Uma campanha gestada durante o Concílio Vaticano II
Antônio Valentini Neto
Em 2015, Ano da Vida Consagrada, em nível universal, e Ano da Paz, em nível nacional, a Igreja no Brasil vive o último dos quatro anos celebrativos do jubileu de ouro do Concílio Vaticano II, realizado de 1962 a 1965, com recordação destacada de São João XXIII, que o convocou, e do Beato Paulo VI, que garantiu sua continuidade e conclusão.
A comemoração visa a retomada das grandes intuições e diretrizes daquela magnífica assembleia geral dos bispos, “evento eclesial que marcou fortemente a caminhada da Igreja, promovendo a atualização de métodos e de linguagem, verdadeiro Pentecostes do século XX” (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011-2015, 75).
Naquele período, a cada ano, os Bispos do mundo inteiro passavam quase dois meses em Roma, participando dos trabalhos conciliares. Por estarem hospedados na mesma casa, os do Brasil organizavam palestras sobre temas do Concílio, mas também encontros a respeito de atividades pastorais em suas dioceses e de troca de experiências de trabalhos em outros países.
Conheceram melhor uma incipiente experiência na Arquidiocese de Natal, RN, idealizada por três padres responsáveis pela Caritas Brasileira, em 1961, para conseguir fundos para as atividades assistenciais e promocionais da instituição e torná-la autossustentável. Foi realizada pela primeira vez em 1962, naquela arquidiocese e em três dioceses com o nome de Campanha da Fraternidade. Teve o apoio financeiro dos bispos norte-americanos.
Em 1963, foi realizada em 16 dioceses nordestinas. Não teve grande resultado financeiro, mas desencadeou o atual projeto quaresmal anual dos Organismos Nacionais da CNBB e das Dioceses do País, à luz e na perspectiva das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. C
om data de 26 de dezembro daquele ano, o Secretário Geral da CNBB, Dom Helder Câmara, lançava o projeto da Campanha da Fraternidade para todo o Brasil, para ser realizado na quaresma do ano seguinte.
Em 20 de dezembro de 1964, os bispos aprovaram definitivamente este projeto, consolidado durante a realização do Concílio Vaticano II, inspirado por ele e assumido para concretizar algumas de suas diretrizes, especialmente as do compromisso da Igreja com a dimensão social da fé.
Uma campanha com espírito do concílio e para sua implementação
O conjunto dos documentos do Concílio retrata os muitos assuntos nele aprofundados pelos bispos. São 4 constituições, documentos de caráter mais dogmático, sobre: a Liturgia, a natureza da Igreja, a presença da Igreja no mundo e a Revelação Divina.
Nove Decretos, de caráter mais pastoral e de diretrizes a partir das constituições, sobre: a vida e o ministério dos bispos e dos padres, a formação sacerdotal, a vida consagrada, a unidade dos cristãos (ecumenismo), as Igrejas Orientais Católicas, a educação cristã, o apostolado dos leigos, as missões. Três Declarações, pensamento da Igreja sobre assuntos gerais: a liberdade religiosa, os meios de comunicação e as religiões não cristãs.
A constituição sobre a presença da Igreja no mundo, chamada Gaudium et Spes (as duas primeiras palavras do documento, em latim, a alegria e a esperança das pessoas de hoje são a alegria a esperança da Igreja…) apresenta a visão cristã sobre o mundo e o ser humano, sua dignidade, sua existência e sua vocação; reflete sobre a comunidade humana e as relações sociais, o sentido do trabalho e da cultura e sobre a participação da Igreja, enquanto “povo de Deus” inserido na sociedade, na promoção do bem de toda a comunidade humana.
O Papa Francisco atualiza estas intuições, insistindo numa “Igreja em saída”, uma “comunidade samaritana”, ou como “um hospital de campo”, para socorrer e assistir os feridos. Ou quando insiste que a Igreja não pode se omitir, nem deixar de dar sua contribuição para a reta ordem ética, social, econômica e política da sociedade.
Neste sentido, a CF, na maioria de suas edições, abordou aspectos sociais. A deste ano, especialmente, propõe o serviço da Igreja à humanidade, sendo ativa, consoladora, misericordiosa e samaritana. Estimulará a todos a trabalhar para que as estruturas, as leis, a organização da sociedade estejam a serviço de todos, a exemplo de Cristo que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,45). Daí seu tema e seu lema – Fraternidade: Igreja e Sociedade – “Eu vim para servir”.
Uma campanha para o tempo da Quaresma
É da origem e da natureza da CF ser meio de evangelização, no espírito quaresmal, atualizando a pregação dos profetas, segunda a qual o culto que agrada a Deus é o que brota do coração, acompanhado da prática da justiça, da partilha do pão, do vestuário, do conforto ao doente e ao preso, da promoção humana integral de todos.
Assim, ela promove a Quaresma, tempo mais intensivo de conversão, itinerário de aprofundamento da identificação com Cristo, de libertação pessoal, comunitária e social, com a prática do jejum, da oração e da esmola.
Nesta dimensão, o jejum se torna esvaziamento de si, para maior abertura à gratuidade e, nele, viver a doação de Cristo, que, na cruz, entrega seu espírito ao Pai (Lc 23,46). A oração aproxima de Deus, em intimidade sincera, que pode fazer ressoar “a quase súplica de afeto e amor” de Cristo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27,46). A esmola expressa partilha, leva ao encontro daqueles que a sociedade rejeita, treina na busca da bondade e da generosidade do próprio Deus.
Objetivos da Campanha da Fraternidade 2015
Objetivo geral: Aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus.
Objetivos específicos:
– Compreender a situação atual da relação entre a Igreja e a sociedade.
– Discernir as questões que desafiam a evangelização no serviço eclesial à sociedade.
– Fazer memória do caminho percorrido pela Igreja em diálogo e colaboração com a sociedade, a serviço da vida e do bem do povo brasileiro.
– Aprofundar a compreensão da dignidade da pessoa, da integridade da criação e da cultura da paz, em espírito ecumênico e de diálogo inter-religioso.
– Incentivar as pessoas e as comunidades a exercerem seu protagonismo no contexto social em que vivem.
– Atuar profeticamente, à luz da evangélica opção pelos pobres, para o desenvolvimento integral da pessoa e para a construção de uma sociedade justa e solidária.
– Identificar os fatores que constroem a paz e o bem comum, para superar as relações desumanas e violentas.
Aspectos da relação Igreja e sociedade no Brasil no passado e atualmente
A Igreja tem seu surgimento a partir de Cristo, sob o impulso do Pentecostes, há quase dois mil anos, que viveu a cultura de um povo, participando ativamente de sua realidade. Perseguida no início de sua história, sentiu-se fortalecida pelo testemunho de seus próprios mártires.
Passado o tempo da perseguição, pela desarticulação do Império Romano do Ocidente, em 476, a Igreja, já bem mais estruturada, pôde participar expressivamente na sociedade civil no continente europeu. Sua presença e sua atuação foram tão fortes que a sociedade desse período ficou conhecida como cristandade.
Esta cristandade foi abalada por fatos novos nas décadas de 1500, como a Reforma Protestante e o Humanismo. A Reforma causou ruptura no cristianismo. O Humanismo propunha a organização da sociedade em bases humanas e não em conteúdos de fé.
Como o espírito da cristandade permanecesse mais forte na Espanha e Portugal, o papado se aliou aos reinos dessas nações. A aliança com o reino de Portugal se chamou Padroado, que conferia ao rei “a tarefa de defender a fé e o direito de intervir em assuntos eclesiásticos, como nomeação e manutenção de clérigos e fundação de dioceses. Cabia também ao monarca português enviar missionários e gerir os trabalhos eclesiásticos realizados no Brasil” (Texto Base – TB, 17).
O regime do Padroado não impediu a Igreja de realizar sua missão. Missionários, jesuítas, franciscanos, carmelitas, beneditinos, e leigos realizaram grande obra de evangelização. Desta atuação, formou-se o catolicismo da grande maioria do povo brasileiro.
Com a proclamação da Independência, em 1822, o Estado Imperial reconheceu, a exemplo de Portugal, a Igreja Católica Apostólica Romana como religião oficial. A Santa Sé, ao reconhecer o novo Estado Imperial, manteve o regime do Padroado. Mas o Império se mostrava desarticulado e em poucas condições. Muitos bispos e padres tiveram atuação destacada na administração civil. A Igreja organizou muitas obras de saúde e educação.
Com a proclamação da República, em 1889, houve a criação de novas dioceses e paróquias, a fundação de seminários e de obras voltadas para os pobres. Muitas atribuições do Estado passaram para a Igreja.
Entre 1930 e 1950, a Igreja se defrontou com diversas situações que exigiam novas iniciativas pastorais. Entre elas: expansão acelerada de alguns centros urbanos, a formação das classes médias, a ditadura Vargas, o centralismo e a redemocratização política do pós-guerra, o modernismo nas artes e na literatura e a participação das Forças Armadas na Segunda Guerra Mundial (TB 25).
A Igreja respondeu através de algumas organizações, como a CNBB em 1952, a mobilização dos leigos, por meio da Ação Católica Especializada, em várias dimensões sociais, o Movimento de Educação de Base e os sindicatos rurais de inspiração eclesial (TB 26).
No início da década de 1960, com a renúncia do Presidente Jânio Quadros, sucedido por João Goulart, a Igreja participou da mobilização que culminou com o regime militar de 1964.
Nesse período, a Igreja se deparou com novos desafios e nova situação na sociedade brasileira, sobretudo com o avanço da industrialização, o agravamento dos problemas sociais, tanto no campo como na cidade, a ditadura militar e verdadeira ebulição cultural nos grandes centros urbanos (TB 30).
A Igreja desenvolveu então as primeiras experiências de Pastorais Sociais, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) (TB 31).
A Campanha da Fraternidade, lançada em 1964, e o documento “Exigências cristãs de uma nova ordem política”, em 1976, também são respostas da Igreja à situação estabelecida.
Expressiva foi a participação da Igreja no processo de redemocratização do País, a partir de 1980, movimentos da Anistia, Diretas Já, Constituinte, criação de novas pastorais sociais.
A visita do Papa Francisco e a Jornada Mundial da Juventude em 2013 foram fatores de revigoramento da Igreja em sua missão e participação ativa no serviço à sociedade.
Atualmente, numa mudança de época, a sociedade brasileira apresenta alguns desafios maiores:
- a demografia – redução do número de crianças e aumento do de idosos, com previsão de crescimento demográfico negativo em 2040;
- a urbanização – 85% da população nas cidades; 44% em regiões metropolitanas, com problemas de transporte público, saneamento básico, destino adequado do lixo;
- a articulação de políticas públicas com objetivos econômicos e sociais, com o desafio de projetos sociais (bolsa família e outros) que não sejam meramente assistencialistas, mas fatores de efetiva saída da condição de pobreza extrema para a população carente;
- o crescimento da classe média, com mais pessoas usufruindo de muitos bens, mas agora em impasse devido à desaceleração da economia a partir de 2011, deixando muitos endividados num contexto de crédito caro e baixa poupança;
- a situação das minorias, grupos étnicos ou culturais, indígenas, quilombolas, pescadores, comunidades tradicionais e povos nômades, bem como grupos sociais, dependentes químicos, portadores de necessidades especiais e migrantes;
- a violência, cuja causa principal está no comércio de drogas e na drogadição, com 50 mil mortes por ano, atingindo principalmente a população jovem, negra e pobre.
A Igreja vive na sociedade que atualmente apresenta estes e outros desafios, em atitude de diálogo e de serviço a favor da verdade, da justiça e da fraternidade em vista do bem comum.
Presente em todo território brasileiro com Dioceses e Paróquias, desenvolve serviços e obras diversificadas, organiza movimentos de defesa dos direitos humanos e promoção social, desencadeia reflexões sobre a problemática social nas celebrações e orações; em parceria com diversas instituições, promove iniciativas de melhoria da legislação como a do Projeto que resultou na lei conhecida como “ficha limpa” e outros.
No passado, com a carência de políticas sociais do Estado, a Igreja católica organizou muitas obras no campo da educação, saúde, atendimento a crianças abandonadas e idosos, como colégios, orfanatos, hospitais, clínicas, asilos e outras. Atualmente, foram criadas outras pastorais sociais, de acordo com as necessidades, pastoral da criança, do idoso, carcerária, da saúde, do menor, dos pescadores, do povo de rua….
A pastoral da criança salvou e salva tantas crianças da mortalidade infantil. Organismo da Igreja de especial atuação no campo social é a Caritas Brasileira, com campanhas em emergências, na defesa dos direitos humanos, na superação da vulnerabilidade social. Deve ser lembrado também o trabalho da Pastoral da Juventude com sua campanha contra o extermínio dos jovens. Semanal Social Brasileira e Grito dos Excluídos são relevantes as iniciativas.
Nesta visão para a relação da Igreja com a sociedade, é necessário observar que há profundas mudanças na compreensão e prática da fé. Há uma busca individualista de curas e prosperidade. Como alerta o Papa Francisco, dentro da própria Igreja, há práticas baseadas na busca da autossatisfação, da perda do sentido comunitário e do projeto de Jesus.
Há também uma fé subjetivista, fechada de quem “se sente superior ao cumprir certas normas eclesiásticas ou sendo fiel a um estilo do passado” (TB 72-75). Cresceu muito o número dos que já não se declaram católicos.
É necessário acenar também para o ecumenismo que procura fortalecer a busca de uma atuação conjunta em ações sociais inspiradas no amor ao próximo, bem como a colaboração na educação para a paz em ações em vista do bem-estar integral do povo e o bem comum da sociedade.
Na relação Igreja-sociedade, há aspectos de convergência e divergência (TB 80-111).
– o pluralismo: a cultura brasileira tem a diversidade da contribuição europeia, africana e indígena, ampliada pelo processo de globalização. Traz o risco da perda ou relativização de referências culturais e causar fragmentação e desorientação. Exige abertura ao diálogo, à alteridade, à partilha de experiências. A Igreja participa ativamente dos debates das questões mais relevantes e, através da CNBB, acolhe muitos grupos para ouvir suas posições e manifesta a sua em questões relativas à vida.
– a reforma política e a participação popular: O processo democrático precisa de constante aprimoramento. A corrupção vigente requer muito empenho para coibir abusos e estabelecer a moral e a ética.
– as redes de comunicação: É inquestionável o benefício dos modernos meios de comunicação. Conectam a todos, democratizam o saber e fazer aparecer verdades incômodas. Mas podem trazer também grandes malefícios, entre eles, o descaso para a comunicação presencial, a fragmentação diante do volume de informações disponíveis.
– a racionalidade científica ou instrumental: uma visão racionalista quer excluir a dimensão religiosa do ser humano. Sem a visão transcendental, há a deformação ética, o relativismo de tudo. O que não cabe na razão deve ser colocado de lado. Porém, fé e razão não se excluem, mas se requerem e se complementam mutuamente.
– O laicismo e a laicidade: Estado laico é o que não adota religião específica, mas deve permitir a liberdade religiosa de todos e o pluralismo. Nem sempre isto acontece. Na sociedade brasileira, o laicismo, compreensão distorcida da laicidade, hostiliza a relevância política da fé e procura desqualificar o empenho social e político das religiões. A Igreja reconhece a laicidade, não pretende impor suas ideias e doutrinas, não apoia partidos, mas repudia a negação de sua participação na sociedade.
– A cultura do descartável: A cultura moderna e materialista transforma as pessoas em meros consumidores. Objetos e pessoas viram alvo de satisfação e descartável.
– sinais de novos tempos e de esperança: Em meio a esta realidade, há sinais da formação de uma cultura diferente, que respeita a consciência de cada um, promove a tolerância e abertura à pluralidade, a responsabilidade pela vida e preservação do planeta.
A relação Igreja e sociedade à luz da Bíblia e da Doutrina Social da Igreja
A Igreja encontra nas Sagradas Escrituras a base de sua natureza e de sua missão. Elas revelam o plano amoroso de Deus, que criou tudo muito bom e para todos. Revelam também que o pecado humano causou profundo desequilíbrio na humanidade e na própria natureza criada.
Mas Deus permanece fiel em seu amor ao ser humano. Escolhe Abraão e lhe faz uma promessa de lhe garantir a aspiração e a necessidade de toda pessoa humana: uma terra, uma descendência e a bênção. Acompanha o povo formado a partir de Abraão. Liberta-o da escravidão do Egito, o conduz à terra prometida, ensinando-lhe que o alimento (maná no deserto) deve ser partilhado e o poder participado (o conselho de anciãos com Moisés). Propõe a este povo os mandamentos para que possa preservar a solidariedade e a fraternidade.
O povo, porém, imitando nações vizinhas se desvia da aliança e não segue os princípios indicados por Deus. Os profetas fazem continuamente a denúncia dos males e a recordação da aliança. Insistem que agrada a Deus uma sociedade fundada na justiça, que ampare os mais frágeis.
Jesus de Nazaré leva à plenitude o plano divino da salvação. Chama homens e mulheres a segui-lo, acolhendo seu Reino de amor e verdade e estabelecendo relações marcadas pela justiça. Como diz a quarta oração eucarística para diversas circunstâncias, foi cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados.
Viveu a lógica do serviço, rejeitando a lógica do poder. Advertiu os discípulos a não seguirem o modelo social no qual os grandes dominam e exploram. Ele mesmo veio para servir (cf Mc 10,45) que inspira o lema desta CF. Na ceia, expressando em ato este ensinamento, lavou os pés dos apóstolos e lhes disse que deveriam fazer o mesmo.
Jesus confiou aos apóstolos a sua missão, enviando-lhes o Espírito Santo para anunciar o Reino pelo mundo todo. Assim, surge o novo povo de Deus, integrado por todas as nações, pois Cristo veio derrubar o muro da separação.
Assim como o jeito de ser e o ensinamento de Cristo incomodaram os que se consideravam importantes, também os seus seguidores, sendo fiéis a seus ensinamentos, sofreram rejeição. Mas Deus, que sempre tem a última palavra, sustenta os que lutam contra as forças do mal, como muito bem expressa o livro do Apocalipse, livro da consolação para os perseguidos por causa de Cristo.
Com dificuldades internas e externas, a Igreja se sente intimamente ligada à humanidade e à sua história. Vai colocando à sua disposição o que recebe de Cristo. Propõe salvar a pessoa humana integralmente e restaurar toda a sociedade, buscando a “civilização do amor”. “Perita em humanidade”, a Igreja apregoa a natureza social do indivíduo humano, reconhece a família e a sociedade política como indispensáveis ao progresso da humanidade.
Consciente da ajuda que pode e deve prestar à humanidade, sabe também que é ajudada por ela. Sente-se, hoje, desafiada a anunciar o Reino nos chamados modernos areópagos, o mundo das comunicações, a busca da paz, o desenvolvimento integral e libertação dos povos, sobretudo o das minorias e a proteção da natureza.
A partir do Concílio Vaticano II, com o aprofundamento de suas relações com o ser humano, a Igreja realiza a transição do comprometimento com o poder para a solidariedade com os pobres. A partir do Concílio, das Conferências Gerais Latino-americanas e Caribenhas, cresce o compromisso da Igreja com os pobres, buscando sempre mais efetivar a evangélica opção preferencial pelos pobres, na fidelidade a Cristo, que se fez pobre. São João Paulo II, assegura que esta opção está implícita na própria fé. Papa Francisco quer uma Igreja pobre e para eles.
Este modelo de Igreja exige, naturalmente, contínua conversão, para ser decididamente missionária e evitar o perigo de ser meramente uma “ONG sociocaritativa”, no dizer do Papa Francisco.
Mesmo que a natureza e a finalidade da Igreja sejam de ordem religiosa, faz parte também delas sua incidência no social, no político e no econômico, pois é do coração do Evangelho a vida comunitária e o compromisso com os outros.
Na sua presença e ação na sociedade, a Igreja postula princípios irrenunciáveis, a pessoa humana, a sacralidade da vida, a família, a destinação universal dos bens da criação, o bem comum e o desenvolvimento integral.
Para a Doutrina Social da Igreja, o bem comum requer o respeito da pessoa, exige o bem-estar social e o desenvolvimento da sociedade. A comunidade política deve ter por objetivo o bem comum, ou seja, o bem integral de todos os cidadãos e cidadãs, moradia, saúde, educação, lazer e liberdade religiosa. Desta forma, fraude e corrupção são incompatíveis com as exigências da justiça social.
Pelo fato de a Igreja não ter finalidade religiosa, não se confundir com a comunidade política, não estar ligada a nenhum partido, não significa que seus membros sejam indiferentes aos sistemas políticos, ou que sua doutrina social deve se harmonizar com qualquer sistema político.
O que a Igreja reivindica é a liberdade. Nestes princípios, a Igreja no Brasil, por seus bispos, insiste na democracia participativa, passo complemento necessário para a democracia representativa. Com outras entidades, propõe a reforma política e busca o fortalecimento da democracia participativa por meio dos dispositivos constitucionais do Plebiscito, do Referendo e do Projeto de Lei de Iniciativa Popular.
Presença e ação da Igreja na sociedade
Há uma relação muito estreita entre a missão específica da Igreja, recebida de Cristo, de anunciar a Boa Nova da Salvação a todos os povos e a responsabilidade de colaborar com a sociedade. O compromisso com a sociedade faz parte da sua missão. Não há oposição entre compromissos sociais e vida religiosa.
No mencionado documento Gaudium et Spes, que trata da sua presença e da sua ação no mundo, a Igreja afirma claramente a relação entre sua missão específica e a sociedade e adverte: “o cristão que descuida dos seus deveres temporais falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna” (GS43).
Na homilia na Ilha de Lampedusa, Papa Francisco denunciou a globalização da indiferença perante o drama dos que buscam desesperadamente a sobrevivência.
Na América Latina, a partir do Vaticano II, a Igreja faz a antiga e sempre nova evangélica opção preferencial pelos pobres.
As atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil apontam cinco urgências. A quinta, o serviço da vida plena para todos, indica desdobramentos para o cuidado e a proteção da dignidade humana em todas as etapas da sua existência, com a família (crianças, adolescentes, jovens, idosos) com os trabalhadores, com os migrantes, com o respeito às diferenças, com o combate ao preconceito e à discriminação, com o apoio a iniciativas de inclusão social dos indígenas e afrodescendentes, entre outros.
No diálogo e colaboração com a sociedade, a Igreja segue três critérios: a dignidade da pessoa humana, o bem comum e a justiça social.
A realização do bem comum se dá pela promoção e defesa da justiça social.
Para que o bem comum seja garantido a todos, no Brasil, há algumas melhorias urgentes a serem desencadeadas nas condições estruturais e vida da população: reforma agrária e condições do trabalho no campo; as relações de trabalho que compreendem salário justo e o emprego decente; o acesso à moradia; demarcação dos territórios indígenas e mediação nos locais onde há agricultores com título de posse; demarcação dos territórios dos quilombolas; inclusão social de milhares de excluídos (TB 230).
À luz do Evangelho e diante da realidade própria de cada tempo e lugar, a Igreja é permanentemente desafiada à conversão. Conversão missionária, que a mantenha sempre “em saída” ao encontro de todos os que podem se encontrar em desorientação e vazio interior na sociedade.
Algumas pistas de ação em relação a alguns aspectos:
– ao discernimento evangélico: cada batizado deve perguntar-se o que Deus lhe pede diante dos “sinais dos tempos”, especialmente em relação a algumas realidades desafiadoras urgentes. Para isto: refletir em família sobre o que favorece ou não a vida; analisar, em comunidade o que se passa em sua realidade; buscar formas para contribuir na solução dos problemas percebidos.
– à ação das pastorais sociais: elas são a solicitude e o cuidado da Igreja com as pessoas em situação de exclusão, de defesa dos direitos dos necessitados, dos descartados da sociedade. Conhecer seus serviços, participar deles e ajudar a sustentá-los. Ver quais criar na própria comunidade.
– ao diálogo e colaboração em vista do bem comum: ação em parceria com instituições e entidades com boas iniciativas em favor da população carente. Neste aspecto está também o diálogo ecumênico e inter-religioso.
– à superação da violência e à construção da paz: a espiral da violência cresce e destrói vidas e famílias. Criar cultura de paz; inserir o tema da paz na liturgia e oração; articular momentos de oração pela paz com outros grupos religiosos; acompanhar famílias, jovens, escolas… com incidência de conflitos para ajudar a superá-los.
– aos conselhos paritários e participação social: São garantidos pela Constituição em nível municipal, estadual e federal. Ajudar a comunidade a conhecê-los e a valorizá-los; incentivar e preparar pessoas a participar deles;
– à participação na Reforma Política: A Igreja Católica integra a “Coalização pela Reforma Política Democrática e Eleições Limpas”, que propõe: proibição do financiamento de candidatos por empresas e implantação do financiamento democrático, público e de pessoas físicas, ambos limitados; adoção do “voto transparente”, proporcional, em dois turnos, pelo qual o eleitor escolhe um programa partidário e depois nomes; participação das mulheres; fortalecimento da democracia participativa, através do Plebiscito, Referendo, Projeto de Lei de Iniciativa Popular.
– à realização da Campanha da Fraternidade: A CF tem como objetivo permanente despertar e alimentar o espírito comunitário e a verdadeira solidariedade na busca do bem comum, educando para a vida fraterna, a justiça e a caridade, exigências éticas centrais do Evangelho (TB 240). Refletir o seu tema em encontros de lideranças específicas, de grupos de famílias, da comunidade; motivar sua reflexão nas escolas e nos grupos de jovens…
– à coleta da solidariedade: Um gesto concreto da conversão quaresmal é a participação ativa na vida da comunidade que serve e celebra, com testemunho da caridade. Outro é a oferta de doação em dinheiro na coleta da solidariedade no domingo de Ramos, 29 de março. Esta doação deve ser expressão do empenho quaresmal de conversão. Não é mera doação isolada. Por este gesto, a Igreja dá um testemunho de fraternidade e indica a partilha para a superação das grandes desigualdades sociais.
No esforço quaresmal de maior identificação com Cristo, os cristãos, as comunidades cristãs descobrem e propõem modos de conviver que incluam a todos, buscando superar as atuais exclusões sociais, testemunhando a esperança, o consolo e o amor.
Erechim, 07 de dezembro de 2014, segundo domingo do Advento.
Pe. Antonio Valentini Neto, a serviço no Centro Diocesano.