Bispos (juízes) misericordiosos

 “Acossado pelos “falcões”, o Papa manda, com essas medidas, um sinal aos setores moderados e à ampla maioria eclesial silenciosa. No fundo, lhes convida a não dar a batalha por perdida no Sínodo e a posicionar-se claramente a favor do princípio da misericórdia.”
           José Manuel Vidal
11.09.2015 – Adital
Francisco busca solução para os matrimônios que, por falta de amor ou outras causas, fracassaram. E trata de tornar fácil para que as pessoas possam refazer suas vidas com outros parceiros. Sem cair no “divórcio católico” e, portanto, salvaguardando a indissolubilidade do matrimônio. Porque as medidas aprovadas pelo Papa, em sendo ‘motu proprio’, não desfazem matrimônios, mas sim os declaram nulos.

Ou seja, o Papa agiliza, simplifica e barateia os, até então, longos processos de nulidade matrimonial, que chegavam a durar dois anos. Mais ainda, amplia as eventuais causas para pedir a nulidade. Converte, portanto, aos bispos em juízes. Ou através de seus próprios tribunais diocesanos, que se implantarão em todas as igrejas locais, ou diretamente, quando os próprios bispos decidirem por uma nulidade. Em um simples ato administrativo, em um mês e grátis.

Ao aproximar a justiça dos fiéis se fará menos demorada, burocrática e, portanto, menos custosa. Hoje os processos de nulidade não são caros e, inclusive, muitos deles são gratuitos. É uma lenda urbana quando dizem que apenas conseguem a nulidade os ricos. Mas, a partir de agora, os custos se baratearão ainda mais, e o matrimônio se poderá declarar nulo com muito mais facilidade.

Se ampliam as possibilidades de nulidade. Entre as novas causas figuram, por exemplo, a falta de fé de um dos cônjuges (algo que já havia tratado Benedito XVI), a simulação no consenso matrimonial, a brevidade de convivência matrimonial, o aborto com o intuito de impedir a procriação, o adultério persistente de um dos cônjuges, o ocultamento intencional da esterilidade, de enfermidades ou de filhos anteriores ao casamento, a violência física para conseguir o “sim” ou, inclusive, o casar-se “obrigado” por uma gravidez imprevista.

Com essas medidas, o Papa pretende inserir a “misericórdia” (grande objetivo de seu pontificado) no âmbito canônico e judicial. A Igreja educadora mas, antes de tudo, mãe. Trata-se de dizer à sua hierarquia que o principal ‘leit motiv’ de seu ofício há de ser a “salus animarum” (o bem das almas). Ou, dito de outra forma, que há de priorizar a atitude pastoral (de pastores atentos, solícitos e misericordiosos) sobre a canônica. Primeiro misericórdia e evangelho; depois, doutrina. Porque a pessoa vem primeiro, e “o sábado foi feito para o homem”, e não o contrário, como estipulou o próprio Cristo.

As medidas chegam a menos de um mês do começo da segunda parte do Sínodo, um acontecimento chave nesse pontificado, onde se abordará com valentia, como pede o Papa, entre outras coisas, a situação das famílias que fracassaram e voltaram a casar, assim como a possibilidade destes ‘recasados’ terem acesso à comunhão sacramental nas missas.

Ante a possibilidade de que o sínodo e, em última instância, o Papa possam abrir essa fenda no cimento armado doutrinal, os setores conservadores vêm há meses gritando aos quatro ventos. Alguns, inclusive, em rebelião aberta contra o processo sinodal e contra o próprio Papa. De fato, são mais de 15 os cardeais que se pronunciaram publicamente contra essa possibilidade. Entre eles, alguns de renome eclesial como Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o ex-prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica Raymond Burke, o ex secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana Camillo Ruini, ou o ex secretário-geral da Conferência Episcopal espanhola, Antonio María Rouco Varela.

Acossado pelos “falcões”, o Papa manda, com essas medidas, um sinal aos setores moderados e à ampla maioria eclesial silenciosa. No fundo, lhes convida a não dar a batalha por perdida no Sínodo e a posicionar-se claramente a favor do princípio da misericórdia. E joga a bola para o campo dos bispos que, a partir de agora, terão que tomar as rédeas do assunto pessoalmente em suas respectivas dioceses. Porque vão ser juízes, mas misericordiosos. Como o pai da parábola do filho pródigo. Mesmo que sob protestos dos irmãos conservadores superiores.

Tradução:Paulo Emanuel Lopes, para Adital.

José Manuel Vidal

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