vida, o afundamento na morte…

5- “Tanto a religiosidade humana como o ateísmo são sempre rácio-emocionais”, embora no juízo sobre Deus predomine a força dos impulsos emocionais, da esperança e do sentido. Afinal, a fé é um combate, e a razão e a emoção podem manter o homem aberto à esperança da existência de um Deus que quer salvar, “acreditando na existência de um Deus oculto e libertador, por cima do seu silêncio”.

É possível dar a Deus um voto livre e pessoal de confiança, voto que mostra a sua razoabilidade no próprio ato de confiar. “Não tem sentido viver sem sentido”, mas, ousando entregar-se confiadamente a Deus pela fé, tudo aparece como mais razoável, com luz, com sentido, sentido final precisamente em Deus, o Deus oculto e salvador.

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Anselmo Borges

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/o-grande-enigma-2-5018114.html

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