
Os embaixadores do Peru e Guatemala para a Itália apontaram as dificuldades e esperanças da cúpula de Paris. – O problema das mudanças climáticas e a COP 21 que está acontecendo em Paris foi o tema do café da manhã de trabalho no qual falaram a embaixadora de Peru na Itália, Adriana Rivas Franchini, do país que sediou a COP 20 no ano passado em Lima ; e a embaixadora de Guatemala na Itália, Stephanie Skinner-Klee Hochstetter.
Fonte: ZENIT, HSM – Roma, 04 de Dezembro de 2015 (ZENIT.org) Sergio Mora
A reunião organizada em Roma nesta sexta-feira no hotel NH Giustiniani, por Mediatrends América – Europa teve como tema: “Que papel pode ter a associação América Latina-EU para garantir um acordo global sobre as alterações climáticas?’. O evento, que contou com a presença de vários representantes diplomatas e jornalistas, é patrocinado pelo Instituto Cervantes de Roma e a Fundação espanhola FPSC.
Questionado por ZENIT sobre a influência da nova encíclica Laudato Si do Santo Padre Francisco em uma cúpula como a COP21 em París, a embaixadora peruana indicou que “o Papa teve a posição mais avançada sobre o tema”, e acrescentou que “não sei quanto possa influenciar nas negociações, embora seja uma questão de consciência e nisso influencia”.
A nuance que muda é que “se trata de um chamado, é outro nível, uma abordagem diferente, e contribui muito porque dá uma visão diferente”. E se avançamos das posições de 20 anos atrás, acrescentou, é “porque agora entendemos que o mundo é uno, nem dos países ricos nem dos em via de desenvolvimento”. E concluiu que “o chamado é a ver comunitariamente o problema como de todos. E espero que isso influencie e tenho esperança”.
Por sua parte, a embaixadora da Guatemala considerou que todas as pessoas que participam da COP21, cada um em maior ou menor grau, sentiu o quanto mudou o clima desde então até aqui. E que “o Papa pode influenciar muito na consciência das pessoas”, embora depois “estejam as dinâmicas das negociações internacionais”, já que “a consciência pode estar muito clara porque o Santo Padre neste tema e em outros chegou ao mais profundo do tema, ou seja, que algum efeito tem, mas as negociações são complexas”.
A embaixadora de El Salvador, María Eulalia Jiménez disse: “Um ponto muito importante é que este papa chega bastante às pessoas, e aqui é fundamental também o apoio que os meios deem para fazer chegar esta encíclica às pessoas”.
A encarregada de negócios da Embaixada de Bolívia ante à Santa Sé, Erica Farfán, por sua parte destacou que “a nível internacional a Santa Sé está trabalhando muito e a sua mensagem está chegando” e colocou como exemplo “o que disse o presidente Obama”. Ou seja, uma influência para cuidar da “casa comum”.
Durante seu discurso no café da manhã de trabalho, a embaixadora do Peru indicou que “o problema da mudança climática era um tema quase dos ambientalistas, porém, agora, no Perú, as políticas públicas estão contemplando tomar medidas”. Entre os fatores que estão afetando o país destacou como as geleiras tropicais que estão no Peru diminuíram nos últimos 30 anos, aumentando a dificuldade hídrica, com consequências para a agricultura e a geração de energia elétrica. O importante é que “o Estado entendeu o problema, e há uma mudança na matriz energética.”
Uma indicação oportuna da embaixadora Franchini foi: “Não é que os maus são os desenvolvidos e os bons os que estão em vias de desenvolvimento ou vice-versa. Porque o mundo é um só, e precisa de medidas comuns, mas diferenciadas. Há 15 anos estávamos ‘por que eu e não você?’”.
Destacou também que o fenômeno do ‘El Niño no Pacífico da América Latina teve um forte impacto negativo na economia. “O fenômeno sempre existiu, mas agora está se acentuando. Os números são alarmantes, as notícias não são muito gratas. O 81% da agricultura é vulnerável”.
Lembrou que o seu país presidiu a COP 20 em Lima, “onde se tomou uma decisão importantíssima: definir um novo acordo climático”. Lá foi definido o pós 2020, ou seja, o que cada país deveria contribuir para a mudança climática. E isso foi “um passo prévio para os acordos vinculantes que deverão assinar agora”.
Observou que o acordo que é necessário conseguir em Paris tem que ser equitativo, com condições de elasticidade com os países mais pobres; ambicioso com um compromisso vinculativo de medidas progressivas de mitigação, devidamente comprovadas; equilibrado e operacional, com um compromisso firme, que inclua a transferência de tecnologia em favor dos países em desenvolvimento.
“O acordo de Paris –acrescentou a embaixadora de Lima – embora não seja obrigatório é necessário que vincule, que seja global, que a sua aplicação vá de mãos dadas com os objetivos do desenvolvimento sustentável”, portanto “exige esforços compatíveis”.
Na sua apresentação do tema, a embaixadora de Guatemala na Itália, Stephanie Hochstetter Skinner-Klee De Towara, lembrou que há 15 anos, enquanto trabalhava em Genebra “havia alguma preocupação pelas secas ou furacões, em era alguma preocupação com secas e furacões, mas agora, quando vemos os números é realmente preocupante, e também entender o motivo de não conseguirmos fazer nada”.
Guatemala foi atingida por efeitos relacionados à mudança climática, e conferência da COP 21 “fez uma chamada para que se consiga um acordo com base na equidade, embora diferenciada segundo as próprias necessidades”. Embora este sistema “tornou complicadas as negociações, porque todos os países têm que reconhecer o que lhe corresponde a eles”. Recordou que muitas economias se baseiam em energia contaminadora, e é necessário mudar isso.
Também observou que em seu país, Guatemala, as mudanças climáticas têm afetado a biodiversidade das florestas nativas e produziu a emigração e o declínio na produção de alimentos. Por isso, disse que é necessária uma nova “arquitetura solidária da cooperação ao desenvolvimento, que permita implementar políticas ambientais”.
Assim como a necessidade de “ações ambientais e sustentáveis, mecanismos claros de financiamento, transparência e transferência de tecnologias limpas”.
Concluiu que “se não se cria consciência entre as partes será difícil que o acordo seja efetivo”, mas “temos a esperança de que se chegue a um acordo ousado e que seja vinculante”.
Sergio Mora
Artigos relacionados
- O Vaticano pede ao cop21 um acordo com clara orientação ética
- O cardeal Sistach pede que a Cúpula do Clima, em Paris, sirva para superar o individualismo
- Apelo de cardeais e bispos católicos de todo o mundo à COP 21
- França: A receita de fé diante da crise climática
- Laudato si’: a primeira encíclica com dados científicos
(04 de Dezembro de 2015) © Innovative Media Inc.