As eleições à luz da história antipovo

Leonardo Boff – 08/10/2014

Nada melhor do que ler as atuais eleições à luz da história brasileira na tensão entre as elites e o povo. Valho-me duma contribuição de um sério historiador com formação em Roma, em Lovaina e na USP de São Paulo o Pe. José Oscar Beozzo, uma das inteligências mais brilhantes de nosso clero.

Diz Beozzo: “a questão de fundo em nossa sociedade é a do direito dos pequenos à vida sempre ameaçada pela abissal desigualdade de acesso aos meios de vida e pelas exíguas oportunidades abertas às grandes maiorias do andar debaixo”.

Como nos ensina Caio Prado Júnior, nossa formação social desigual repousa sobre quatro pilares difíceis de serem movidos:

  • a) a grande propriedade da terra concentrada nas mãos de poucos, de tal modo que não haja terra “livre” e “disponível” para quem trabalha ou para os que eram seus donos originários, os povos indígenas;
  • b) o predomínio da monocultura;
  • c) a produção voltada para o mercado externo (açúcar, tabaco, algodão, café, cacau e hoje soja);
  • d) o regime de trabalho escravo.

A independência de Portugal não alterou nenhum desses pilares. Os que naquela época sonharam com um Brasil diferente, propunham

  • a troca da grande pela pequena propriedade nas mãos de quem trabalhava; da monocultura para a policultura;
  • da produção para o mercado internacional por outra voltada para o autoconsumo e para o abastecimento do mercado interno;
  • do trabalho escravo pelo trabalho familiar livre.

Isso pôde acontecer em pequenas regiões periféricas às monoculturas tropicais, na serra gaúcha e catarinense, com colonos alemães, italianos, poloneses, numa propriedade mais democratizada.

Houve geral oposição dos grandes proprietários escravistas a qualquer dessas medidas e foram dizimados a ferro e fogo levantes populares que apontavam para qualquer medida democratizante na economia, na política e sobretudo nas relações de trabalho.

Basta rememorar algumas dessas revoltas:

  • a insurreição dos escravos Malês na Bahia,
  • a Balaiada no Maranhão,
  • a Cabanagem na Amazônia,
  • a revolução Praieira em Pernambuco,
  • a Farroupilha no Sul.

A revolução de 30, com seu viés nacionalista, mesmo que parcialmente,

  • deslocou o eixo do país do mercado externo para o interno;
  • do modelo agrário exportador para o de substituição de importações;
  • do domínio das elites exportadoras do café do pacto Minas/São Paulo, para novas lideranças das zonas de produção para o mercado interno, como as do arroz e charque do Rio Grande do Sul;
  • do voto censitário, para o voto “universal” (menos para os analfabetos, naquela época ainda maioria entre os adultos),
  • do voto exclusivamente masculino para o voto feminino;
  • das relações de trabalho ditadas apenas pelo poder dos patrões para a sua regulação, pelo menos na esfera industrial, com a criação do Ministério do Trabalho e das leis trabalhistas voltadas para a classe operária. .

Não se conseguiu tocar o domínio incontornável dos proprietários de terra na regulação do trabalho dentro de suas propriedades, o que vai acontecer só depois de 1964, com o Estatuto do Trabalhador Rural

Getúlio implantou uma política corporativista de apaziguamento

  • entre as classes e de “cooperação” entre capital e trabalho,
  • entre operários e os capitães da indústria em torno de um projeto de industrialização e defesa dos interesses nacionais.

Nesta campanha eleitoral certos meios de comunicação criaram o motto: “Fora PT”. Busca-se acabar com a “ditadura” do PT para instaurar a “ditadura do mercado financeiro”. O que realmente incomoda? A corrupção e o mensalão?

A meu ver, o que incomoda, em que pesem todos seus limites, são as medidas democratizantes como

  • o Pro-Uni,
  • as cotas nas universidades para os estudantes vindos da escola pública e não dos colégios particulares;
  • as cotas para aqueles cujos avós vieram dos porões da escravidão;
  • a reforma agrária, ainda que muito aquém de tudo o que seria necessário;
  • a demarcação e homologação em área contínua da terra Yanomami contra meia dúzia de arrozeiros apoiados pelo coro unânime dos latifundiários e do agronegócio,
  • assim como todos os programas sociais do Bolsa Família, ao Luz para Todos, ao Minha Casa, minha Vida, ao Mais Médicos e daí para frente.

Nunca incomodou a estes críticos que o Estado pagasse o estudo de jovens estudantes de famílias ricas que deram a seus filhos boa educação em escolas particulares, o que lhes franqueou o acesso ao ensino gratuito nas universidades públicas aprofundando a desigualdade de oportunidades.Esse estudo custa mensalmente ao Estado nos cursos de Medicina de seis a sete mil reais.

Nunca protestaram essas famílias contra essa “bolsa-esmola” dada aos ricos, e que é vista como “direito” devido a seus méritos e não como puro e escandaloso privilégio. São os mesmos que se recusam a ser médicos nos interiores e nas periferias que não dispõem de um médico sequer.

Os que sobem o tom dizendo que tudo no país está errado, em que pese

  • a melhoria do salário mínimo,
  • a criação de milhões de empregos,
  • a ampliação das políticas sociais em direção aos mais pobres,
  • a criação do Mais-Médicos,

posicionam-se contra as políticas do PT que visam a

  • assegurar direitos cidadãos,
  • ampliar a democratização da sociedade,
  • combater privilégios e sobretudo colocar um pouco de freio (insuficiente a meu ver) à ganância e à ditadura do capital financeiro e do “mercado”.

É esta a razão do meu voto para outro projeto de país, que atende às demandas sempre negadas às grandes maiorias. É por isso, que votei Dilma no primeiro turno e o farei no segundo, respeitando outras escolhas. Associo-me a esta interpretação, também no voto à Dilma Rousseff.


L BoffLeonardo Boff

FONTE: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=82823

 

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