Nova encíclica do papa Francisco é «muito mais científica do que parece»

«Quem considera estranho que um papa fale de ciência não leu a encíclica, porque eu, ao contrário, identifiquei uma atitude muito científica», considera o físico Roberto Cingolini, diretor científico do Instituto Italiano de Tecnologia.

Paolo Viana – 19.06.2015

Em entrevista ao diário transalpino “Avvenire”, o responsável concorda com as críticas que Francisco dirige ao mundo científico na sua encíclica “Laudato si'” (Louvado sejas), lançada esta quinta-feira.

«Mesmo onde parece que o pontífice acusa a ciência pelo desvio por parte das tecnologias industriais e sociais, na realidade lemos uma constatação objetiva de factos que não podem ser ignorados», vincou.

«Não reduzirei, passe o termo, que não quer ser desrespeitoso, este texto a uma mera dissertação religiosa ou filosófica», acrescentou.

 

Também aprecia a encíclica mesmo quando Francisco acusa a ciência de nos entregar, maugrado os esforços louváveis, uma terra menos rica e bela?

Não vejo um ato de acusação porquanto o objetivo da ciência não era o desvio que o papa descreve, e que está patente aos olhos de todos. A acusação recai no uso desastroso que o homem faz dos conhecimentos científicos e sobre a falta de uma cultura da sustentabilidade. Nós, cientistas, somos movidos por uma motivação transcendental, que é o conhecimento.

Aquilo que descobrimos torna-se tecnologia, e nesse ponto o papa tem razão: deixa de ser um objeto neutro. A tecnologia tem impacto nos hábitos, na economia, nos equilíbrios. Não é o conhecimento a gerá-lo, mas a insuficiente sustentabilidade das suas traduções concretas.

A internet, por exemplo: quem pode contestar a beleza de se estar ligado na rede? Ninguém, mas as “Primaveras Árabes”, nascidas com este pressuposto, falharam porque aquelas sociedades não tinham a capacidade de metabolizar os conhecimentos que usavam.

 

Concretamente, como se sai do impasse?

Não quereria arrefecer os entusiasmos, mas a sustentabilidade é um problema recentíssimo do planeta. Durante milénios tudo funcionou (quase) na perfeição; depois, há seis mil anos, apareceu a sociedade humana, e só nos últimos 30 começaram os problemas verdadeiros, e só desde há 10 os cientistas começaram a falar deles seriamente. Digo os cientistas para sublinhar que a consciência na população é ainda menor.

  • Para sair de um problema é necessário tomar consciência e agir.
  • Não se supera a poluição causada pelos plásticos sem incentivar novos materiais e proibir os que poluem.
  • Não se resolve o problema das migrações erguendo muros, mas atacando os problemas da escassez de água e alimento nas regiões pobres e desérticas. Tudo isto está na encíclica, é dito com as palavras de um papa mas é cientificamente colocado em foco. E no termo da leitura é-se confirmado na convicção de que não é necessário ser religioso para encontrar a motivação de construir um futuro melhor para os nossos netos.

O papa convida-nos também a pensar o mundo com todos os seus equilíbrios e desequilíbrios como «aberto à transcendência de Deus». Consegue-o?
Eu não tenho a grande fé do papa, mas o meu conceito de transcendência é o do desconforto da ignorância; isto é, sentir-se impotentemente ignorante diante de mistérios que estão fora do alcance do nosso cérebro e em relação aos quais cada um encontra o seu esboço do divino. Eu encontro-o neste limite, que, bem entendido, é uma derrota para quem, como eu, crê que tudo esteja no conhecimento.

 

Entrevê Deus naquilo que estuda?

Como especialista em nanotecnologia impressiona-me a ideia de um Arquiteto que com seis átomos fez tudo aquilo que há de orgânico e de biológico; eu, você, um cavalo… só muda a disposição no espaço destes átomos. Quem o fez era um génio de alcance ilimitado. Se depois penso no universo devo aceitar a existência de um infinito insondável ou de um nada – pré “Big Bang” – igualmente inalcançável pela mente. Nesses momentos intuo a transcendência.

 

Para corrigir os desequilíbrios planetários é necessário que a ciência tenha uma ética?

A correção dos desequilíbrios compete à política. Ai de uma sociedade tecnocrática governada pelos cientistas. Mas seria útil mais conhecimento técnico em quem gere a sociedade, isso sim.
Quanto ao perfil ético do cientista, historicamente a especialização das ciências afastou essa figura da do filósofo e do teólogo, pelo que o percurso não é o de preencher a ciência de uma competência ética, mas, e é o efeito que – creio – quer ter a encíclica, educar os cientistas como cidadãos, e portanto todos os cidadãos, para uma ética da sustentabilidade, através da escola, os jornais e todas as agências culturais.

Quando digo ética não falo de “pacotes” de valores, do tipo “ajuda o migrante” ou “paga os impostos”. A ação que interessa é explicar, desde a infância, aos cidadãos de amanhã quais são os problemas e quais as consequências se aqueles não são encarados de modo ético.

Como faz o papa nesta encíclica, que me parece muito mais científica do que parece. Na base desta carta está a ideia de que cada ação – “ecológica” ou não – tem uma consequência, e isto não é religião: é um princípio basilar da física.

 

 

Entrevista: Paolo Viana
In “Avvenire”- Trad.: Rui Jorge Martins

 

FONTE: http://www.snpcultura.org/nova_enciclica_do_papa_francisco_e_mais_cientifica_do_que_parece.html

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