Educar o cidadão!

Somos cidadãos educados? Que significa ser cidadão educado? Hoje a reflexão sobre a educação civil que temos, e que queremos transmitir às jovens gerações, é assunto central e substantivo que envolve o presente e o futuro da nossa convivência social e política.

Para os antigos gregos a formação do cidadão, a paidéia, visava integrar o jovem àAntónio polis, como seu membro efetivo e responsável. O percurso era longo e implicava, por um lado, apreender a controlar a hybris disciplinando as paixões e as ações perniciosas para a convivência civil e política: a avidez, a sede de poder (econômico e político), a violação das leis naturais e divinas, o excesso, a soberba, o orgulho, a prevaricação…; e, por outro, a adquirir e praticar valores positivos para a socialização e a cidadania. Por isso, o processo educativo era voltado à formação integral do jovem: formação física, psíquica, moral e civil de homem e de cidadão para a vida privada e pública, para a guerra e para a paz, para a economia doméstica e o comércio …

Como somos educados (e educamos) nas nossas sociedades, ditas ”democráticas”? Não vamos longe da realidade ao responder: a educação (nas nossas sociedades) visa preparar indivíduos capazes de competir para possuir mais e consumir mais! Produtores-consumidores sempre menos civilizados e politizados; e sempre mais agressivos, violentos, desregrados. Mesmo os percursos formativos institucionais, como a escola nos níveis primários e médios ou as universidades, são vistos como um tirocínio necessário e uma passagem obrigada para sobressair-se bem na competição econômica.

Vigora, nos nossos dias, o fetichismo do PIB! Não importa quantos cidadãos sejam excluídos da escola, da saúde, do trabalho honesto, da habitação digna …, e marginalizados da participação política, dos direitos e deveres de cidadania… O que conta, o que vale, realmente, é a quantidade das riquezas produzidas em cada País! Que, em concreto, a maior parte das riquezas fique na posse de 10% da população mais rica já não parece ser um problema de injustiça absurda na democracia comercial e plutocrática em que vivemos!

Escreveu Kant: “Duas coisas me deixam maravilhado: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”. Sim, o céu continua lindo! Eu gosto de caminhar nas montanhas e vejo sempre paisagens deslumbrantes, céus azuis, sol, vento; às vezes ventanias e nuvens vorticosas que encobrem as arvores, os cimos, e até obscurecem o céu! Mas sei que as nuvens passam e se afastam para longe, deixando que o céu azul volte a resplandecer!

O que intriga é a “veracidade” da segunda proposição de Kant: a lei moral dentro de mim! Será mesmo que a lei moral brilha nas consciências dos humanos? Se olharmos ao nosso redor (e… estamos sempre mais atentos a olhar!) o que vemos não é confortador. Vemos a corrupção e os corruptos, a violência e os violentos, os super-ricos arrogantes que não ligam com os pobres, os desafortunados, os excluídos …, e nos perguntamos: será que os prevaricadores sentem a lei moral dentro de si?

Eu acho que não a sentem, pois a lei moral não é um olho ou um sentido da alma presente, por natureza, em todos os seres humanos. Aristóteles sustentava que as virtudes nascem da permanente repetição de ações boas que acabam por se tornar hábitos, como por exemplo a honradez, a honestidade, a temperança, a fortaleza, a solidariedade humana e civil, etc.

Portanto acho que não seja razoável esperar que as pessoas se tornem virtuosas por um moto de crescimento espontâneo da consciência! Ao contrário é preciso voltar à educação, nela investindo de forma prioritária e universal. Educar as novas gerações é uma tarefa confiada às famílias, isto é a todos nós; à escola e às universidades, isto é à toda a sociedade que deve investir na educação, sabendo que dela depende o nosso presente e o futuro das gerações mais jovens; às igrejas e às livres associações de cidadãos…, pois todos precisamos colaborar para educar e formar os homens humanos e os cidadãos responsáveis que darão sustentação aos projetos de sociedades equilibradas e justas.

A civilidade ou a barbárie dependem de nós. De como educamos nossas mentes e nossas consciências. De como agimos!

Giuseppe Staccone*

gstacco@gmail.com

* Filósofo e Teólogo, Professor de Ética e Filosofia Política nas Universidades Católica e Federal de Recife, autor de várias obras sobre Ética, Filosofia da Religião, diálogo com o marxismo, etc. Trabalhou vários anos como padre no nordeste. Casou e mora agora na Itália

 

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