“O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA IGREJA?”
Em uma palestra proferida em San Salvador no dia 18 de março de 2010, por ocasião da celebração dos trinta anos de morte do Dom Oscar Romero (assassinado em 24-03-1980), Padre José Comblin aborda algumas questões históricas e atuais acerca da Igreja. Apresentamos os pontos mais marcantes.
Acompanhemos um resumo da palestra de Comblin.
Constata-se hoje uma sensação de insegurança em muitas pessoas ligadas à Igreja. Observando a história eclesial recente, vemos como no pontificado de Pio XII a Igreja se tornou um castelo medieval, impenetrável, desligado do mundo, tendo condenado, entre outros, todos os teólogos importantes da época. Logo em seguida, porém, o Papa João XXIII possibilitou a volta dos perseguidos, que se tornaram as grandes luzes do Concílio Vaticano II. Nasceu novamente a esperança. Portanto, não devemos nos perturbar: sempre há nova esperança no horizonte.
Fase final da cristandade
Como explicar este vai e vem das tendências na Igreja? Estamos na fase final da cristandade. Há muitos sinais que têm anunciado a morte da cristandade, que está agonizando há 200 anos (a Revolução Francesa), pois ela tem deixado de ser a força que anima, estimula, aquece, explica a fonte da cultura, da economia, de tudo que significava durante o tempo da cristandade, mesmo que a fachada (o Vaticano com todo o seu aparato de poder) continue muito resistente. Percebemos um sinal claro desta agonia na Conferência do CELAM em Aparecida (2007), que mostrou o desejo de transformar a Igreja de “conservação” numa Igreja “missionária”. Mas perguntamo-nos: como as mesmas instituições (dioceses, paróquias, seminários, congregações), que sempre foram de “conservação”, de repente podem tornar-se “missionárias”? E mais: Roma não se convence que a cristandade está morta, pensando que as suas encíclicas e as instituições eclesiásticas ainda iluminam e conduzem o mundo.
Vejamos de perto o que está acontecendo, qual o cerne da questão.
Duas linhas na história cristã
A primeira linha é o que o Evangelho de Marcos recorda: “Jesus veio para mostrar o caminho, para que o sigamos”. Isto é o básico, o fundamental. Esta linha aparece em diversos momentos da história, embora saibamos pouco, porque os que seguiram a Jesus são mais os pobres, e sobre eles os livros de história não falam! Mas há documentos que mostram este caminho, no qual aparece a vivência do Evangelho. Sempre foram as minorias que seguiram esta linha, as “minorias abraâmicas”, como Dom Helder as chamava.
A outra linha é assumida pela grande maioria: os que se dedicam à doutrina, aos ritos, formando uma classe sagrada, a classe sacerdotal.
O pólo do “evangelho” está em contínua luta com o pólo da “religião. Toda a história cristã é uma contradição permanente entre os que se dedicam ao Evangelho e os que se dedicam à religião. O Evangelho se vive na vida concreta, material, social. A religião vive num mundo simbólico: o mundo da doutrina, dos ritos e dos sacerdotes. Não entra na realidade material. O Evangelho é universal, porque não é associado a alguma cultura ou religião. Religiões sempre são ligadas a culturas. Por exemplo: a religião católica atual é ligada à sub-cultura clerical romana que a modernidade tem marginalizado. Esta sub-cultura clerical está em plena decadência, porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. Evangelho é renúncia ao poder. Religião busca o poder e o apoio de todas as formas de poder.
Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião
A tarefa da teologia em relação ao Evangelho consiste em dizer o que provém de fato de Jesus, o que Ele quis, em que consiste realmente o seguimento de Jesus: o que interessa é o Evangelho e o testemunho evangélico. A linha evangélica é esta: São Francisco! Ele era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros. Basta o Evangelho. Nada mais se necessita. Ele mesmo dizia: “De tudo o que ensino, nada aprendi, nem do papa; aprendi diretamente de Jesus, através de seu Evangelho!” É isso que pode convencer o mundo de hoje que está perturbado e se refugia cada vez mais nas antigas igrejas institucionais e tradicionais.
A tarefa da teologia em relação à religião consiste em examinar todo o sistema religioso, o que realmente ajuda a entender, compreender e atuar conforme o Evangelho. Examinar, com sinceridade, o que vale hoje. Há muitas coisas que devem ser revistas. É inútil querer defender ou manter algo que é obstáculo à evangelização.
Novo Franciscanismo
Na América Latina aconteceu uma nova etapa radical na vida evangélica, desde a Conferência de Medellín (1968), onde se fez a opção pelos pobres. Esta opção tem seu fundamento num acontecimento em Roma no dia 16 de novembro de 1965. Naquele dia, nas catacumbas de Domitila, quarenta bispos, na maioria latino-americanos, sob a liderança de Dom Helder, pediram fidelidade ao Espírito de Jesus. Eles firmaram o assim chamado “Pacto das Catacumbas”, comprometendo-se a viver na pobreza, rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e colocar os pobres no centro de seu ministério pastoral. Foram estes bispos que inspiraram mais tarde a Conferência de Medellín. O contexto era favorável: – as Comunidades Eclesiais de Base que já haviam nascido; – já havia religiosos e religiosas inseridos no meio popular, embora sempre uma pequena minoria; – os movimentos populares estavam em alta. Era uma época de muita criatividade!
Quem vai evangelizar o mundo de hoje?
São os leigos. Há, por exemplo, muitos grupos de jovens que estão em contínuo contato com o mundo dos pobres. Os leigos têm deixado de ser analfabetos. Eles têm uma formação humana, cultural, de sua personalidade que é muito superior ao que se ensina nos seminários. Ou seja, eles têm mais preparo para atuar no mundo, embora não tenham muita teologia.
Mas, nós podemos! Podemos multiplicar em todas as regiões grupos de leigos engajados. Esta é a nossa tarefa. Os leigos são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas. Têm êxito em sua família, em suas carreiras e seus trabalhos profissionais. Porque esperar o bispo ou o pároco? Porque não atuar, formar uma associação, um grupo, em forma independente? O próprio Direito Canônico permite a formação de associações independentes do bispo, do pároco. Pode-se muito bem juntar quatro ou cinco pessoas para organizar um sistema de comunicação, de espiritualidade, de organização de presença na vida pública, na vida política, na vida social. Porque tanta timidez? Os leigos são tão capacitadas no mundo, e na Igreja ….. nada! Como é possível ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa?!
(Texto n.º 5 em preparação ao encontro nacional de MFPC de 2012)