Por Redação – 23/11/2015
Triste vitória conservadora na Argentina expõe debilidades de projeto político que marcou a região. Mas não é o fim do mundo – e talvez obrigue esquerda a saudável reinvenção…
Por Alejandro Mantilla Q, no Colombia Info | Tradução: Antonio Martins
A vitória de Maurício Macri nas eleições presidenciais de ontem, na Argentina, parece confirmar uma tese formulada por intelectuais latinoamericanos como Maristella Svampa e Raul Zibechi: assistimos ao fim do ciclo de ascendo dos governos progressistas em nossa América.
A tese do fim de ciclo poderia ser demonstrada por cinco tendências complementares: dificuldades governamentais, guinadas à direita, tendências à moderação, distância em relação aos movimentos sociais e um panorama internacional adverso. A saber:
- Os governos da Venezuela e do Brasil atravessam um momento difícil. A ausência de liderança de Hugo Chávez soma-se à queda dos preços do petróleo e à sabotagem imperialista permanente contra a economia bolivariana.
- No Brasil, o governo de Dilma Roussef atinge recordes de impopularidade, derivada de escândalos graves de corrupção, enquanto no Parlamento cresce uma oposição ultraconservadora.
- Na Argentina, a vitória de Macri representa uma guinada clara à direita e a volta a um governo abertamente neoliberal.
- Vale recordar que os chamados “golpes de Estado institucionais” em Honduras e no Paraguai abriram, há alguns anos, uma larga onda de giros à direita na região.
- No Uruguai, constata-se a moderação da Frente Ampla, após o fim do período de Mujica e o retorno de Tabaré Vázquez ao poder, enquanto o governo de Dilma mantém, no Brasil, um ministro da Fazenda neoliberal, contrariando as recomendações da maioria de seu partido.
- Na Bolívia e no Equador, Evo Morales e Rafael Correa têm ampla margem de governabilidade, mas há um crescente descontentamento de importantes movimentos sociais com suas política – em especial, setores chaves dos povos indígenas. Somam-se a isso alguns retrocessos nas eleições regionais mais recentes.
- No Equador, a Aliança País, de Corre, perdeu as prefeituras de cidades chaves, como Quito, Guayaquil e Cuenca. Na Bolívia, ocorreu o mesmo em El Alto e Cochabamba.
A redução dos preços das commodities, a desaceleração da economia chinesa e o estancamento do comércio global sugerem dificuldades econômicas para a região, em especial para os governos progressistas que abraçaram a alternativa do extrativismo.
Conquistas e misérias dos governos progressistas:
Os governos progressistas realmente existentes alcançaram vitórias populares cruciais, nos últimos 16 anos. Conseguiram derrotar as oligarquias tradicionais, limitaram a influência dos estados Unidos na região, criaram novos cenários de integração a partir do Sul, promoveram programas sociais que reduziram a pobreza em seus países e deram os primeiros passos para enfrentar a hegemonia liberal globalizada.
Mas sua conquista mais significativa foi simbólica: graças a eles, o fantasma da esquerda radical voltou a caminhar pelo continente; a tentativa de demonizar o “castro-chavismo”, tão comum entre a direitas locais, é sintoma do medo que os poderes políticos traducionais sentem, diante de um panorama regional pontilhado por governos de esquerda.
Apesar disso, e sem esquecer das diferenças, tais governos mostraram zonas cinzentas, limitações e retrocessos. Embora tenham impulsionado programas orientados ao bem-estar dos setores empobrecidos, não alcançaram uma substantiva redistribuição da riqueza em suas sociedades.
Em terceiro lugar, vários destes governos substituíram os empréstimos junto ao FMI, condicionados a ajustes neoliberais, por acordos com o governo chinês, condicionados a projetos extrativistas. Ao fazê-lo, substituíram a influência imperial norte-americana pelo ascenso do novo imperialismo chinês.Em segundo lugar, ao promoverem projetos extrativistas geraram resistência social e graves danos ambientais, em territórios ecologicamente sensíveis e em um contexto global marcado pema mudança climática. A aposta no extrativismo permitiu-lhes obter recursos para seus programas sociais sem apelar para políticas redistributivas da riqueza, que golpeassem de maneira decisiva os grandes capitalistas nacionais.
O que foi dito acima prefigura um quarto ponto. Persistem as economias rentistas dependentes das commodities e a dificuldade de gerar novas dinâmicas produtivas e inovação em políticas de circulação, distribuição e consumo que apontem efetivamente a um anticapitalismo possível.
Em quinto lugar, descobrimos que vários governos progressistas – em especial os do Equador, Nicarágua e Bolívia – têm sido curiosamente conservadores em assuntos como
- os direitos das mulheres,
- dos jovens,
- e da diversidade sexual.
- Somam-se graves episódios de corrupção, como se percebe especialmente no caso brasileiro.
Um ponto chave a examinar é a matriz politica gerada nestes anos. Apesar da riqueza dos processos constituintes na Venezuela, Bolívia e Equador, na maioria dos governos de esquerda vigorou uma matriz marcada pelo presidencialismo e o populismo.
Ela privilegiou as construções políticas a partir de cima e do Estado, em relação à construção a partir dos movimentos sociais e organizações populares – com a exceção da animadora experiência das comunas venezuelanas, incentivadas pelo governo bolivariano.
O presidencialismo acentuado dos governos progressistas tornou vulneráveis seus processos de transformação.
- Por um lado, porque a ausência dos dirigentes carismáticos gera uma crise de liderança difícil de superar – como ocorre na Venezuela.
- Ou então, porque uma possível sucessão não garante a continuidade do processo, como vemos no Uruguai ou como teria ocorrido na Argentina, em caso de uma vitória de Scioli.
- Em alguns casos, este presidencialismo conviveu com episódios autoritários, como se evidencia nos casos equatoriano e nicaraguenses, ou nos recentes episódios de ação do governo boliviano contra setores do movimento ambientalista.
Compreender o fim de ciclo

Apesar do cenário adverso e das críticas bem fundadas aos governos de esquerda latinoamaericanos, o panorama da região e a vitória do neoliberalismo na Argentina não configuram uma derrota histórica de larga duração – mas uma mudança temporária na correlação de forças.
Nos últimos anos, a esquerda argentina – em especial, a que se agrupou na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT), ou em organizações populares como a Frente Popular Dario Santillan, ou Pátria Grante – alcançou importantes avanços organizativos.
Embora a vitória de Macri seja um grave retrocesso, também poderia abrir um ciclo de lutas dos setores populares, que certamente irão mobilizar-se para rechaçar seu programa de governo. Algo similar pode ser dito no caso venezuelano: ainda que surja um resultado eleitoral desfavorável para o chavismo em dezembro, seu tecido popular tem a maior capacidade organizativa e de mobilização na América do Sul.
A derrota do peronismo argentino não é a queda do Muro de Berlim de nossa geração. No fim dos anos 1980, sucederam-se vários golpes políticos, que paralisaram a esquerda global, configurando uma época histórica de derrota pra os esforços de emancipação.
Em nossa época, o cenário é muito distinto. Exceto a crise do governo Dilma Roussef, cujo futuro é incerto, em nenhum outro país avizinha-se, em curto prazo, uma derrota similar à que sofreu o peronismo argentino. Ou seja, pode-se compreender o fim de ciclo como a interrupção da etapa de ascenso de governos progressistas e início de uma etapa que exigirá novas lutas e antagonismos.
Mesmo que os analistas da velha mídia esqueçam disso, os governos progressistas em nossa América não tiveram origem nas respectivas vitórias eleitorais, mas em experiências insurrecionais e organizativas que abriram caminho para a onda democrática que varreu a região.
Não podemos esquecer
- a frustrada rebelião militar encabeçada por Chávez,
- as revoltas populares argentinas do início do século,
- as guerras pela água na Bolívia,
- as sucessivas derrubadas de governos no Equador,
- a paciente reconstrução de organizações de massa operárias e camponesas no Brasil após a ditadura,
- ou a persistência do imaginário sandinista na Nicarágua.
Aqui situa-se a verdadeira origem dos governos progressistas.
Das possibilidades organizativas e de ação do movimento popular latinoamericano dependerá a consolidação ou não do “fim de ciclo” progressistas na região. Desta instância também dependerá a correção do rumo programático e político e das esquerdas no continente.
Alejandro Mantilla Q
FONTE: http://outraspalavras.net/mundo/america-latina/america-latina-fim-de-ciclo/
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