
No Domingo celebraremos a Páscoa. “Fraternidade: Igreja e Sociedade” é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano.
Infelizmente vivemos um tempo que privilegia o individualismo, a competição, o “salve-se quem puder”. A CNBB está na contramão quando propõe a prevalência do coletivo, da solidariedade, da construção de uma estrutura social que caminhe no sentido da distribuição da riqueza e dos dons.
Leonardo Boff, este profeta que não foi compreendido por setores dos altos escalões da instituição a que pertence, mas muito bem aceito nas planícies, produziu um texto com o título: a ressurreição como insurreição. Disse Leonardo: “Se o Cristianismo tem algo singular a testemunhar, então é isso – a ressurreição como uma antecipação do fim bom do universo e a irrupção, dentro da história, do Adão novíssimo, a que se refere Paulo Apóstolo.”
É tradição de Igrejas Cristãs – Católica, Luterana, Presbiteriana, Anglicana – a imposição das Cinzas.
O celebrante da cerimônia, ao colocar cinzas na testa do fiel, lança uma advertência: “Lembra-te, homem, de que és pó, e em pó te hás de tornar.”
Esta frase lembra-me a infância em Cachoeiro de Itapemirim, quando esta história de cinzas me impressionava e, a contragosto, aceitava ser marcado para morrer.
A lembrança de nossa finitude choca-se com a ideologia deste mundo.
O que tem a Páscoa com o Brasil de hoje?
Embora nosso país tenha uma longa tradição religiosa, nem sempre se estabelece a ideia de Fé encarnada numa estrutura social fundada na Justiça e na rejeição a todas as formas de exclusão e isolamento. A Fé não é uma expressão verbal. A Fé é compromisso, pede uma revolução, como disse o Papa Francisco.
Cristianismo é amor e não ódio. O Cristo não permitiu que se apedrejasse Madalena, a pecadora. Se o Cristo ressuscitasse hoje não admitiria o apedrejamento moral, mesmo dos que erraram, espetáculo macabro a que estamos assistindo. Uma coisa é processar e julgar quem seja acusado de cometer crime, assegurado o direito de defesa. Outra coisa é antecipar a decisão dos tribunais e colocar o cadafalso para a degola.
Atendendo a convocação de Francisco, é indispensável lutar contra todas as desigualdades:
- regionais (Nordeste pobre e Sul rico);
- de gênero (inferioridade da mulher);
- de estrutura urbana (bairros pobres abandonados);
- de classe (trabalhadores mal remunerados, enquanto o capital, inclusive estrangeiro, rende taxas compensadoras);
- de tratamento profissional discriminatório, às vezes despercebido (elevador separado para os que exercem ofícios humildes).
A Páscoa é uma convocação para que se estabeleça a Justiça Social como rota a ser palmilhada com determinação e inteligência.
João Baptista Herkenhoff
Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, membro emérito da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória, palestrante e escritor
Fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=84571
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