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América Latina: fim de ciclo?

  • 25/11/2015
  • 21:05

BRAZIL-MERCOSUR-SUMMIT

Por Redação –  23/11/2015

Triste vitória conservadora na Argentina expõe debilidades de projeto político que marcou a região. Mas não é o fim do mundo – e talvez obrigue esquerda a saudável reinvenção…

Por Alejandro Mantilla Q, no Colombia Info | Tradução: Antonio Martins

A vitória de Maurício Macri nas eleições presidenciais de ontem, na Argentina, parece confirmar uma tese formulada por intelectuais latinoamericanos como Maristella Svampa e Raul Zibechi: assistimos ao fim do ciclo de ascendo dos governos progressistas em nossa América.

A tese do fim de ciclo poderia ser demonstrada por cinco tendências complementares: dificuldades governamentais, guinadas à direita, tendências à moderação, distância em relação aos movimentos sociais e um panorama internacional adverso. A saber:

  • Os governos da Venezuela e do Brasil atravessam um momento difícil. A ausência de liderança de Hugo Chávez soma-se à queda dos preços do petróleo e à sabotagem imperialista permanente contra a economia bolivariana.
  • No Brasil, o governo de Dilma Roussef atinge recordes de impopularidade, derivada de escândalos graves de corrupção, enquanto no Parlamento cresce uma oposição ultraconservadora.
  • Na Argentina, a vitória de Macri representa uma guinada clara à direita e a volta a um governo abertamente neoliberal.
  • Vale recordar que os chamados “golpes de Estado institucionais” em Honduras e no Paraguai abriram, há alguns anos, uma larga onda de giros à direita na região.
  • No Uruguai, constata-se a moderação da Frente Ampla, após o fim do período de Mujica e o retorno de Tabaré Vázquez ao poder, enquanto o governo de Dilma mantém, no Brasil, um ministro da Fazenda neoliberal, contrariando as recomendações da maioria de seu partido.
  • Na Bolívia e no Equador, Evo Morales e Rafael Correa têm ampla margem de governabilidade, mas há um crescente descontentamento de importantes movimentos sociais com suas política – em especial, setores chaves dos povos indígenas. Somam-se a isso alguns retrocessos nas eleições regionais mais recentes.
  • No Equador, a Aliança País, de Corre, perdeu as prefeituras de cidades chaves, como Quito, Guayaquil e Cuenca. Na Bolívia, ocorreu o mesmo em El Alto e Cochabamba.

 A redução dos preços das commodities, a desaceleração da economia chinesa e o estancamento do comércio global sugerem dificuldades econômicas para a região, em especial para os governos progressistas que abraçaram a alternativa do extrativismo.

Conquistas e misérias dos governos progressistas:

Resultado de imagem para AméricaLatina: o fim de um ciclo?Os governos progressistas realmente existentes alcançaram vitórias populares cruciais, nos últimos 16 anos. Conseguiram derrotar as oligarquias tradicionais, limitaram a influência dos estados Unidos na região, criaram novos cenários de integração a partir do Sul, promoveram programas sociais que reduziram a pobreza em seus países e deram os primeiros passos para enfrentar a hegemonia liberal globalizada.

Mas sua conquista mais significativa foi simbólica: graças a eles, o fantasma da esquerda radical voltou a caminhar pelo continente; a tentativa de demonizar o “castro-chavismo”, tão comum entre a direitas locais, é sintoma do medo que os poderes políticos traducionais sentem, diante de um panorama regional pontilhado por governos de esquerda.

Apesar disso, e sem esquecer das diferenças, tais governos mostraram zonas cinzentas, limitações e retrocessos. Embora tenham impulsionado programas orientados ao bem-estar dos setores empobrecidos, não alcançaram uma substantiva redistribuição da riqueza em suas sociedades.

Em terceiro lugar, vários destes governos substituíram os empréstimos junto ao FMI, condicionados a ajustes neoliberais, por acordos com o governo chinês, condicionados a projetos extrativistas. Ao fazê-lo, substituíram a influência imperial norte-americana pelo ascenso do novo imperialismo chinês.Em segundo lugar, ao promoverem projetos extrativistas geraram resistência social e graves danos ambientais, em territórios ecologicamente sensíveis e em um contexto global marcado pema mudança climática. A aposta no extrativismo permitiu-lhes obter recursos para seus programas sociais sem apelar para políticas redistributivas da riqueza, que golpeassem de maneira decisiva os grandes capitalistas nacionais.

O que foi dito acima prefigura um quarto ponto. Persistem as economias rentistas dependentes das commodities e a dificuldade de gerar novas dinâmicas produtivas e inovação em políticas de circulação, distribuição e consumo que apontem efetivamente a um anticapitalismo possível.

Em quinto lugar, descobrimos que vários governos progressistas – em especial os do Equador, Nicarágua e Bolívia – têm sido curiosamente conservadores em assuntos como

  • os direitos das mulheres,
  • dos jovens,
  • e da diversidade sexual.
  • Somam-se graves episódios de corrupção, como se percebe especialmente no caso brasileiro.

Um ponto chave a examinar é a matriz politica gerada nestes anos. Apesar da riqueza dos processos constituintes na Venezuela, Bolívia e Equador, na maioria dos governos de esquerda vigorou uma matriz marcada pelo presidencialismo e o populismo.

Ela privilegiou as construções políticas a partir de cima e do Estado, em relação à construção a partir dos movimentos sociais e organizações populares – com a exceção da animadora experiência das comunas venezuelanas, incentivadas pelo governo bolivariano.

O presidencialismo acentuado dos governos progressistas tornou vulneráveis seus processos de transformação.

  • Por um lado, porque a ausência dos dirigentes carismáticos gera uma crise de liderança difícil de superar – como ocorre na Venezuela.
  • Ou então, porque uma possível sucessão não garante a continuidade do processo, como vemos no Uruguai ou como teria ocorrido na Argentina, em caso de uma vitória de Scioli.
  • Em alguns casos, este presidencialismo conviveu com episódios autoritários, como se evidencia nos casos equatoriano e nicaraguenses, ou nos recentes episódios de ação do governo boliviano contra setores do movimento ambientalista.

Compreender o fim de ciclo

Apesar do cenário adverso e das críticas bem fundadas aos governos de esquerda latinoamaericanos, o panorama da região e a vitória do neoliberalismo na Argentina não configuram uma derrota histórica de larga duração – mas uma mudança temporária na correlação de forças.

Nos últimos anos, a esquerda argentina – em especial, a que se agrupou na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT), ou em organizações populares como a Frente Popular Dario Santillan, ou Pátria Grante – alcançou importantes avanços organizativos.

Embora a vitória de Macri seja um grave retrocesso, também poderia abrir um ciclo de lutas dos setores populares, que certamente irão mobilizar-se para rechaçar seu programa de governo. Algo similar pode ser dito no caso venezuelano: ainda que surja um resultado eleitoral desfavorável para o chavismo em dezembro, seu tecido popular tem a maior capacidade organizativa e de mobilização na América do Sul.

A derrota do peronismo argentino não é a queda do Muro de Berlim de nossa geração. No fim dos anos 1980, sucederam-se vários golpes políticos, que paralisaram a esquerda global, configurando uma época histórica de derrota pra os esforços de emancipação.

Em nossa época, o cenário é muito distinto. Exceto a crise do governo Dilma Roussef, cujo futuro é incerto, em nenhum outro país avizinha-se, em curto prazo, uma derrota similar à que sofreu o peronismo argentino. Ou seja, pode-se compreender o fim de ciclo como a interrupção da etapa de ascenso de governos progressistas e início de uma etapa que exigirá novas lutas e antagonismos.

Mesmo que os analistas da velha mídia esqueçam disso, os governos progressistas em nossa América não tiveram origem nas respectivas vitórias eleitorais, mas em experiências insurrecionais e organizativas que abriram caminho para a onda democrática que varreu a região.

Não podemos esquecer

  • a frustrada rebelião militar encabeçada por Chávez,
  • as revoltas populares argentinas do início do século,
  • as guerras pela água na Bolívia,
  • as sucessivas derrubadas de governos no Equador,
  • a paciente reconstrução de organizações de massa operárias e camponesas no Brasil após a ditadura,
  • ou a persistência do imaginário sandinista na Nicarágua.

Aqui situa-se a verdadeira origem dos governos progressistas.

Das possibilidades organizativas e de ação do movimento popular latinoamericano dependerá a consolidação ou não do “fim de ciclo” progressistas na região. Desta instância também dependerá a correção do rumo programático e político e das esquerdas no continente.

 

Alejandro Mantilla Q

FONTE: http://outraspalavras.net/mundo/america-latina/america-latina-fim-de-ciclo/

 

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