Foto sugere Dilma trespassada por espada. Publicada pela velha mídia no dia da posse, imagem é retrato do tratamento dispensado à presidente no segundo turno
Os trinta Berlusconis (o maior oligopolista de midia da Itália – NR) brasileiros abrem fogo contra presidente. PT repensará relações que manteve com setor, enriquecido por propaganda oficial e nunca regulamentado?
Guilherme Boulos | Imagem Wilton de Sousa Júnior
A opinião pública, outrora mais comedida, aderiu de forma radical ao antipetismo. PT virou sinônimo de bandalheira e seus eleitores são ignorantes que parasitam em torno dos programas sociais.
Opinião pública, já disse Millôr Fernandes, nada mais é do que aquilo que se publica.

Antes de tornar-se um discurso amplamente difundido – em especial no Sudeste, Sul e Centro-Oeste do país – o antipetismo foi cuidadosamente fermentado por um grupo bem mais seleto, o daqueles que publicam. Os trinta Berlusconi brasileiros, na definição da organização europeia Repórteres Sem Fronteiras.
Agora que se apresentam chances reais de o PSDB retomar a presidência da República, o que era desgaste progressivo tornou-se massacre aberto. A guerra de baixa intensidade virou um bombardeio indiscriminado.
A página Manchetômetro realizou levantamento das notícias positivas e negativas aos candidatos nestas eleições. O resultado revela muito sobre a imparcialidade do jornalismo brasileiro.
Dentre os três principais jornais impressos do país,
- as chamadas de capa positivas para Dilma foram quatro.
- Para Aécio Neves, 32.
- Já as negativas, foram 176 para Dilma
- e 31 para Aécio.
No principal telejornal do Brasil, o Jornal Nacional, da TV Globo,
- a cobertura com notícias favoráveis para Dilma foi de quatro minutos e catorze segundos.
- Para Aécio foi de nove minutos e 52 segundos.
No caso das notícias desfavoráveis,
- para Dilma o tempo foi de 53 minutos
- e para Aécio foi de sete minutos e seis segundos.
Não estamos falando apenas de parcialidade. Este limite já foi ultrapassado. Trata-se de bombardeio midiático contra a candidata do PT. Bombardeio agora intensificado com denúncias seletivamente vazadas de um inquérito supostamente sigiloso sobre a corrupção na Petrobras.
Que houve e há corrupção na Petrobras parece certo. Que a imprensa tenha o papel de divulgá-la é algo inquestionável. Mas o mesmo critério deveria ser aplicado para o caso do aeroporto de Cláudio (MG) ou para o cartel fraudulento do metrô de São Paulo. Com o mesmo tempo, o mesmo tom acusatório e as mesmas proporções. Os números do Manchetômetro mostram outra coisa.
Mas, convenhamos, ao PT agora não adianta chorar.
- Teve doze anos para levantar o debate da democratização das comunicações no Brasil e não o fez.
- Faltou coragem e sobrou soberba.
- Acreditou que o pacto social era uma mágica que duraria para sempre.
- Tornou-se neste caso – como em muitos outros – vítima da sua falta de ousadia para mudanças estruturais.

O monopólio das comunicações no Brasil é escandaloso. O relatório dos Repórteres Sem Fronteiras, publicado no ano passado, apenas diz o que é sabido desde muito tempo acerca da propriedade dos meios de comunicação no país.
“As características do mecanismo geral de funcionamento da mídia estorvam a livre circulação da informação e impedem o pluralismo.Dez grandes grupos econômicos, correspondentes a outras tantas famílias, dividem entre si o mercado da comunicação de massas”, constata o relatório. Estas famílias são os trinta Berlusconi brasileiros.
Qualquer tentativa de debater criticamente essa estrutura é tachada como censura, numa jogada desses grupos para manter seus privilégios.
São grupos econômicos bastante lucrativos, inclusive por meio de contratos de publicidade oficial. E não sejamos ingênuos, seus controladores têm posição política e classe social.
Liberdade de comunicação é precisamente o que essa estrutura monopolista impede. O poder de informar a sociedade não pode ser propriedade de trinta famílias.
Mas, se o PT sequer questionou essa estrutura de privilégios, por que tanto ódio ao petismo? Eis a questão. Algo leva a crer que seja pelos mesmos motivos que, mesmo com lucros recordes dos bancos, a Bolsa sobe quando Dilma cai.
A elite brasileira, nas finanças ou na mídia, não aceita concessões. Por menores que sejam. São intolerantes mesmo às mudanças de menor impacto e menos ofensivas a seus interesses. Resta algo do espírito da casa grande: ódio aos pobres, aos nordestinos, aos negros. Não suportam ascensão social, mesmo quando isso reforça sua posição no topo. Querem exclusividade no aeroporto, na universidade e no poder político.
E, não menos importante, querem Armínio Fraga como ministro da Fazenda. Compreensível. Fosse eu banqueiro ou magnata também iria querer.
Por isso encaram a derrota do PT como a sua vitória. E naturalmente, tendo os meios de comunicação nas mãos, conseguiram produzir um sentimento que abarca também os de baixo. A corrupção caiu como uma luva na massificação do argumento.
O massacre que estamos vendo e veremos até o dia 26 revela a adesão em bloco da elite à candidatura de Aécio e sua aposta na polarização.
Se ganharem, poderão consolidar uma onda conservadora no Brasil e na América Latina. Se perderem, podem ter que pagar pelo exagero da dose, já que polarização não é algo que possa se desmontar com a mesma facilidade com que se cria.
Guilherme Boulos
Fonte: http://outraspalavras.net/brasil/desejo-de-matar-dilma-sob-ataque-midiatico/
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