Decadência da Igreja Católica?

Ainda com o sentimento de alegria no coração por causa do sucesso do XIX encontro de padres casados, celebrado em Fortaleza entre 27 de junho e 01 de julho, gostaria de tecer algumas considerações acerca de temas abordados no decorrer desse encontro. Nosso encontro coincidiu com a publicação dos dados do censo de 2010 sobre a religião, cujos resultados confirmam uma impressão que tivemos na hora de ouvir a exposição de Carlo Tursi no terceiro dia: o desencontro entre a sociedade de hoje e a religião católica.

O censo revelou que o catolicismo no Brasil perde por dia mais de 400 fiéis e que a porcentagem de pessoas que se declaram católicas vem mantendo um declínio constante desde a década de 1980. O catolicismo cai da faixa de 70 % de brasileiros em 2000 para a faixa de 60 % em 2010. Enquanto isso, a porcentagem dos que se declaram ‘sem religião’ vem crescendo constantemente.

O que está acontecendo? Podemos falar de decadência da igreja católica? Ao que tudo indica (e foi mencionado em diversas falas no encontro), há sinais de que a igreja não esteja mais conseguindo corresponder aos anseios dos tempos em que vivemos.

Gostaria de dizer algo sobre esse particular, de um ponto de vista histórico. O historiador inglês Arnold Toynbee formulou uma lei da história que me parece interessante para a compreensão do fenômeno que vivenciamos. É a ‘lei do desafio e resposta’, exposta no final de seu livro monumental ‘Um Estudo de História’ (Martins Fontes, São Paulo, 1986). Depois de estudar o surgimento, apogeu e declínio de 21 civilizações, Toynbee conclui: todo projeto humano é formulado para responder a determinados desafios, o que faz com que seja necessariamente incompleto, provisório e passageiro. Nenhum projeto humano pode aspirar à eternidade.

Mil e quinhentos anos atrás, Agostinho, em sua obra ‘A cidade de Deus’, formulou um projeto que está na base da igreja católica tal qual a conhecemos hoje. A questão hoje consiste em ver se há condições de reformar esse projeto, tornando-o capaz de responder aos desafios do momento. Não se pode responder a tudo, há sempre deficiência, mas há sinais que parecem indicar que a atual situação consiste numa inaptidão generalizada, por parte da igreja católica, em lidar com a problemática do mundo de hoje.

O problema já se manifestou claramente na virada entre o século XVIII e XIX. Comparemos a atitude do papa no início do século XIX com os rumos que a França tomou no final do século anterior. A revolução francesa constitui um exemplo paradigmático de um projeto que responde de forma apropriada aos anseios do tempo. Até hoje, essa revolução molda nossa maneira de viver em sociedade (a democracia) e podemos dizer que seu sucesso já dura mais de dois séculos. Os povos querem ‘liberdade, igualdade e fraternidade’, e a revolução responde positivamente.

Uma postura totalmente diferente é assumida pelo papa, no início do século XIX. Quando o político italiano Cavour quis unificar seu país para formar uma nação que reunisse o norte rico (Milão) e o sul mais pobre (Nápoles), ele encontrou as maiores dificuldades por parte do papa. Para unir a Itália era preciso abolir os estados pontifícios que atravessavam o país e desse modo impediam a unificação democrática. Nesse momento da história, o papa não soube corresponder positivamente aos anseios do povo italiano, pelo contrário, ele lutou para preservar os estados pontifícios.

Toynbee vê nessa recusa do papa o início da decadência do sistema católico. Por encarnar o poder supremo por tantos séculos, o papado não tinha mais sensibilidade diante do que se passava na realidade e isso constituiu um sinal de decadência. Toynbee comenta: o papa sofreu ‘a embriaguez do poder’, ele perdeu o contacto com a vida real. Seguindo o raciocínio de Toynbee, o futuro da igreja católica não é promissor. É possível que ela mude totalmente de feições ou então desapareça do cenário histórico.

De nossa parte, trata-se de não cair na lamentação, nem na nostalgia ou no fundamentalismo da volta ao passado. Pois a decadência de uma igreja não é um drama. Tudo que é humano é sujeito a ritmos de crescimento, vigor e decadência. Os projetos passam, a história passa. Os projetos humanos são todos provisórios. O sonho de Agostinho deu origem a um grande projeto, que moldou o Ocidente durante longos séculos. Mas ficou na contramão do desejo de liberdade hoje se manifesta de mil maneiras.

Os tempos mudam e isso é bom. O importante consiste em apoiar as energias positivas que atuam dentro do catolicismo, da mesma forma em que é bom apoiar as forças vivas existentes no candomblé, na igreja universal do reino de Deus, no pentecostalismo e em todos os projetos que procuram melhorar a vida da humanidade, de forma mais ou menos acertada ou equivocada.

A igreja católica conta com muitas forças vivas, como pudemos constatar no nosso encontro em Fortaleza. Ela dispõe de 1.100.000 fiéis; 5000 bispos; 450.000 padres; 1 milhão de freiras. Está presente em 178 estados e se espalha pelo mundo inteiro. Além disso, goza de considerável estima por parte da população, principalmente aqui na América latina. O grau de confiança do povo nas conferências episcopais da América latina é alta: 76 % no Paraguai; 78 % na Bolívia e 74 %´ no Brasil. Só no Chile, a confiança do povo na igreja é particularmente baixa: 38 %.

Não, o declínio do catolicismo não é um drama. O drama é outro, o desafio é outro. O que importa é que o cristianismo signifique algo para os 50 % da população mundial que vive na pobreza e mesmo na miséria. No planeta em que vivemos, 25 mil pessoas morrem por dia de inanição e 16 mil crianças de fome. 852 milhões de pessoas passam fome. As pessoas que dormem na rua, as 864 favelas do Rio, as 20 a 25 pessoas que morrem por dia de forma violenta, no Rio, e que nem merecem mais uma menção no noticiário: isso dá vergonha, isso é drama.

Que entre as 20 cidades mais desiguais do mundo, 5 são brasileiras (Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba), eis o que nos dá vergonha. Que mais de 10 milhões de brasileiros vivem com menos de 39 reais por mês e que a Globo nunca dá esses números, eis a vergonha, eis o apelo para o cristianismo. O drama é que 10 % das pessoas que vivem neste país detêm 75 % da riqueza que o país produz, que 5 mil famílias (1 %) controlam 45 % da riqueza do país.

Eduardo Hoornaert

Fonte: Enviado pelo autor

 

 

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