
Frei Betto – A CNBB lançou este mês o documento “Seu voto tem consequências: um novo mundo, uma nova sociedade”, no intuito de orientar os católicos nas próximas eleições.
Trata-se de um documento apartidário, porém à luz da doutrina social da Igreja e dos documentos papais e episcopais. “As eleições deste ano de 2014 são importantes, não só porque presidente, deputados, senadores e governadores têm uma incidência muito grande na vida da população, mas porque está em jogo também o projeto político, social e econômico para o Brasil”, diz o texto.
Será que a Igreja Católica, ao emitir o documento, estaria “se metendo em política”, como alardeiam os ingênuos?
Primeiro, nós, cristãos, somos todos discípulos de um prisioneiro político. Jesus não morreu doente na cama. Foi preso, torturado e condenado à pena de morte dos romanos (a cruz) por dois poderes políticos!
Segundo, em política ninguém é neutro, seja por omissão, seja por participação.
Terceiro, historicamente a Igreja sempre tendeu a fazer a política dos nobres, dos opressores, dos escravocratas e dos poderosos.
A CNBB elenca as conquistas significativas dos governos do PT: “Os dados mostram que, nos últimos dez anos, cerca de 28 milhões de brasileiros deixaram a extrema miséria e a pobreza e passaram a ter uma renda melhor. Este foi um salto significativo na nossa realidade social. Um dos fatores importantes para este resultado foi o aumento real do salário-mínimo – acima da inflação. Outra contribuição veio do programa de transferência de renda para famílias extremamente pobres, o Bolsa-Família. A taxa de desemprego vem caindo regularmente desde 2003 e ficou em 5,4% em 2013. O Brasil foi um dos países onde se registrou maior redução da pobreza nesse período.”
Quanto aos aspectos negativos, diz o documento: “Como apontaram as manifestações, os recursos para a saúde e para a educação – as principais políticas sociais de um país – são bastante limitados e vêm aumentando muito lentamente.”
Quanto aos gastos com a dívida pública: “Se quisermos saber para quem um governo trabalha, temos de examinar para onde estão indo os recursos. Atualmente, eles são destinados, em primeiro lugar, para o pagamento da dívida pública e de seus juros. Em 2013, quase metade do orçamento público (40%) foi destinado para os juros, amortização e rolagem da dívida, enquanto menos de 5% foi para a saúde e menos de 4% para a educação. Este ‘sistema da dívida’ é o grande devorador dos recursos públicos. É o maior gasto do governo, e faz com que faltem recursos para o transporte, a saúde, a educação, o saneamento básico e outras políticas sociais.”
O documento critica ainda
- a violação dos direitos indígenas e dos quilombolas;
- a lentidão da reforma agrária;
- as privatizações;
- os megaprojetos que afetam as populações mais pobres.
E reforça o apoio ao Projeto de Lei de Iniciativa
Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais,autorde “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
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