
A sete meses de deixar a presidência, Cristina Fernández de Kirchner se mantém irredutível em seu compromisso, assumido já no primeiro governo, de enfrentar as corporações que conspiram contra a democratização das comunicações.
Dario Pignotti 04/05/2015
Cristina encarou abertamente essa situação, comprou uma briga direta com o oligopólio encabeçados pelo Grupo Clarín. “Por favor, parem de mentir”, foi o que disse a mandatária, diante das câmaras de TV, com um exemplar do diário Clarín nas mãos.
GUERRA É GUERRA
O governo mantém um combate integral contra os barões da imprensa, que defendem seu status quo aliando-se com banqueiros, fazendeiros, industriais e, principalmente, com a Embaixada dos Estados Unidos.
Parte da estratégia presidencial, nessa guerra esférica contra os donos da imprensa, foi a promulgação de uma lei antimonopolista, que estimulou o debate das massas sobre o direito à comunicação, e destinou fundos milionários aos meios públicos e comunitários.
CONSTRUÇÃO DO CONSENSO
Sem se deixar intimidar pelas pressões da direita e das empresas de notícias, o governo de Cristina impulsou um debate nacional sobre democracia, poder e meios de comunicação, que antecipou o trâmite da Lei de Serviços Audiovisuais (conhecida no Brasil como Lei de Meios), posteriormente levada no Congresso.
O projeto foi discutido durante mais de um ano nas assembleias legislativas do interior do país, em sindicatos, em organizações comunitárias e em faculdades de comunicação, e em todas essas instâncias foram propostos novos artigos, que foram incluídos pelo governo.
Cerca de 20 reitores de universidades pediram aos legisladores que aprovasse o projeto, porque o consideravam “muito avançado e favorável à pluralidade”, avaliação que coincidiu com a expressada por Franck La Rue, relator da Comissão de Liberdade de Expressão das Nações Unidas, a respeito da lei.
Após esse longo trabalho de legitimação e conscientização, o Congresso aprovou, em outubro de 2009, a Lei 26.522, promulgada imediatamente por Cristina.
A presidenta, que assumiu o país em 2007, enfrentou um dilema que havia marcado todos os presidentes democráticos desde 1983: negociar com os cartéis jornalísticos para garantir a governabilidade? Ou enfrentá-los?
Ela, por outro lado, nunca aceitou conversar com os proprietários dos meios massivos, ainda quando foi advertida de que isso significaria hipotecar sua popularidade e a do governo.
“Fazer pactos com os grupos concentrados é ingênuo, os governos que o fizeram terminaram condenado à chantagem permanente”, explica o funcionário Martín Sabbatella.
“Clarín já pressionou todos os presidentes democráticos, e impôs condições a eles, principalmente para impedir que se democratizasse a comunicação” agrega Sabbatella, designado por Cristina para tocar adiante a disputa cotidiana contra as corporações jornalísticas.
“A ditadura argentina terminou em 1983, quando começou a transição democrática. Até hoje, os grandes meios continuam pressionando para atrasar essa transição no âmbito das comunicações”.
“O melhor remédio contra a concentração foi estabelecer um novo marco jurídico. Agora, impera uma legalidade e uma racionalidade democrática, e quem não cumpre com isso deve ser sancionado pela Justiça” diz Sabbatella, cuja principal tarefa é fazer que o Clarín se ajuste à lei, que foi declarada constitucional pela Corte Suprema argentina.
O espírito da norma é criar um modelo “que alimente a pluralidade de vozes e a multiplicidade de proprietários de veículos de comunicação. Não há nada de totalitário nem de intervencionismo estatal. Somente a regulação de um sistema para que não reine a barbárie do mercado”.
Membros da Sociedade Interamericana de Imprensa acusaram a Argentina de promover um modelo estatizante, usaram inclusive o termo “sovietizante”.
Sabbatella refutou a acusação:
“o que está na letra da lei é um sistema de propriedade mista, onde um terço dos meios ficará nas mãos da sociedade civil, o outro terço será administrado pelo poder público e o restante continuará sendo propriedade privada”.
Se trata de um conceito alinhado com uma tendência reformista seguida por vários governos progressistas e de esquerda latino-americanos.
Diante do inquestionável avanço que significou o novo marco jurídico, a resposta do Clarín foi usar os seus advogados, para interpor dezenas de apelações na Justiça, buscando postergar sua aplicação.

- da “liberdade de expressão”,
- do jornalismo “independente”
- e contra os “populismos e as leis que regulam o livre mercado”.
Nessa investida contra a democratização das comunicações, Clarín e outros grandes grupos contam com o apoio do Poder Judiciário e dos partidos da direita tradicional.Informações reveladas por Wikileaks confirmaram, também, que altos executivos e editores da imprensa tradicional visitam habitualmente a Embaixada dos Estados Unidos.
Se, no Brasil, dizem que a Rede Globo é o principal partido opositor, na Argentina é o Clarín que desenha a estratégia da oposição partidária, e chega até a escolher os candidatos que disputarão as presidenciais em outubro.

O que se entende por “fim do ciclo K”?
Através desses meios, e de outros privados, pertencentes a empresários que simpatizam com o governo, se sustenta o contraponto permanente contra o discurso do sistema hegemonizado pelo Clarín.
Isso permite que a tese sobre o direito à comunicação versus a liberdade comercial da imprensa floresça na opinião pública, e seja um assunto que se discuta em bares, mercados e até nos estádios de futebol.
Subsídios do governo foram entregues a rádios e canais de televisão universitários, assim como canais comunitários do interior do país.
Outra iniciativa ousada de Cristina foi adquirir os direitos de transmissão dos jogos do Campeonato Argentino, que antes pertenciam aos meios privados, que transmitiam a maioria dos jogos em canais fechados ou pelo sistema pay-per-view.
Graças a esse investimento milionário, os canais abertos puderam voltar a transmitir gratuitamente os grandes clássicos como Boca Juniors x River Plate, Racing x Independiente e San Lorenzo x Huracán.
A estratégia se consolidou como um dos grandes acertos da presidenta, pois além de exibir os jogos de maior audiência no canal estatal, o governo aproveita os intervalos publicitários para explicar ao público em que consiste a democratização das comunicações, além de denunciar as manobras do Grupo Clarín, que antes cobrava caro pelo direito de assistir, por um canal a cabo, os jogos entre os times mais populares.
Dario Pignotti
FONTE: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Cristina-nao-tem-medo-da-midia-tradicional/6/33401