A Conferência do teólogo Juan José Tamayo, a convite da Universidade Popular de Palência para apresentar seu livro “Outra teologia é possível”, “não foi promovida pelo episcopado, ou por qualquer associação ou movimento pertencente à Igreja Católica”; e para aqueles que se esqueceram, “numa nota da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé” de 10 de Janeiro de 2003, sobre o livro “Deus e Jesus” de Tamayo, «se informa que ” o autor, nos últimos anos, tem seguido em suas publicações teológicas e manifestações públicas, uma trajetória que o separa da comunhão eclesial, coisa que é incompatível com um teólogo católico.”». Por isso o Setor de Comunicação da diocese de Palência, liderada pelo Mons. Esteban Escudero Torre, “se vê na obrigação de alertar os católicos.”
A comunicação do dia 9 de março, contém algumas incongruências: a Universidade Popular, organizadora do evento, não é uma Universidade católica; Tamayo leciona na Universidade Carlos III de Madrid, não católica, como corresponsável pela Cátedra de Teologia e Ciências das Religiões ; se declara cidadão leigo, livre, de modo algum vinculado a qualquer instituição eclesiástica, e a ele nunca foi entregue uma carta com o carimbo “herege”. E então, pergunta o editorial de 12 de março, do diário espanhol El País, “em nome de quê o episcopado está querendo interferir? Que tipo de ética leva a hierarquia a estigmatizar um professor com o pretexto de que ele está fora da “comunhão eclesial”? ».
E continua, com argumentação pesada: «A Igreja Católica – afirma o editorial – é incapaz de articular um discurso coerente sobre a sociedade. Não sabe definir o seu papel em momentos de depressão, nem entende o que move os jovens, além do inundá-los com slogans adequados à publicidade de detergentes, nem tem uma presença ética para enfrentar as “injustiças sociais”.
Mas há uma coisa que ela faz com perfeição: impedir que outros sugiram os objetivos teológicos de uma “comunidade eclesial” em tempos de tribulações. O bispo de Palência mostrou, com este comunicado, entre autoritarismo ressentido e delação, como se tenta impedir o pensamento livre».
O teólogo não se furtou a comentar a iniciativa de Mons. Escudero: “O bispo está desorientado. Confunde o espaço religioso com o espaço público e intervém como se fazia na Idade Média, quando o bispo era um senhor feudal. No espaço público ele pode se exprimir como qualquer cidadão, mas não pode impor a sua ideologia e a sua mentalidade dogmática, muito menos colocar limites à liberdade de expressão, como impedir os católicos que são livres, de decidir por conta própria.
Bispos e teologia se movendo em planos diferentes. Eu não posso submeter minhas pesquisas teológicas às ordens dos bispos. ”
É bastante comum, na hierarquia da Igreja espanhola, impor a censura sobre as conferências de Juan José Tamayo. A última aconteceu em novembro do ano passado: o cardeal de Barcelona, Luis Martínez Sistach vetou uma palestra sobre a situação das mulheres na Igreja, que o teólogo deveria dar na paróquia de Sant Medir. Mesmo assim, Tamayo falou, num espaço alugado pela mesma paróquia, uma rua adiante. Mas foi a terceira imposição de silêncio, no espaço de dois meses, sendo as duas precedentes impostas pelo cardeal de Madrid Antonio María Rouco.
Juan J. Bedoya diz, no El País de 19 de março, que são dezenas, depois do Concílio Vaticano II, os teólogos censurados pela hierarquia. Ele lembra alguns: os claretianos José Maria Vigil, Benjamin Forcano e Evaristo Villar, o franciscano José Arregi, o redentorista Marciano Vidal, os jesuítas José María Díez Alegría, Juan Antonio Estrada e José Maria Castillo. E, sem dúvida, não se pode não citar o caso emblemático de José Antônio Pagola, antigo vigário da Diocese de San Sebastián, cujo famosíssimo livro (mais de 100 mil cópias vendidas), Jesus, uma abordagem histórica, foi censurada pela Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola.
Diante de tudo isso, o teólogo e biblista Carlos Escudero Freire (Redes Cristianas, 20/3), solidário com Tamayo, escreve que “é urgente desmistificar a hierarquia da igreja.”
Segundo a sua análise, “o problema fundamental da hierarquia” está no fato que ela “está vivendo no judaísmo”, enquanto “O Evangelho é profano” (como diz o título de um seu livro). “Pedro e os Apóstolos – explica ele – não conseguiam entender porque Jesus se apresentava como Messias aguerrido, com força e poder, mas como Messias servidor de todos e solidário com os mais pobres; a hierarquia da igreja, pelo contrário, fez e continua a fazer do poder sagrado o seu baluarte.
A partir dessas estruturas de poder e dominação a hierarquia não pode compreender adequadamente o evangelho, que é oferecido à humanidade como um dom inestimável”. E então, a hierarquia “impõe” o seu Evangelho “por todos os meios: excomungando, limitando de mil maneiras e tentando silenciar os teólogos que a criticam, mas que estão em comunhão com os cristãos” de baixo “, com homens e mulheres de outras religiões, com agnósticos e ateus que, sem o saberem, praticam os pontos fundamentais do Evangelho. ”
E há um outro estigma da hierarquia eclesiástica: “o poder sagrado. O mundo do sagrado gera poder e dominação sobre os outros seres humanos. Jesus, que sempre estava sob a influência do Espírito, refutou este poder”, e passou a testemunha, o Espírito, os apóstolos. “O Espírito – é a dedução de Freire – cria fraternidade e igualdade na comunidade cristã, o poder sagrado divide, discrimina e submete.”
(Eletta Cucuzza)
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Tradução do italiano: João Tavares