Não fosse a língua de vapor, que no verão pulsa da Amazônia para longe levando chuvas, as regiões Sudeste e Sul do país seriam desertos.

Najar Tubino
O relatório da Articulación Regional Amazônica, que inclui os 5,5 milhões de km2 e os países da América do Sul é desolador, em todos os sentidos. Em menos de 40 anos, o sistema climático, como resultado dos níveis de desmatamento, poderá detonar a mudança de padrão na vegetação – de floresta para uma savana.
O problema, como no caso brasileiro, que detém a maior área da Amazônia, não são os níveis atuais de desmatamento, que aqui tem sido reduzido. Mas o acumulado que já alcança 763 mil km2 em toda a Amazônia. Se for considerada a parte degradada, ou seja, onde não houve corte raso, mas a floresta foi detonada parcialmente, a área alcança 1,2 milhão de km2.
E se for somado a área ocupada por populações urbanas, o número passa de dois milhões de km2, ou seja, beira os 40% da Amazônia que os cientistas consideram como o máximo que a floresta aguentará.
O relatório, divulgado em novembro, é assinado pelo pesquisador do INPA e do INPE, Antonio Donato Nobre, porém foi produzido por um grupo muito maior de pesquisadores, envolvidos com diferentes tipos de estudos e áreas de atuação da Amazônia. É muito mais do que um alerta, é a confirmação da tragédia anunciada.
O rebanho bovino da Amazônia Legal, que inclui os estados do Pará e do Mato Grosso, foi triplicado – de 26,6 milhões para 74 milhões entre os anos 1990 e 2006. O número já está defasado. O Sudeste enfrenta a pior seca da história, com o sistema Cantareira esvaziado, e diariamente são noticiados fatos que ligam a umidade da Amazônia com as chuvas no restante do continente.
Rio vertical maior que o Amazonas
Um trecho do relatório:
“- A capacidade da floresta – um oceano verde – e sua relação com o oceano gasoso da atmosfera, com o qual troca gases e energia, e com o oceano azul dos mares, fonte primária e repositório final da água que irriga os continentes. A floresta mantém úmido o ar em movimento, o que leva chuvas para áreas continente adentro, distante dos oceanos. Isso se dá pela capacidade inata das árvores de transferir grandes volumes de água do solo para a atmosfera através da transpiração.”
Uma árvore grande, com diâmetro de copa em torno de 20 metros poderá bombear e transferir até mil litros de água num único dia. Quantas árvores existem na Amazônia? O cálculo está entre 400 e 600 milhões de indivíduos com diâmetro de tronco acima de 10 cm. Com 5,5 milhões de km2 da Amazônia com um dossel – a formação das copas das árvores – contínuo cobrindo a porção equatorial da América do Sul, o cálculo resultou no volume de 20 bilhões de toneladas de água transpirados por dia.
Ou seja, 20 trilhões de litros de água. Para fazer uma comparação: o rio Amazonas despeja diariamente no Oceano Atlântico 17 bilhões de toneladas de água. Quer dizer, que a floresta amazônica jorra para a atmosfera um rio vertical de vapor maior do que o rio Amazonas. Mais um trecho do relatório da Articulación Regional Amazônica:
“- Um metro quadrado de chão na Amazônia pode ter sobre si 10 metros quadrados de superfície foliar, distribuído em diferentes níveis no dossel. Isso significa que uma superfície terrestre florestada pode evaporar muito mais água que a superfície líquida de um oceano ou lago, na qual um m2 de superfície evaporadora coincide com apenas o mesmo 1 m2 de da superfície geométrica”.
Fogo, fumaça e fuligem detonam o processo

A revista Nature publicou também recentemente um estudo sobre a importância da vegetação global no processo de transferência de água para a atmosfera, que é quase 90% de toda a água que chega à atmosfera oriunda dos continentes e chegou lá através da transpiração das plantas. Outro ponto importante: a floresta evapora outras substâncias além de vapor d’água.
As nuvens são aglomerados de pequenas gotículas em suspensão no ar, uma definição dos pesquisadores. Entretanto, esta gotícula precisa de algo sólido, uma molécula que seja, para se agarrar e iniciar o processo de condensação. Este é um fato notório, inclusive para explicar a evaporação de substâncias químicas pelas algas do mar. Resumindo: sem árvore não tem água. Isso também influencia o caso das represas do Sistema Cantareira, onde em 30 anos, não foi plantado um pé de árvore. As margens e os arredores das represas são totalmente devastados.
O que os modelos climáticos anteciparam há 20 anos, dizem os pesquisadores, é que o desmatamento, as queimadas, a fumaça e a fuligem, alteram esse sistema criado pelas florestas. A redução drástica da transpiração modifica a dinâmica das nuvens e da chuva e acabam prolongando a estação seca. A consequência não é apenas local ou regional, porque os pesquisadores também já comprovaram que a floresta mantém o ar úmido por mais de três mil quilômetros continente adentro.
“- O equilíbrio da vegetação-clima balança na beira do abismo e os modelos climáticos apontam que aproximadamente 40% de remoção da floresta e o oceano verde poderia deflagrar a transição em larga escala para o equilíbrio de savana, liquidando com o tempo até as florestas que não tenham sido desmatadas.
Apesar das dificuldades em separar precisamente os efeitos de fundo das mudanças climáticas globais daqueles locais e regionais, não resta a menor dúvida de que os impactos já afetam o clima próximo e distante da Amazônia”, registra o relatório da Articulación Regional Amazônica.
E mais: não fosse a língua de vapor, que no verão hemisférico pulsa da Amazônia para longe, levando chuvas essenciais, seriam desertos as regiões Sudeste e Sul do Brasil, onde hoje se concentra sua maior infraestrutura produtiva, e outras áreas como Pantanal e Chaco e as regiões agrícolas da Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina. Os pesquisadores também ressaltam que as descobertas científicas sobre o papel determinante das florestas nos ciclos local, regional e planetário de água, energia, carbono e outros valem para todas as florestas do globo.
Os canadenses e a exploração das areias de piche
É simples constatar no mapa mundi os três cinturões que existem no planeta:
- um de florestas ao redor da linha do Equador, que engloba a floresta Amazônica e as florestas do sudeste da Ásia e da África
- e os outros dois desertos ao redor dos trópicos de Capricórnio e Câncer. A situação na Ásia é pior.
A Indonésia perdeu 60 mil km2 de floresta entre 2000 e 2012, segundo estudo da Nature Climate Change. As áreas deram lugar a plantações de palma e pastagem. Em 2012, a Indonésia desmatou 8.400 km2 e o Brasil 4.600 km2. Isso não é estatística para se comparar. Trata-se de um horror global.
Mas o mesmo estudo também registra que a maior destruição foi na floresta boreal, no hemisfério norte, e cita as três áreas mais atingidas, localizadas
- no Canadá,
- na Rússia
- e no Alaska.
Parte para exploração madeireira, inclusive para produção de celulose.
O caso do Canadá é emblemático. É o país onde nasceu o Greenpeace. Tem quase uma Amazônia de floresta boreal – são 5,45 milhões de km2, equivalente a 53% do território. Na região norte na província de Alberta já é público e notório, embora pouco divulgado pelas agências de notícias internacionais, a exploração das areias betuminosas para exploração petrolífera.
Os canadenses consideram que existe uma reserva total maior que a da Arábia Saudita em petróleo – 1,7 trilhão de barris. A área que está sendo exploradas por petrolíferas é de 140 mil km2. O governo conservador canadense impôs algumas medidas recentes para apoiar a exploração:
- revisão na legislação ambiental,
- limitação da participação popular nas consultas públicas
- e diminuiu a proteção aos habitáts naturais.
Grileiros, madeireiros e pecuaristas

O alerta dos pesquisadores também é uma convocação para que os países adotem políticas não somente de proteção, mas também de recomposição do que já foi destruído na Amazônia.
A ideia inicial é popularizar a ciência da floresta, os dados científicos que estão disponíveis e comprovam o agravamento da situação. Eles consideram que necessitaria de um esforço comparado ao pós-guerra – da segunda guerra mundial.
Não é uma tarefa fácil, no caso brasileiro, quando se pesquisa sobre as notícias envolvendo a Amazônia.
Em primeiro lugar pela questão da terra. Os grileiros, madeireiros, pecuaristas, os três personagens que mais detonam a floresta neste momento, jamais serão sensibilizados com informações científicas.
Só para citar um exemplo: em agosto desse ano a Polícia Federal realizou a Operação Castanheira. Prendeu uma quadrilha de grileiros em Nova Progresso, no Pará, na região da BR-163, a Cuiabá-Santarém, que está sendo asfaltada. Eles invadiam terra pública, tiravam a madeira, incendiavam, plantavam pasto e vendiam fazendas. O lucro estimado por fazenda é de R$20 milhões.
Porém, esta era apenas uma das quadrilhas que atua na região. A região da BR-163 concentra 10% de todo o desmatamento da Amazônia, sendo que 37% do que é desmatada está localizado em terras públicas. O estado do Pará, que concentra grande parte do desmatamento e da expansão agrícola reduziu o problema entre os anos de 2004 e 2013 em 74%, é o que mostram as estatísticas.
Mas em 2012 e 2013 o desmate cresceu 35%, sempre coincidindo com o aumento nos preços da soja e da arroba do boi gordo. Um boi gordo hoje, segundo pesquisa do CEPEA, vale mais de R$2,4 mil, com uma média de R$143,00 por arroba. Um caminhão com 20 animais, que vai para o frigorífico rende quase 70 mil reais.
Enquanto isso, a ONU lançou o documento que prega o desmatamento zero em 30 anos. O que os pesquisadores da Articulación Regional Amazônica mostram é que não temos esse prazo. Nos últimos 40 anos, diz outro relatório de 2014, do WWF internacional, 52% das espécies de vertebrados – mamíferos, aves e répteis – desapareceram.
No caso da América Latina, o número sobe para 83%. É claro, que esta situação não depende somente de ações dos governos, mas sim de toda a sociedade civil. São Paulo vive uma seca sem precedentes e qual a saída arranjada – obras para trazer água de outro rio, que também corre o risco de secar. Aliás, existe outra coincidência entre a umidade que não chegou ao Sudeste e o estado de São Paulo. É onde moram os donos das fazendas, que ficam localizadas na Amazônia.
Najar Tubino