Caro Dom Dominique,
Agradecemos ao Senhor por sua resposta rápida a nossa carta do 01 de junho manifestando nossa preocupação a respeito da realização do “Pátio dos Gentios” em Xinguara na área dos “Leiloes HD”, no dia 02 de junho, por ser o símbolo do poder, da riqueza e da ostentação dos grandes fazendeiros da região.
Lamentamos de não ter sido possível lhe encontrar nos dias da sua permanência em Xinguara, logo depois do evento, em razão das suas atividades já agendadas, mas estamos esperando sua proposta de data e lugar o quanto antes, como combinado.
Agradecemos também de nos lembrar sua constante preocupação como Pastor de visitar todas as ovelhas da diocese, inclusive as mais pobres e afastadas, os presos e prostitutas, os índios, como o Senhor já o fazia anteriormente nas favelas de Salvador, nas condições mais difíceis e perigosas.
Nunca colocamos isso em dúvida; ao contrario, essa dedicação de nosso bispo para aqueles e aquelas que sofrem ou são marginalizados, sempre nos impressionou e nos alegrou! Inclusive, nós, Frei Henri e Aninha, lembramos muito bem da missa da noite de Natal que o Senhor celebrou, em 2006, no acampamento dos sem-terra “João Canuto”, como também da forte, corajosa e comovente carta pública que o Senhor fez em apoio à CPT e ao Frei Henri, no mesmo ano, quando alguns fazendeiros e membros da Paróquia queriam que ele seja retirado de Xinguara.
Dom Dominique, entendemos, inclusive com muita alegria, sua preocupação que durante essa Missão Continental, o Evangelho seja anunciado a todos, sem distinção de origem, de profissão, de situação e de classe social, de lugar, de religião, a todos em um espírito de respeito e de dialogo, pois todos e todas são filhos e filhas de Deus.
Entendemos também a preocupação do Senhor como Pastor, de reiniciar o dialogo com as famílias ricas que se afastaram da Igreja Católica por diferentes razoes.
Mas, porque fazer o encontro de reaproximação com essas famílias ricas de Xinguara no “Leiloes HD”, símbolo da riqueza, do poder e da ostentação dos grandes fazendeiros, do latifúndio, do agronegócio dessa região?
Ai se realiza cada semana leilões de milhares de bois, dizem até mais de dez mil, animados pelos maiores fazendeiros da região. Ai se encontram Duda Mendonça, Roque Quagliatto, conhecido, alguns anos atrás, como o “Rei do Gado”, o grupo “ Santa Barbara” do banqueiro Daniel Dantas, o maior pecuarista do Brasil e o segundo do mundo, entre outros.
Vários daqueles que freqüentam esse “santuário do dinheiro” tem uma historia marcada pela corrupção, pela violência, pela pratica de trabalho escravo, pelo desmatamento ilegal. Eles são desse grupo ruralista, poderoso econômico e politicamente que está derrubando no Congresso o Código Florestal, a proteção da floresta, dos rios, em contradição com as orientações da CNBB.
Porque esse encontro do Bispo da diocese e dos Padres da Paroquia com essas cento e cinquenta casais afastados da Igreja, tinha que se realizar em um jantar “altamente social”, caro, nesse lugar símbolo de valores tão opostas ao Evangelho? Não faltam em Xinguara outros lugares mais simples e acolhedores, inclusive da Igreja, para esse tipo de evento.*
Não tem dúvida que o povo de Xinguara, os ricos como os pobres, da Igreja Católica como de qualquer outra Igreja ou religião, vai interpretar esse evento como significando que a Igreja Católica esta se aproximando dos ricos. Alguns vão ficar aliviados e felizes, outros preocupados e tristes.
Nos da CPT ficamos com esses últimos. Pensamos com muita tristeza, entre muitas outras, a essas centenas de famílias acampadas, debaixo da lona, na beira da estrada que passa em frente dos “Leiloes HD” e vai para Eldorado dos Carajás, vitimas da ganância desses ruralistas. Muitas dessas famílias sofreram despejos, violência, grilagem, trabalho escravo, assassinatos, inclusive desses grandes fazendeiros clientes do “Leiloes HD”. Como elas vão acreditar ao amor da nossa Igreja, a esse amor preferencial por elas, constantemente reafirmado pelas Conferencias Gerais do Episcopado Latino-Americano de Medellín, Puebla, São Domingos, Aparecida?
Será que a CPT não parecerá fragilizada, marginalizada na paróquia e na diocese? Será que, sabendo desse jantar “chique” da Igreja Católica no “Leiloes HD”, muitos não pensarão que a CPT, na sua opção preferencial pelos pobres, não tem mais o apoio da diocese?
Apesar de tudo, confiamos que o Espírito Santo nos dará a força e a coragem de ser fiel à Missão da CPT: “Convocada pela memória subversiva do Evangelho da Vida e da Esperança, fiel ao Deus dos pobres, a terra de Deus e aos pobres da terra, ouvindo o clamor que vêm dos campos e florestas, seguindo a prática de Jesus.”
Pedimos ao Espírito de ser fiel a Missão de Jesus, referencia para a Missão Continental, proclamada na sinagoga de Nazaré, na Galiléia: “O Espírito do Senhor esta sobre mim porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Noticia aos pobres… para libertar os oprimidos…”
Suplicamos à Maria, padroeira da nossa diocese, referencia também para a “ Missão Continental”, de nos ajudar sempre a acreditar na profecia de seu cântico do Magnificat:
O Todo poderoso “derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias”.
Dom Dominique, pensamos que se os responsáveis de vários setores da Paróquia e da Diocese tivessem sido consultados sobre a oportunidade desse jantar social no “Leiloes HD”, muitos teriam feitos questionamentos e reservas e outro lugar teria sido escolhido, inclusive, acreditamos, ao pedido do Senhor. Infelizmente, ninguém foi informado e nós da CPT soubemos disso, por acaso, dois dias antes.
Fiéis ao espírito colegial e fraternal inspirado na nossa Igreja pelo Concilio Vaticano II, nós achamos útil e importante partilhar essa preocupação e reflexão não só com nosso bispo, mas também com nossos irmãos do Povo de Deus, tornando púbica essa carta.
Continuamos a esperar que o Senhor nos informe quando e onde vamos poder nos encontrar.
Fraternalmente,
Frei Henri Burin des Roziers Ir. Marilande dos Santos Silva
Ana de Souza Pinto Pilar Bravo Pemjean
Paulo Silva Diniz Nilson José de Souto Júnior