5 textos preparatórios para o XIX Encontro MFPC

“Da Igreja que temos para uma Igreja

à luz do Concílio Vaticano II na América Latina”

Texto n.º 1 em preparação ao encontro nacional de MFPC de 2012

“ ET UNAM CATHOLICAM ECLESIAM…”

Todos nós rezamos ou cantamos em cada celebração da Páscoa de Jesus: “Creio na Igreja una, ….., católica, ….. .”.

Como podemos entender esta afirmação do símbolo da nossa fé, que herdamos dos concílios ecumênicos de Nicéia e Constantinopla: “igreja una”?

Como entender a Igreja que se faz presente num mundo no qual há tanta diversidade na experiência religiosa dentro das grandes religiões?

Vejamos como a nossa Igreja Católica é eclética, diversa, de tal forma que a pretensa “unidade” fica ofuscada. O catolicismo não é mais um bloco monolítico, pois há muita fragmentação, diversificação[1].

  1. Catolicismo popular, caracterizado pela devoção aos santos, pela identificação mais com Jesus morto, do que com o ressuscitado, e marcado por uma visão muitas vezes fatalista da realidade. Na América Latina, este catolicismo sobreviveu durante muitos séculos sem a presença institucional, principalmente do clero.
  1. Catolicismo comprometido, caracterizado por uma ação evangelizadora e pastoral com e na perspectiva dos empobrecidos, oprimidos e excluídos, sublinhando a dimensão social e política dos cristãos frente às injustiças na sociedade (Concílio Vaticano II, Medellín e Puebla). As suas expressões mais fortes encontram-se nas Comunidades Eclesiais de Base e na Teologia da Libertação.
  1. Catolicismo reacionário, caracterizado pela preocupação com a Igreja como instituição e a ortodoxia (fidelidade à tradição e às decisões do Magistério). Combate os que dão destaque à dimensão sociopolítica da fé.
  1. Catolicismo universalista, caracterizado por fazer-se presente através de movimentos internacionais (p. ex. Opus Dei), e revestir-se das mesmas características do catolicismo reacionário. Preocupa-se com a identidade católica, por ter medo de perdê-la num mundo tão pluralista. Os seus adeptos valorizam muito a instituição clericalizada. É um tanto triunfalista.
  1. Catolicismo pentecostal, caracterizado por forte emocionalismo, tornando-se uma espécie de religião do coração (p. ex. a R.C.C.), e por uma espiritualidade intimista e desencarnada. É fortemente influenciada por grupos evangélicos pentecostais. Sente-se bem no catolicismo reacionário e universalista.
  1. Catolicismo emancipado, caracterizado por estar aberto a profundas inovações e renovações internas (estruturas) da Igreja, querendo aprender também de outras igrejas cristãs e outras religiões. Vive uma espécie de ‘cisma branco’, porém sem ruptura jurídica. Quer mais autonomia para as igrejas locais e uma maior valorização das conferências episcopais nacionais (como, p. ex., a CNBB). Crê-se em Jesus Cristo e sua Igreja, mas não em tudo dessa Igreja.
  1. Catolicismo descomprometido, caracterizado por uma fé que faz parte da tradição em termos de herança familiar e que se expressa em obrigações formais e sacramentalização ocasional. É uma religião desvinculada da vida e privatizada, sem implicações éticas nem no plano individual, nem no social.

Se olharmos ao nosso redor, observamos a presença destes estilos diferentes da Igreja ser.

Perguntemo-nos:

– Para ser a Igreja do futuro, que passos a Igreja do presente deve dar num futuro próximo, que tarefas ou desafios a esperam?

– Estas maneiras diferenciadas funcionam de forma complementar ou expressam contradições, até talvez insuperáveis, por apresentarem diferenças profundas, tanto na sua interpretação bíblica, reflexão teológica, espiritualidade e prática eclesial?

– Como MPC, nos identificamos com uma ou mais destas maneiras de catolicismo, e o que podemos significar no meio disso tudo?

“DA IGREJA QUE TEMOS PARA UMA IGREJA

À LUZ DO CONCÍLIO VATICANO II NA AMÉRICA LATINA”

Texto n.º 2 em preparação ao encontroo nacional de MFPC de 2012

A MISSÃO DA IGREJA HOJE

Ao ser entrevistado, em Fortaleza, por um grupo de leigos entre 2005 e 2006, Dom Aloísio Lorscheider, conhecido, entre outros, por seu apoio irrestrito aos padres casados, suas esposas e famílias, mostrou sua profunda preocupação tanto com o momento atual da Igreja, como com o futuro dela.

Dom Aloísio apresenta sete pontos relevantes de reflexão acerca da Igreja em sua relação com o mundo. Trata-se de assuntos que, na opinião dele, deveriam formar a grande pauta da Igreja hoje.[2]

  1. “Nós ainda não conseguimos formar pessoas livres, responsáveis, conscientes. A idéia de que nós criamos a história e de que cada um contribui para escrever esta história é sumamente importante para ajudar as pessoas a crescerem. Pessoas livres, pessoas francas – isso deveria existir também na Igreja: no meio da comunidade eclesial deveria haver mais possibilidade de ser franco e de opinar, de não ter medo. Existe um certo analfabetismo que não consiste apenas em não saber ler e escrever, mas em não possuir um senso crítico da vida.”
  1. “Devo mencionar uma das grandes tendências mundiais que é o do ‘secularismo’, que é a visão do mundo e do homem que exclui a necessidade de recorrer à transcendência ou à religião para fundamentar as instituições sociopolíticas. Devemos manter a noção cristã de ‘encarnação’, isto é, a crença de que nós contemplamos a graça, a verdade e a glória da divindade ligada à humanidade, de que Deus mesmo armou sua tenda em nosso meio.”
  1. “Outra tendência mundial é a do ‘relativismo ético’: inúmeras pessoas hoje consideram as noções de ‘certo’ e ‘errado’, de ‘bem’ e ‘mal’ passíveis de interpretações subjetivas. Alguns chegam a negar qualquer possibilidade de afirmar valores universais. Devemos procurar visar melhor o equilíbrio, a harmonia entre a normatividade objetiva – válida para os coletivos humanos – e as máximas subjetivas, válidas para a minha conduta particular.”
  1. “Estamos diante do desafio de repensar, na América Latina, a tal da globalização. Pois, simultaneamente à globalização das estruturas econômicas ocorre a imposição global de uma única cultura materialista e consumista que está suplantando, lentamente, as diversas culturas tradicionais dos povos.”
  1. “Ao invés de um consumismo acrítico a desenfreado, necessitaremos promover uma distribuição eqüitativa dos bens deste mundo. Este desafio nos remete à doutrina social da Igreja, a qual poderá fornecer alguns princípios básicos para um engajamento nesta direção. ….. . Paz e tranqüilidade serão frutos de um esforço maior por justiça social. Devemos ser capazes de globalizar a solidariedade, de fazer das necessidades dos que mais sofrem a pauta principal dos grandes encontros políticos. Lemos em Atos, cap. 4: ‘Não havia necessitados entre eles’, o que poderia ser um princípio ético muito precioso, uma meta para toda a humanidade perseguir rumo a uma maior unidade e integração.”
  1. “Nós, católicos, devemos ser muito mais divulgadores do evangelho social! É claro que a situação econômica social tão discriminatória depende, em grande parte, dos governos, dos empresários, dos banqueiros etc., mas depende – talvez em escala menor – também de nós, da Igreja Católica! Os cristãos católicos não evangelizam como deveriam evangelizar.”
  1. “Precisamos refletir – filosoficamente, teologicamente, não importa! – contanto que nossa reflexão seja guiada por problemas e realidades bem concretas. Devemos ser capazes de perceber e interpretar os sinais dos tempos. Conseqüentemente a nossa maneira de evangelizar deve ser a do engajamento e do diálogo (escutar mais e falar menos), que, no fundo, significa testemunho. Evangelizar quer dizer dar testemunho de uma vida mais autêntica – a vida em Cristo, a vida na Graça.”

 

“DA IGREJA QUE TEMOS PARA UMA IGREJA

À LUZ DO CONCÍLIO VATICANO II NA AMÉRICA LATINA”

Texto n.º 3 em preparação ao encontro nacional de MFPC de 2012

“NÃO DEVEMOS TROCAR O FUNDAMENTO PELO ACESSÓRIO”

Nós, seres humanos, apreciamos e valorizamos, em geral, mais as aparências do que aquilo que está por trás delas, a essência. Isso acontece também em relação a um assunto que gostamos tanto de debater: a Igreja. Promovemos longos debates e intermináveis noites de conversa sobre a Igreja, enquanto pouco tempo reservamos para falar do que de fato importa: Jesus Cristo e a nossa fé. O nosso irmão Lauro escreveu: “Não devemos trocar o fundamento pelo acessório, porque o nosso compromisso é, primeiro, com Jesus, e só depois com a Igreja (e-mail em 05-12-2007).

Estamos passando por um momento feliz. Dizem por aí que a Igreja está em crise. Crise, de um lado, porque há escândalos, porque há muitas divisões internas, porque o Papa não tem aquela popularidade de seu antecessor, porque as igrejas evangélicas avançam nos continentes da África e América Latina, continente este que também entrou de cheio no processo de secularização, enquanto grande parte da Europa passa por um momento de descristianização, entre outros, pelo avanço do Islamismo. Crise, do outro lado, porque o pensar teológico está estagnado desde os anos oitenta, em razão da mão controladora do Vaticano, porque estamos num processo de romanização nunca vista na Igreja, facilitada pelos modernos meios de comunicação: tudo é dirigido à Roma e tudo há de sair de lá. Voltamos ao “Roma locuta, causa finita est!” (Roma fala, assunto encerrado).

Mas, existe crise feliz? Cremos que sim. Toda crise nos oferece condições propícias para reflexão, que pode desembocar em renovação. O ‘aggiornamento’ dos tempos conciliares, quando o Papa João XXIII desejava atualizar a Igreja, para que ela aprendesse andar no ritmo do mundo no qual está inserido, é um processo contínuo. Diz Dom Aloísio Lorscheider: “’Aggiornamento’ há de ser algo constante, porque quer dizer, no fundo, que eu devo fazer um esforço permanente de expressar aquilo em que eu creio de forma compreensível para hoje.”[3] A crise vivida como processo purificador é salutar e faz soprar um vento fresco nas instituições ou pessoas, que estão em processo de enferrujamento. Crises não acontecem somente por causa de fatores externos, mas principalmente em conseqüência de longos processos de estagnações internas. “A Igreja deve sempre se reformar. A necessidade de reforma permanente é uma constante de sua história. Não se trata de modificar a Igreja, mas de voltar ao que ela era ao sair das mãos de seu fundador e de seus Apóstolos. Haverá alguma Suma Teológica, alguma coleção de documentos da Igreja que pode ser comparada ao Novo Testamento e, especialmente, aos Evangelhos?”[4] Ou seja, antes e acima de tudo o Evangelho, a palavra de Jesus, isto é, o próprio Jesus. Todo o restante vem em seguida.

Crises nos alertam para ficarmos atentos aos sinais, sempre abertos para ouvir, rever, adaptar, renovar, mudar de rumo. Há pessoas que ficam tontas ao se encontrarem em alguma encruzilhada. Melhor é pensar positivo: a encruzilhada me oferece uma oportunidade de escolha. Portanto, vamos sentar, discutir, ouvir para, em seguida, retomar o caminho no rumo certo. Trata-se de ser vigilante, usar de sensatez, ter juízo (cf. Mateus 25,1-13), a fim de estar preparado para o futuro, construindo-o com as próprias mãos, como sujeitos de nossa própria história.

Neste sentido encontramos um artigo, enviado por e-mail (2007) (www.ofurlan.prof.ufsc.br), que nos parece ser um convite para reflexão a respeito do MPC em sua relação com a Igreja e com o Mundo. Citamos alguns aspectos ainda muito atuais, apresentados por nosso colega:

  1. O MFPC precisa fazer revisão ampla de seus objetivos e metas, porque o clero casado, vivendo no mundo envolto em graves e múltiplos problemas, já não pode pautar-se por uma visão míope, moralizadora, clericalista, arcaizante, romanista, sacristã, alienada do mundo, que marcou o clero do passado. Ele, por estar engajado na sociedade humana, deve investir não só na evangelização cristã dela, mas também na promoção da dignidade humana. Não vale a pena gastar tempo com questiúnculas pessoais, teológicas ou metafísicas. O que urge é contribuir para promover o ser humano e libertá-lo da situação de perigo e miséria em que se encontra. De luzeiro nesse sentido poderia servir a constituição Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II.
  1. O MFPC armazena poder e capacidade de melhorar o mundo. Trata-se de um grupo significativo de pessoas portadoras de liderança social, cabedal intelectual e capacidade de agir. Valendo-se de seu poder de liderança social e agindo como grupo, perante grandes auditórios ou, mais ainda, pela mídia, estará pressionando a alavanca que melhora a vida da sociedade humana.
  1. O MFPC deve investir na promoção do ser humano em todos os seus níveis:

o ser humano em relação á sobrevivência: tornar sustentável um meio ambiente, que garanta sua sobrevivência no planeta, na linha de Leonardo Boff: em todas as regiões, sobretudo no Brasil, em especial na preservação da Amazônia como pulmão do mundo. É fundamental contribuir para reverter o catastrófico processo de degradação da natureza e da sobrevivência humana nas diversas regiões do planeta.

o ser humano em busca da sua libertação, dignidade e bem-estar social: promover a harmonia social e o equacionamento dos conflitos, desde a célula familiar até a aldeia global, como os do preconceito, das injustiças sociais, do narcotráfico e da violência; em suma, promover o cumprimento dos dez mandamentos e da Constituição Federativa do Brasil; promover uma cultura de valorização do trabalho e da profissionalização, da vida, da escolarização, da saúde, da segurança, da probidade na administração privada e pública, da eficiência e responsabilidade no desempenho profissional, do ecumenismo e da fraternidade. O MPC poderá questionar inúmeros aspectos da administração pública e contribuir para aprimorá-la.

  1. O MFPC deve também levar ao mundo soluções cristãs, não embaladas em contexto cultural de 2007 anos atrás e das estruturas tradicionais da Igreja de Roma, mas na cultura de hoje, como se Cristo estivesse pregando a Boa Nova ao real mundo de hoje, na rua ou na mídia. Por que não posicionar-se diante da estrutura da Igreja e da efetividade de sua missão, como aspectos do celibato clerical, da moral, da doutrina, etc.?

Sempre é hora de nos interrogar:

– quais são as condições que temos, ou que podemos criar, como MPC, para influenciar na Igreja e no Mundo?

– de fato estamos preocupados com a essência, ou nos refugiamos em meras aparências?

 

 

talvez este gesto ajude

 

 

 

 

“DA IGREJA QUE TEMOS PARA UMA IGREJA

À LUZ DO CONCÍLIO VATICANO II NA AMÉRICA LATINA”

Texto n.º 4 em preparação ao encontro nacional de MFPC de 2012

QUEM ESTÁ COM A VERDADE?

O Evangelho vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não tem fundada uma religião, nem ritos, nem tem ensinado doutrinas, não tem organizado um sistema de governo, nada disso. Ele se dedicou exclusivamente ao anúncio e à promoção do Reino de Deus, o que significa dizer que propôs uma mudança radical de toda a humanidade em todos os aspectos, mudança esta, da qual os pobres são os atores, porque somente eles são capazes de atuar com sinceridade e autenticidade para promover um mundo novo. Esta é uma meta política, porque é uma orientação dada a toda a humanidade.

E a religião? Em primeiro lugar, observamos que os discípulos de Jesus têm criada uma religião a partir d’Ele, porque a religião é indispensável ao ser humano. Não se pode viver sem religião (nos Estados Unidos há 38.000 religiões registradas!). A religião é uma criação humana, é uma mitologia, indispensável à humanidade. Em segundo lugar: religião é composta de ritos para conter as ameaças e assegurar-se de benefícios. As religiões têm pessoas separadas para administrar os ritos e ensinar a mitologia.

Como começou a religião? Quando Jesus foi transformado em objeto de culto. O culto a Jesus vai substituindo o seguimento de Jesus. Ele nunca pediu a seus discípulos um ato de culto, mas queria o seguimento. Essa dualidade começa a aparecer uns 40 anos após a morte de Jesus, precisamente a partir de pessoas que já não tinham convivido com Ele! (texto transcrito de parte da palestra de Padre José Comblin em 18-03-2010 em San Salvador).

Continuemos esta reflexão com ajuda de um texto da teóloga Ivone Gebara:

A Igreja hierárquica institucional sempre acreditou e acredita numa verdade hierárquica, ou seja, numa verdade que emana das hierarquias, de cima para baixo. Acredita que há uma verdade sobre os seres humanos e sobre a vida da Igreja que é revelada por Deus, sobretudo às autoridades que governam a Igreja. São elas que se apresentam como as fiéis cumpridoras dos desígnios divinos e responsáveis por sua execução na comunidade dos fiéis.

Nessa cosmovisão imagina-se que exista o mundo de Deus (mundo espiritual) que se contrapõe ao mundo humano (material), de forma a ouvirmos com freqüência a frase que contrapõe “os desígnios de Deus e os desígnios humanos”. Esta contraposição muitas vezes é tirada de seu contexto original profético e é afirmada como uma contraposição entre uma realidade desconhecida e uma realidade conhecida. A realidade desconhecida é considerada de Deus e é a mais perfeita. A Igreja tem aparentemente domínio sobre esta realidade que não se vê, realidade chamada de espiritual. A partir dessa consideração a Igreja hierárquica se afirma como a Mestra que convida à obediência às leis da Igreja considerada como obediência aos desígnios divinos. Mas, estes desígnios apesar de chamados espirituais incidem sobre a materialidade da vida humana e por isso mesmo revelam toda a sua contradição. Estas ordens ditas do espírito incidem sobre nossa materialidade, nossos corpos como única e complexa realidade que nos constitui. Esta visão dominante no passado continua presente ainda hoje.

Entretanto, sabemos que desde sempre, na história da Igreja houve movimentos que representavam outra concepção da verdade. Identificavam a verdade ao amor real ao próximo, aos irmãos e irmãs caídos nas estradas da vida, aquelas e aqueles marcados pelo sofrimento e oprimidos pelas injustiças sociais de diferentes tipos. A verdade para eles era a busca da vida digna, a verdade era a afirmação dos direitos à dignidade humana representada pelo acesso às coisas mais básicas que nos permitem viver: comer, beber, vestir, trabalhar, ter moradia digna, ter saúde, ter direitos garantidos, ter acesso aos conhecimentos, viver em paz pareciam ser expressões da verdade humana, ou seja, expressões das coisas das quais necessitamos para viver. A verdade da vida não é abstrata, mas é relacional, se afirma através de nossas relações fraternas e sororais. Esta verdade concreta que pessoas como São Francisco de Assis, Santa Clara, São Vicente de Paulo. Sóror Joana Inês de La Cruz, Dom Helder, Dorothy Stang, Chico Mendes, Madre Tereza de Calcutá liam na tradição de Jesus, se contrapunha às verdades dogmáticas e, sobretudo à afirmação do poder religioso sobre os fiéis. O poder religioso, quase sempre cúmplice dos poderes políticos e econômicos dominantes, não pode suportar qualquer afronta ao que julga desobediência à sã doutrina. Para eles na sã doutrina estava a verdade e estava a vontade de Deus e o seguimento de Jesus Cristo. Mas, para o outro lado a verdade não estava na sã doutrina emanada das querelas reológicas ou dos interesses de minorias privilegiados. A sã doutrina era a vida sã, a vida sadia vivida na liberdade e no respeito, na partilha do pão e do vinho, da terra e de seus frutos. Desde os Padres da Igreja se afirmava que a glória de Deus é “o homem de pé”, ou seja, o homem e a mulher vivendo no respeito e na dignidade uns dos outros. A esta afirmação de fé houve críticas e esforços reiterados para que ela não fosse considerada como ensinamento fundamental da vida cristã. Ela podia ser perigosa e ameaçar o poder dos privilegiados. A tendência dominante sempre espiritualizou a verdade assim com o corpo. Enfatizou que o corpo era chamado à corrupção, à morte e que apenas as almas seriam salvas na eternidade. Entretanto, para o outro lado, o ser humano é uma realidade única, indivisível. A verdade, por sua vez, não é uma firmação abstrata, uma idéia na qual somos obrigados a crer, um ensinamento que nos disseram ser a verdade revelada sobre Deus ou sobre nossa vida. Mas, a verdade é o irmão caído na estrada, a irmã violentada em seu corpo, os povos expulsos de suas terras, as crianças com fome de pão e de amor, a terra devastada e destruída pela ganância de poucos. A verdade é o outro que me interpela. A verdade sou eu na minha fragilidade capaz de ser interpelação para os outros. A verdade é a palavra que ouço nos limites de minha história, uma palavra que me vem dos muitos injustiçados e sofredores de nosso mundo. É esta palavra que é carne e se faz continuamente carne para que nossos ouvidos de carne possam ouvi-la e entende-la. É esta palavra histórica próxima de mim a única capaz de me mover para amar o meu próximo. É a palavra criadora de novas relações entre os seres humanos e toda a criação. Esta palavra é Deus na carne humana, seguindo o Prólogo do Evangelho de João. É ela a única capaz de penetrar os nossos ouvidos e nos tirar dos excessos de individualismo e da fuga de nossa responsabilidade comum.

A verdade institucional muitas vezes se debateu com a verdade dos corpos feridos e sofridos. Era a luta do chamado espírito contra a chamada carne. A Igreja hierárquica sentiu-se ameaçada pelos representantes desta tendência visto que eles contrariavam a excelência das doutrinas e a riqueza vergonhosa das instituições religiosas de poder. Nesse sentido todas denúncias provindas não apenas através das palavras, mas dos atos que significavam uma recusa ao estado de injustiça estabelecida foram consideradas ameaças à são doutrina, desobediência aos representantes de Deus e finalmente grave desobediência a Deus. Foram até certo ponto considerados desvios ou quase mentiras em relação à fé pura pregada pelas instituições.

 

DA IGREJA QUE TEMOS PARA UMA IGREJA

À LUZ DO CONCÍLIO VATICANO II NA AMÉRICA LATINA”

Texto n.º 5 em preparação ao encontro nacional de MFPC de 2012

“O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA IGREJA?”

Em uma palestra proferida em San Salvador no dia 18 de março de 2010, por ocasião da celebração dos trinta anos de morte do Dom Oscar Romero (assassinado em 24-03-1980), Padre José Comblin aborda algumas questões históricas e atuais acerca da Igreja. Apresentamos os pontos mais marcantes.

Acompanhemos um resumo da palestra de Comblin.

Constata-se hoje uma sensação de insegurança em muitas pessoas ligadas à Igreja. Observando a história eclesial recente, vemos como no pontificado de Pio XII a Igreja se tornou um castelo medieval, impenetrável, desligado do mundo, tendo condenado, entre outros, todos os teólogos importantes da época. Logo em seguida, porém, o Papa João XXIII possibilitou a volta dos perseguidos, que se tornaram as grandes luzes do Concílio Vaticano II. Nasceu novamente a esperança. Portanto, não devemos nos perturbar: sempre há nova esperança no horizonte.

Fase final da cristandade

Como explicar este vai e vem das tendências na Igreja? Estamos na fase final da cristandade. Há muitos sinais que têm anunciado a morte da cristandade, que está agonizando há 200 anos (a Revolução Francesa), pois ela tem deixado de ser a força que anima, estimula, aquece, explica a fonte da cultura, da economia, de tudo que significava durante o tempo da cristandade, mesmo que a fachada (o Vaticano com todo o seu aparato de poder) continue muito resistente. Percebemos um sinal claro desta agonia na Conferência do CELAM em Aparecida (2007), que mostrou o desejo de transformar a Igreja de “conservação” numa Igreja “missionária”. Mas perguntamo-nos: como as mesmas instituições (dioceses, paróquias, seminários, congregações), que sempre foram de “conservação”, de repente podem tornar-se “missionárias”? E mais: Roma não se convence que a cristandade está morta, pensando que as suas encíclicas e as instituições eclesiásticas ainda iluminam e conduzem o mundo. Vejamos de perto o que está acontecendo, qual o cerne da questão.

Duas linhas na história cristã

A primeira linha é o que o Evangelho de Marcos recorda: “Jesus veio para mostrar o caminho, para que o sigamos”. Isto é o básico, o fundamental. Esta linha aparece em diversos momentos da história, embora saibamos pouco, porque os que seguiram a Jesus são mais os pobres, e sobre eles os livros de história não falam! Mas há documentos que mostram este caminho, no qual aparece a vivência do Evangelho. Sempre foram as minorias que seguiram esta linha, as “minorias abraâmicas”, como Dom Helder as chamava.

A outra linha é assumida pela grande maioria: os que se dedicam à doutrina, aos ritos, formando uma classe sagrada, a classe sacerdotal.

O pólo do “evangelho” está em contínua luta com o pólo da “religião. Toda a história cristã é uma contradição permanente entre os que se dedicam ao Evangelho e os que se dedicam à religião. O Evangelho se vive na vida concreta, material, social. A religião vive num mundo simbólico: o mundo da doutrina, dos ritos e dos sacerdotes. Não entra na realidade material. O Evangelho é universal, porque não é associado a alguma cultura ou religião. Religiões sempre são ligadas a culturas. Por exemplo: a religião católica atual é ligada à sub-cultura clerical romana que a modernidade tem marginalizado. Esta sub-cultura clerical está em plena decadência, porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. Evangelho é renúncia ao poder. Religião busca o poder e o apoio de todas as formas de poder.

Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião

A tarefa da teologia em relação ao Evangelho consiste em dizer o que provém de fato de Jesus, o que Ele quis, em que consiste realmente o seguimento de Jesus: o que interessa é o Evangelho e o testemunho evangélico. A linha evangélica é esta: São Francisco! Ele era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros. Basta o Evangelho. Nada mais se necessita. Ele mesmo dizia: “De tudo o que ensino, nada aprendi, nem do papa; aprendi diretamente de Jesus, através de seu Evangelho!” É isso que pode convencer o mundo de hoje que está perturbado e se refugia cada vez mais nas antigas igrejas institucionais e tradicionais.

A tarefa da teologia em relação à religião consiste em examinar todo o sistema religioso, o que realmente ajuda a entender, compreender e atuar conforme o Evangelho. Examinar, com sinceridade, o que vale hoje. Há muitas coisas que devem ser revistas. É inútil querer defender ou manter algo que é obstáculo à evangelização.

Novo Franciscanismo

Na América Latina aconteceu uma nova etapa radical na vida evangélica, desde a Conferência de Medellín (1968), onde se fez a opção pelos pobres. Esta opção tem seu fundamento num acontecimento em Roma no dia 16 de novembro de 1965. Naquele dia, nas catacumbas de Domitila, quarenta bispos, na maioria latino-americanos, sob a liderança de Dom Helder, pediram fidelidade ao Espírito de Jesus. Eles firmaram o assim chamado “Pacto das Catacumbas”, comprometendo-se a viver na pobreza, rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e colocar os pobres no centro de seu ministério pastoral. Foram estes bispos que inspiraram mais tarde a Conferência de Medellín. O contexto era favorável: – as Comunidades Eclesiais de Base que já haviam nascido; – já havia religiosos e religiosas inseridos no meio popular, embora sempre uma pequena minoria; – os movimentos populares estavam em alta. Era uma época de muita criatividade!

Quem vai evangelizar o mundo de hoje?

São os leigos. Há, por exemplo, muitos grupos de jovens que estão em contínuo contato com o mundo dos pobres. Os leigos têm deixado de ser analfabetos. Eles têm uma formação humana, cultural, de sua personalidade que é muito superior ao que se ensina nos seminários. Ou seja, eles têm mais preparo para atuar no mundo, embora não tenham muita teologia.

Mas, nós podemos! Podemos multiplicar em todas as regiões grupos de leigos engajados. Esta é a nossa tarefa. Os leigos são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas. Têm êxito em sua família, em suas carreiras e seus trabalhos profissionais. Porque esperar o bispo ou o pároco? Porque não atuar, formar uma associação, um grupo, em forma independente? O próprio Direito Canônico permite a formação de associações independentes do bispo, do pároco. Pode-se muito bem juntar quatro ou cinco pessoas para organizar um sistema de comunicação, de espiritualidade, de organização de presença na vida pública, na vida política, na vida social. Porque tanta timidez? Os leigos são tão capacitadas no mundo, e na Igreja… nada!

Como é possível ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa?!


[1] Cf. BRIGHENTI, Agenor, A Igreja do futuro e o futuro da Igreja. Perspectivas para a evangelização na aurora do terceiro milênio. São Paulo: Paulus, 3.ª edição, 2004

[2] LORSCHEIDER, op. cit., p. 135-142

[3] LORSCHEIDER, op.cit., p. 43

[4] ISNARD, Dom Clemente. A experiência ensina o Bispo. Recife: Comunigraf Editora, 2009, p. 19

 

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