
“Quem diz que na Igreja nada mudou mostra que ainda não se atualizou. Anda desfasado da realidade.”
Frei Bento Domingues O.P. – 22 março 2015
1. A teologia católica, desde o Vaticano I (1869-1870) até aos anos 50 do séc. XX, expressa em diversas escolas, sentiu-se desafiada pelas várias expressões culturais da modernidade, mas foi sempre severamente vigiada e castigada pelo Santo Ofício.
A mentalidade tridentinista que o marcava e o pânico diante do chamado “modernismo” fizeram com que muitas pessoas e algumas faculdades de teologia fossem severamente vigiadas, castigadas e silenciadas.
Em geral, tentavam responder ao primordial apelo de S. Pedro: capacitar-se para dar razão da esperança cristã (1Pd.15) na atualidade, segundo as solicitações dos “sinais dos tempos”.
Partiam de uma convicção teológica óbvia: aquilo que não fosse capaz de exprimir a fé, nos vários contextos do presente, era uma traição ao Novo Testamento e à verdadeira Tradição, que passou a ser cada vez mais investigada, para não ser abafada pelas florestas de tradições em expansão.
A cultura, para se manter viva, tem de assumir a tradição nas expressões mais significativas dos panoramas culturais em mudança. Foram as pessoas e as instituições mais castigadas que abraçaram, com mais entusiasmo, o espírito do aggiornamento de João XXIII.
Essas tendências conseguiram, marcar o Vaticano II. A revista internacional, Concilium, continuou até hoje esse caminho, sem qualquer exclusivismo.
Diz-se que as turbulências pós-conciliares resultaram, em parte, do rápido desabrochar das teologias políticas e contextuais: europeias, latino-americanas da libertação, asiáticas, africanas, feministas, hermenêuticas, da inculturação do diálogo inter-religioso, etc.
É verdade. Mas o que será uma teologia sem contexto espiritual, eclesial, religioso e cultural, isto é, sem mundo, quimicamente pura?
O cristianismo tornou-se rapidamente multiétnico, mais católico. A verdade cristã realiza-se na inculturação e adultera-se no colonialismo religioso. A lei do diálogo é simples: quem dá, recebe e quem recebe, dá. Em suma: o catolicismo é colorido e as suas teologias também.
2. A Constituição Apostólica de João Paulo II sobre as Universidades Católicas (1990) destaca o papel que a teologia e as faculdades de teologia devem desempenhar nessas instituições. Não lhes compete, apenas, contribuir para o diálogo entre fé e razão, como é óbvio.
Entretanto, durante o tempo do Cardeal Ratzinger, à frente da Comissão para a Doutrina da Fé, não se descansou enquanto não foram reduzidos ao silêncio os teólogos que não reproduziam o pensamento e estilo do Prefeito. O papel questionante da teologia, no seio da cultura universitária, ficava neutralizado. A Profissão de Fé e o Juramento de Fidelidade, exigidos aos professores de teologia – e não só -, não merece comentários, mas não ficaria mal num relicário.
3. Quem diz que na Igreja nada mudou mostra que ainda não se actualizou. Anda desfasado da realidade.No discurso que o Papa Francisco fez aos membros da Comissão Teológica Internacional (05.12.2014), ao saudar a presença de algumas mulheres, destacou a sua contribuição específica para a interpretação da fé e o seu gênio para aprofundar certos aspectos inexplorados do mistério insondável de Cristo.
Vou destacar alguns pontos.
- Varre décadas de medos que levou a teologia a esgotar-se em disputas acadêmicas e a olhar para a humanidade a partir de um castelo de vidro. Neste tempo, a teologia também deve enfrentar os conflitos: não só os que experimentamos na Igreja, mas também os relativos ao mundo inteiro e que são vividos pelas ruas da América Latina.
- Não vos contenteis, diz o Papa, com uma teologia de gabinete. Sejam as fronteiras o vosso lugar de reflexão. Não cedais à tentação de as ornamentar, perfumar, consertar nem domesticar. Até os bons teólogos, assim como os bons pastores, cheiram a povo e a rua. Com a sua reflexão derramam azeite e vinho sobre as feridas humanas. Que a teologia seja a expressão de uma Igreja-hospital de campanha.
- A misericórdia não é só uma atitude pastoral, mas a própria substância do Evangelho de Jesus. Sem misericórdia, a nossa teologia, o nosso direito, a nossa pastoral correm o risco de desmoronar na mesquinhez burocrática ou na ideologia.
- Tudo somado, quem é o estudante de teologia que a UCA está chamada a formar?
- Não é um teólogo de museu, que acumula dados e informações sobre a Revelação sem saber o que fazer deles, nem um mirone da história, mas uma pessoa capaz de construir humanidade à sua volta, transmitir a verdade cristã em dimensão humana. Não o intelectual sem talento, o eticista sem bondade, o burocrata do sagrado.
O Papa escreveu à UCA, mas o que disse deveria interrogar as faculdades de teologia de todo o mundo.
Sentem-se os teólogos das universidades europeias interrogados pela crise que afetou, sobretudo, os países do sul? Que misericórdia manifestou a Alemanha, pátria da teologia?
