“Deus morreu”, e agora?

” Há quem acuse a fé de mera ilusão. Mas eu creio que ela é sobretudo um combate, como reza esta espécie de testamento de um judeu que morreu em 1943 no gueto de Varsóvia:

“Creio no Deus de Israel, embora ele tenha feito todo o possível para que não acredite… Deus ocultou o seu rosto ao mundo. As folhas em que escrevo estas linhas vou encerrá-las nesta garrafa vazia e escondê-la aqui entre os tijolos da parede, debaixo da janela. Se alguém as encontrar um dia e as ler, talvez entenda o sentimento de um judeu – um entre milhões – que morreu como abandonado de Deus, esse Deus no qual acredita tão firmemente.”

Por ANSELMO BORGES, 11 Junho 2015

1. Volto muitas vezes a esse sublime e abissal texto, pavoroso, um dos grandes da grande literatura alemã, que Jean Paul, pseudónimo de Johann Paul Friedrich Richter, escreveu em 1796: “Rede des toten Christus vom Weltgebäude herab, dass kein Gott sei” (“Discurso do Cristo morto, a partir do cume do mundo, sobre a não existência de Deus”).

Nele, o célebre escritor descreve um sonho. Pela meia-noite e em pleno cemitério, numa visão apavorante, o olhar estende-se até aos confins da noite cósmica esvaziada, os túmulos estão abertos, e, num universo que se abala, as sombras voláteis dos mortos estremecem, aguardando, aparentemente, a ressurreição.

 

 

É então que, a partir do alto, surge Cristo, uma figura eminentemente nobre e arrasada por uma dor sem nome. E, com um terrível pressentimento, “os mortos todos gritam-lhe: “Cristo, não há Deus?” Ele respondeu: “Não, não há Deus.”

Então, a sombra de cada morto estremeceu, e umas a seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo continuou, anunciando o que aconteceu no instante da sua própria morte:

“Atravessei os mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci até onde o ser estende as suas sombras, e olhei para o abismo, gritando: “Pai, onde estás?” Mas apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém governa.”

Quando, no espaço incomensurável, procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas o cosmos infindo o fixou petrificado com uma órbita ocular vazia e sem fundo, “e a eternidade jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se”. O coração rebentou de dor, quando as crianças sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo, perguntando: “Jesus, não temos Pai?”

E ele, debulhado em lágrimas, respondeu:

“Somos todos órfãos, eu e vós, não temos Pai.” “Nada imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah! Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é que não há-de poder ser também o seu próprio exterminador?”

Para Jean Paul, a morte de Deus não era ainda um destino espiritual inevitável. Apenas a tentação de uma possibilidade ameaçadora. E ele queria estar prevenido: que, quando a tentação o visitasse, soubesse de antemão o abismo sem fim, pavoroso, a que a morte de Deus conduz. Quando acordou do pesadelo ateu, a sua alma “chorava de alegria, por poder de novo adorar a Deus – e a alegria e o choro e a fé nele era a oração”.

2. Um século depois (1882), o louco de Nietzsche proclamou a morte de Deus: “Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu!” “Nunca existiu acto mais grandioso.”

Ao mesmo tempo, Nietzsche tem consciência aguda do que se segue:

“Para onde vamos nós, agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”

3. O filósofo Gilles Lipovetsky escreveu, em A Era do Vazio:

“Deus morreu, as grandes finalidades extinguem-se, mas toda a gente se está a lixar para isso. O vazio do sentido, a derrocada dos ideais não levaram, como se poderia esperar, a mais angústia, a mais absurdo, a mais pessimismo.”

Mas Leszek Kolakowski, o filósofo agnóstico, disse que o nosso “é um mundo privado de todo o sentido, de qualquer orientação, sinal de direcção, estrutura”, de tal modo que, desde a proclamação da morte de Deus por Nietzsche, “praticamente nunca mais vimos ateus serenos”: “A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre aberta do espírito europeu, por maior que tenha sido o esforço para esquecê-lo, recorrendo a toda a espécie de narcótico.”

De qualquer forma, agora, no seu livro A Sociedade da Decepção, Lipovetsky, reconhecendo “a reafirmação do religioso”, vem dizer que,

“privados de sistemas de sentido englobante, numerosos indivíduos encontram uma tábua de salvação no reinvestimento de antigas e novas espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um sentido, referências, uma integração comunitária: é o que o homem necessita para combater a angústia do caos, a incerteza e o vazio”.

4. Há quem acuse a fé de mera ilusão. Mas eu creio que ela é sobretudo um combate, como reza esta espécie de testamento de um judeu que morreu em 1943 no gueto de Varsóvia:

“Creio no Deus de Israel, embora ele tenha feito todo o possível para que não acredite… Deus ocultou o seu rosto ao mundo. As folhas em que escrevo estas linhas vou encerrá-las nesta garrafa vazia e escondê-la aqui entre os tijolos da parede, debaixo da janela. Se alguém as encontrar um dia e as ler, talvez entenda o sentimento de um judeu – um entre milhões – que morreu como abandonado de Deus, esse Deus no qual acredita tão firmemente.”

Anselmo Borges ri

Anselmo Borges

FONTE: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4674190&seccao=anselmo%20borges&tag=opini%e3o%20-%20em%20foco&page=-1

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