O biólogo e etologista Richard Dawkins cunhou, em seus estudos de biologia, a expressão metafórica gene egoísta. No último número deste Jornal (n. 225, maio-junho 2012), importante artigo, intitulado “Do ilusório gene egoísta ao caráter cooperativo do genoma humano”, faz referência ao entendimento exposto por Richard Dawkins em seu livro O Gene Egoísta.
Apesar desse livro falar de egoísmo, ele não é um tratado sobre o tema. O autor, na “Introdução à edição comemorativa” (Companhia das Letras, 2007, p. 10-17), oferece explicações do porquê da escolha do título.
O articulista afirma que “nomes notáveis como o prêmio Nobel Bárbara Mc-Clintock, J. Bauer, C. Woese e outros” vão de encontro às afirmações de Dawkins sobre o gene egoísta. Ele afirma que “Bauer denunciou que a teoria do gene egoísta de Dawkins ‘não se funda em nenhum dado empírico’. Pior “serviu de correlato biopsicológico para legitimar a ordem econômica anglo-americana”.
É normal, em ciência, que autores sigam escolas com interpretações diferentes para os mesmos fatos analisados. Os acima citados autores são adeptos da “seleção de grupo”, enquanto Dawkins defende a seleção individual ou seleção do gene, essa última expressão de sua preferência.
Os estudos de Dawkins no livro citado estão na linha de uma teoria social baseada na seleção natural darwiniana e que foi desenvolvida por nomes como R. A. Fischer, W. D. Hamilton, G.C. Williams e J. Maynard Smith. Ele explora, com exemplos marcantes, a biologia do egoísmo e do altruísmo. Apresenta, sim, dados empíricos importantes a comprovar sua tese. É só ler o livro em questão (entre outros o cap. 6).
Dawkins aborda as principais teses de publicações recentes em teoria social, entre as quais os conceitos de comportamento altruísta e egoísta. Ele é intransigente na defesa da teoria social darwiniana, tida lamentavelmente por alguns como reacionária nas suas implicações políticas.
A teoria social darwiniana não integra uma conspiração cíclica que pretende impedir o progresso social. É descabida a afirmação de Bauer de que a metáfora gene egoísta “serviu de correlato biopsicológico para legitimar a ordem econômica anglo-americana”.
O Gene Egoísta não é um tratado de moral, a ensinar de que maneira nos devemos comportar, ou de que modo deveríamos desenvolver nosso altruísmo para mudar as estruturas iníquas da sociedade capitalista.
Dawkins em nenhum momento traça linhas de uma moral que justifique o conservadorismo e o bloqueio dos avanços da libertação de estruturas injustas. Mas também alerta que não espere ajuda por parte da natureza quem pretenda fundamentar a cooperação generosa e desinteressada para o bem-estar comum.
A seleção natural escolhe como sua unidade básica uma parcela de material genético chamado simplesmente de gene. Deixa de lado a espécie, a população e o indivíduo.
Para Dawkins, o gene é essencialmente egoísta. O egoísmo do gene é uma lei fundamental. O grande mérito de seu livro está em afirmar, diferentemente do que outros cientistas defendem, de que o genoma humano é formado de genes egoístas. Porém, em nenhuma linha de seu livro defende que desse reservatório gênico (gene pool) se originem seres monstruosamente egoístas.
Ele reconhece que seria execrável se uma sociedade fosse fundamentada apenas na lei do egoísmo impiedoso, implacável dos genes. Apesar de ser repugnante e absurda, essa lei, contudo, não deixa de ser verdadeira.
Nenhum indivíduo, seja um humano ou um chimpanzé, nasce com um reservatório gênico altruísta. Examinado com atenção o modo de como a seleção natural neles operou, vê-se sugerido que, tendo evoluído pela seleção natural, eles se mostram egoístas natos.
Mesmo assim não é por causa dos genes egoístas encapsulados em nosso genoma que o altruísmo puro e desinteressado não existe na natureza e nunca existiu antes na história do universo. Há muitas condicionantes do comportamento humano. As necessidades da vida, num meio cada vez mais complexo, podem levar o indivíduo, a se comportar egoisticamente ou altruisticamente. Convém não esquecer que o homem é capaz de modelar a si mesmo e o mundo que o cerca. Pela consciência, ele é capaz de se repensar, de se representar.
Todo homem tem o poder de desafiar os genes egoístas que herda. E pode até estimular deliberadamente o altruísmo, transmitindo genes dele a seus descendentes. Somos capazes de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas, defende Dawkins.
Em biologia, dizemos que homem foi construído, numa evolução pontilhada de erros e acertos, pelos genes egoístas e imortais. E só existimos para assegurar a multiplicação dessas entidades. Há de se respeitar, numa convivência pacífica, a ilusão de quem pensa diferentemente.
Mesmo tendo sido influenciadas pela cultura e educação de seu grupo, as pessoas que agem de modo altruísta, podem, no fundo, ser levados por motivos egoístas secretos, inconscientes, e os genes não têm nada a ver com isso. Se formos atentos em nossas observações, veremos que muitas vezes atos de altruísmo podem ser, na verdade, atos de egoísmo disfarçado.
Alguém pode ser considerado altruísta se o seu comportamento proporcionar aumento do bem-estar de outrem, com prejuízo de si mesmo. Se tal não ocorrer, seu comportamento é egoísta. Em biologia, bem-estar define-se como probabilidade de sobrevivência. Essa influência positiva na sobrevivência de um indivíduo pode ser pequena, diminuta, até desprezível. Não importa. Ela produzirá efeitos benéficos na evolução, ao fim de uma enorme quantidade de tempo, segundo a teoria darwiniana. Em biologia, o efeito de uma ação consiste em diminuir ou aumentar as perspectivas de sobrevivência de um presumível altruísta, bem como as do seu presumível beneficiário.
Há um equívoco a dissipar: a ênfase a ser dada no título do livro de Dawkins deve recair sobre gene, e não sobre egoísta. Mesmo afirmando serem os genes essencialmente egoístas, o autor trata em grande parte de seu livro de formas de cooperação entre eles. Multiplica também exemplos de altruísmo em diversas espécies, e bem assim exemplos de egoísmo vergonhoso da espécie humana.
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