
O que se teme, quando se olha para a complexidade do nosso mundo, tremendamente perigoso e ameaçador, é que, de repente, se dê uma explosão. Todos se lembram de como para o início da Primeira Guerra Mundial bastou o que pareceria um pormenor: o assassínio do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, em 1914.
Agora, Robert Farley, da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, acaba de apresentar alguns rastilhos que poderiam desencadear um conflito à escala global:
- em primeiro lugar, a guerra na Síria,
- mas também a ameaça do mau relacionamento entre a Índia e o Paquistão
- ou entre a China e o Japão,
- a crise na Ucrânia
- e um confronto entre a NATO e a Rússia…
2– Presentemente, o perigo maior está no ISIS, o autoproclamado “Estado Islâmico”, e no terrorismo global. Como se chegou até aqui?
Claro que são mais as perguntas do que as respostas. Aliás, um dos problemas maiores no actual momento é a confusão devida à complexidade da situação, aos interesses contraditórios e cínicos dos diferentes actores, políticos, económicos, militares, geoestratégicos, ideológicos.
Falei na Primeira Guerra Mundial e, então, é preciso dizer que ainda estamos a sofrer as suas consequências, sobretudo por causa do Médio Oriente.
E talvez não tenha ainda acabado o ressentimento que deriva do facto de a quase totalidade dos países de maioria islâmica ter sido colónia europeia. E houve a insensatez da invasão do Iraque e, depois, da Líbia. Diz-se que Saddam Hussein, diante da forca, terá profetizado: “Deixo-vos o inferno.” Após o vazio criado, surgiu o diabólico “Estado Islâmico”, que é preciso destruir, mas como, com quem?
Faço minhas algumas interrogações do filósofo José Arregi, na presença dos mortos de Paris e das lágrimas dos vivos.
- “Quem criou, financiou e treinou a Al-Qaeda para combater a Rússia?
- E quem concebeu e continua a sustentar na sombra o Estado Islâmico para desestabilizar todo o Médio Oriente e tirar maior proveito e lucro?
- Não se sentam no G20 dos grandes do mundo alguns governos amigos de países, com a Arábia Saudita à cabeça, nos quais encontram suporte ideológico e financeiro os jihadistas que nos combatem e que dizemos combater?
- Não são estranhamente coincidentes os interesses do “Estado Islâmico” e os do poder financeiro do mundo ocidental?”
Mas há igualmente perguntas a fazer ao mundo islâmico.
“E vós, dirigentes políticos dos países árabes, para onde conduzis os vossos povos, essa imensa maioria de gente pacífica,
- com as vossas lutas fratricidas sem fim,
- com o vosso confronto secular entre sunitas e xiitas,
- com os vossos impossíveis projectos teocráticos,
- com o vosso sonho de califado confessional, medieval, absurdo?
E vós, os dirigentes religiosos da Umma ou comunidade muçulmana universal, para onde conduzis essa multidão de gente crente, cheia de bondade e de generosidade, empenhados como estais em mantê-la encerrada no passado?”
3- Como combater o terrorismo fora, se há terroristas cá dentro?
Pergunta imensa:
- o que é que leva tantos jovens europeus, e não se trata apenas de gente pobre dos arrabaldes das grandes cidades, a alistar-se para combater no “Estado Islâmico”?
- Que ideias, que valores lhes entregamos?
Segundo o politólogo Gilles Kepel, especialista do islão e do mundo árabe contemporâneo, não bastam as explicações sociológicas, escreve no último L”Obs.
“Jovens sem referências, perdidos no meio das desordens do mundo que a torneira mediática espalha, podem ser tentados a ir procurar num passado mitificado, o do islão das origens revisitado e falsificado, uma ordem que vai dar-lhes normas, valores.Sonhar com a jihad é fantasiar a sua vida, é projectar-se numa existência épica, viril. E é inscrever-se num projecto colectivo, a construção do califado, apresentado como uma utopia terrestre, onde todos têm um trabalho, onde não há pobres; é viver um antegosto do mundo perfeito do além”.
4- Há muito que o famoso teólogo Hans Küng tornou claro que “não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões”. O Papa Francisco sabe disso. Por isso, denuncia toda a violência, que, se for em nome de Deus, é “uma contradição”, “blasfémia”.
“Uma guerra pode justificar-se, entre aspas, com muitas razões. Mas quando o mundo todo, como hoje em dia, está em guerra?! Uma guerra mundial, aqui e ali, por todos os lados. Não existe nenhuma justificação. E Deus chora.”
E, sem medo, apesar do alto risco, seguiu para África, visitando o Quénia, o Uganda e a República Centro-Africana, para anunciar a paz, a justiça social, a reconciliação, o diálogo entre cristãos e muçulmanos. Em nome de Deus.
Anselmo Borges
Padre, missionário da Boa Nova, Professor de Filosofia em Coimbra, escritor
fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/terceira-guerra-mundial–4906084.html