Em livro, o cardeal traça o perfil que um bispo deve assumir no mundo de hoje.
A reportagem é de Orazio La Rocca, publicada no jornal La Repubblica, 22-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
“Íntegro, honesto, leal, capaz de não mentir nunca, paciente, misericordioso, pronto a oferecer esperança a quem sofre, mas, acima de tudo, um homem verdadeiro, capaz de ouvir a todos, mesmo não crentes, separados, divorciados e homossexuais”.
Esse é o perfil de identificação que o cardeal Carlo Maria Martini traça da figura do bispo hoje, “um homem da Igreja, do qual se fala muito, mas que poucos conhecem a fundo”, escreve o purpurado em seu último livro, Il Vescovo [O Bispo], publicado pela Rosenberg & Sellier. Um texto breve (90 páginas apenas), mas intenso, em que o cardeal, partindo também da sua experiência pastoral na diocese de Milão, explica “o que é um bispo, como é eleito, quais são suas competências”,mas em particular quais deveriam ser seus compromissos primários “na sociedade contemporânea e pós-moderna”.
O purpurado fala de coração aberto, sem medo de tocar questões que poderiam irritar os membros tradicionalistas e reacionários da Igreja Católica. Como, por exemplo, quando diz que o bispo é chamado primeiramente a estar “atento aos pobres, aos encarcerados, aos doentes, aos estrangeiros”, mas também a quem é obrigado a viver fora da Igreja “como os separados, os divorciados e os homossexuais”. “Mesmo salvaguardando o princípio de que o matrimônio é único e indissolúvel, muitos separados e divorciados – escreve Martini – têm um novo companheiro e uma nova família com filhos. Eles devem ser ouvidos, merecem atenção, porque é como se encontrar diante dos náufragos para os quais é preciso fazer todo o possível para que não se afoguem”.
O bispo de hoje deve ter a mesma abordagem – na opinião do cardeal – com relação às pessoas homossexuais, para as quais, permanecendo firme que a Escritura condena tais comportamentos, é preciso escuta e compreensão, orientando-se rumo a uma amizade espiritual: “O Espírito Santo trará conselho, caso a caso, para aquilo que é melhor para a pessoa que se tem na frente”.
Outra questão delicada: a idade de aposentadoria do bispo, que, segundo Martini, “deveria ser aumentada com relação aos atuais 75 anos”. Um limite que João Paulo II também queria retocar: “Foi o Papa Wojtyla que me confidenciou isso, mas depois – revela o cardeal – não o fez por um senso de respeito por uma norma desejada pelo seu antecessor, Paulo VI“.
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506888-cardeal-martini-os-homossexuais-escuta-e-compreensao
Para ler mais:
15/02/2012 – ”O ser humano é maior do que seus pecados”, afirma Martini 24/01/2012 – Martini: face a face com quem não crê 24/01/2012 – Que perfil um bispo deveria ter hoje? A opinião do cardeal Martini 15/01/2012 – O sentido da vida nas palavras de Jesus. Entrevista com Carlo Maria Martini 22/12/2011 – Martini: cardeal de três cidades. Artigo de Gianfranco Ravasi 02/11/2011 – “Não cedas à dor. Há um futuro além da vida”. A esperança do cardeal Martini 30/10/2011 – As leituras divinas do cardeal Martini 18/09/2011 – Martini: a coragem da humildade 28/06/2011 – Angelo Scola, arcebispo de Milão: o anti-Martini 11/04/2011 – Ratzinger e Martini: encontro privado sobre o futuro da Igreja de Milão ou também a do mundo? 05/08/2009 – A Igreja e os homossexuais. Entrevista com Luís Corrêa Lima 12/03/2010 – As polêmicas relações entre gays e a Igreja Católica. Entrevista especial com Francis DeBernardo 07/05/2005 – 32ª edição – À meia luz: a emergência de uma teologia gay. Seus dilemas e possibilidades