O QUE ESTÁ EM JOGO NESTAS ELEIÇÕES  

Mesmo a distância, no silêncio e quase no anonimato, acompanho com o mais vivo interesse o desenrolar do processo eleitoral  atualmente em curso em nosso país. Há muito tenho claro quer não é pouco o que está em jogo neste momento, principalmente  no diz  respeito às futuras gerações.

Para compreender o que está em jogo nestas eleições importa entender um pouco  de Brasil, seu processo histórico e os interesses que moveram e que movem os grandes grupos que se defrontam e sempre de digladiaram em nosso país.

Caricaturizando _ e no decurso deste texto nada se pode fazer além disso _  poderíamos dizer que uma determinada camada da população (uma classe?)  _  a bem nascida, a bem nutrida e a sempre mandante  _ nunca teve que lutar para conservar os seus interesses. No  máximo,  o que ocorreu foram escaramuças entre caciques, coronéis,  senhores da terra, e,  no momento, detentores de grandes fortunas provenientes do trabalho escravo,  de alguns êxitos industriais e comerciais, mas principalmente das sinecuras dos  que alternadamente ocuparam postos chave no poder político.

Parafraseando Ladislau Dowbor, que em 1985, prefaciando livro sobre a educação de Martin Corney dizia que o Brasil tinha a educação de que precisava, ou seja, “para poucos e de excelente qualidade”, também diria que o Brasil desses quinhentos anos era ótimo, porém, para poucos.

Com efeito, durante anos e principalmente nos anos FHC eu estranhava que na imprensa se apregoasse que os países avançados não poderiam desprezar um mercado de  40 milhões de brasileiros  quando, na verdade,  já contávamos com aproximadamente 150 milhões de habitantes. Entretanto, é óbvio afirmar que estes 40 milhões  viviam num país maravilhoso, uma vez que tinham a seu favor os poderes políticos, econômicos e,  principalmente,  o judiciário a dar-lhes guarida em todas as escaramuças, querelas ou até  enfrentamentos mais sérios provenientes de indivíduos ou camadas mais organizadas da população da base. Esta camada privilegiada nunca teve que lutar  para se manter no poder ou desfrutar de todas as benesses da civilização.

Acontece, porém, que na década de 1980, gestada durante a longa noite da ditadura jurídico _ civil _ militar, surge um movimento de contestação que se transformou num partido político que, pela vez primeira,  se propôs seriamente a desalojar esta camada do poder,  colocando-o à disposição e em benefício de camadas mais amplas da população.  Não muito levado a sério pelo status quo do momento, este partido mostrou a que veio já no fim desta primeira década de sua existência, ou seja,  levou Lula ao segundo turno da eleição presidencial em 1989. Este fato ocasionou algo raro, manifestado, segundo me consta, com tamanha  intensidade apenas uma vez mais na história política deste pais – o ocaso do governo Getulio Vargas em 1954 – ,  ou seja, a aliança do que hoje muitos chamam de “quarto poder” (a grande mídia) com civis, militares, igrejas conservadoras e outros, ou seja, o poder econômico,  civil,  político,  religioso e militar para a eleição de uma figura ridícula – Fernando Collor – à presidência da República. Todos estes senhores sabiam  que Collor seria o que de fato acabou sendo: um desastre. Tudo, porém,  seria melhor do que Lula. Na sua miopia, estes senhores  não se deram conta de que se Lula tivesse vencido esta eleição, certamente seria a única e a última na qual teria qualquer chance de vitória.

A história, porém, costuma pregar certas peças de difícil digestão para os que não  a souberam interpretar corretamente no tempo devido. Paradigmática, para entender isso, é a história da França, com suas marchas e contramarchas desde a Revolução Francesa de 1789 até a derrota definitiva da esquerda em Paris,  na Revolução de 1870-71, com suas montanhas de cadáveres e a dizimação da quase totalidade das lideranças de esquerda.

Após a derrota de Lula por Collor em 1989 seguiu-se o que todos conhecemos: o realinhamento da direita,  principalmente no governo FHC e a pretensão de seu grupo de manter-se no poder por, ao menos, 20 anos, projeto vocalizado por um de seus mais eminentes próceres: Serjão ou Sérgio Motta. Por outro lado,  qual formiguinha teimosa  que, apesar de podada de todas as formas, teima em aparecer sempre de novo,  a esquerda vence as eleições em 2003 com Lula. E o que para o eterno status quo não deveria ter sido mais do que um cochilo histórico,  já se tornou  um terceiro mandato presidencial, com  boas chances de se transformar num quarto e, quem sabe,  não pare nem aí,  transmutando-se em verdadeiro pesadelo para estas camadas.

Tal passado que se torna intragável para um certo projeto de poder excludente,  concentrador de renda e altamente elitizado que, historicamente, se considerava vocacionado a ser o único a governar este pais. O que, de fato, está em jogo, neste momento, no Brasil, são dois projetos de poder:

  • um alicerçado no mercado, na financeirização da economia,  nas multinacionais e no grande capital para cada vez menos gente
  • e outro centrado no Estado,  na inclusão,  na distribuição de renda,  num desenvolvimento mais abrangente e englobando cada vez mais pessoas, socialmente  justo e multipolar. É mais do que apenas isso. É um projeto lidimamente popular que ainda está longe  de ter atingido o seu ápice.

Sabe perfeitamente o status quo que se perder esta eleição, é bem possível que nem em  2018 vença novamente. Finalmente, o “espectro” Lula está sempre ante seus olhos. Com efeito, caso Lula seja candidato em 2018,  com reais chances de vitória e  de reeleição, atualmente ainda posta,  toda uma geração de políticos, empresários,  donos de meios de comunicação estará definitivamente descartada da possibilidade de aceder  novamente ao governo central.

Por mil razões é profundamente lastimável a morte de Eduardo Campos. Não bastasse  sua figura humana e política, muitos apostavam seriamente  em sua candidatura e possível vitória em 2018, inclusive com o apoio de Lula. Perdeu-se, além de uma grande personalidade, uma real aposta política no Brasil.

Substituído por Marina Silva, não me  surpreende o apoio que esta recebe da mesma mídia que sempre a questionou e não raro a combateu, além do establishment  da classe média alta sempre temerosa da permanência do PT  no governo.

Para este establishment,  a eleição de Aécio sempre se configurava  muito difícil, visto que parcela significativa da população experimentara considerável melhora na qualidade de vida e dificilmente votaria em Aécio. Com Marina Silva, porém,  as coisas já são bem diferentes.

Para a população em geral,  Marina se apresenta como o novo,  além de  uma certa continuidade dos governos Lula e Dilma. Diferentemente de Eduardo Campos, com escassas chances de vitória,  já que nem a mídia nem a classe média conservadora lhe davam suporte consistente,  Marina,  além de representar o “novo” para significativa parcela da população desinformada, recebe apoio maciço  da grande mídia e de cada vez mais setores economicamente  bem postados da nação.

Contudo, o que mais importa é que Marina nasce e cresce nas fileiras do PT e, agora, rompida com seus quadros,  significa derrotar o PT com seu próprio veneno,  o que é tanto mais saboroso para quem não encontra outra forma de derrotá-lo. O que chama a atenção ainda são duas coisas que, brevemente, pretendo recordar.

Primeiro,  a rápida cooptação que a direita está conseguindo fazer com Marina: o que antes repugnava – agronegócio, multinacionais, figuras da extrema direita  são agora não só palatáveis, senão que também são previstos como  futuros integrantes das escalas superiores de um eventual governo.

Segundo, o discurso de Marina, que apresenta três vieses, dependendo do público ou da situação a que se destina:

  • a) um discurso suave, impreciso e genérico quando dirigido às massas e ao povo em geral;
  • b) um discurso cada vez mais afinado com setores da direita  _  veja discurso aos usineiros do açúcar e do álcool e a diversos segmentos da indústria e do comércio (logo,  logo virão os bancos e o sistema financeiro) _ ;
  • e c) um discurso azedo, muitas vezes amargo para não dizer agressivo quando a referência ou o confronto é o governo Dilma ou o PT – gênese,  berço, e origem política de Matina.

Não tenhamos a menor dúvida, nesses próximos 30 e poucos dias teremos um debate cada vez mais acirrado entre Marina Silva e Dilma Rousseff e suas respectivas hostes,  com todas as sequelas daí decorrentes de construção e desconstrução da cada candidatura. Aécio, por sua vez, ficará cada vez mais na sombra, visto que está sendo rapidamente “cristianizado” pela extrema direita.

Interessa sobremaneira  à direita e à classe média alta derrotar o PT agora, e com Marina o fará bem mais facilmente do que com Aécio, visto que,  do contrário, terá que aguentá-lo por alguns mandatos mais. E Marina Silva encaixou-se neste perfil como a mão na luva adrede preparada para isso. A recordação de Collor e seus reveses não deixam margem para qualquer dúvida.

E para finalizar, digo mais para alegria ou tristeza dos diversos personagens envoltos neste embate: derrotado o PT nestas eleições demorará décadas ou gerações para que tanto o PT  quanto  outra qualquer sigla da esquerda volte a sonhar novamente com seriedade com o governo deste país. Quem viver verá!

Roque Zimmermann

Professor do Instituto Superior de Filosofia Berthier Passo Fundo RS.

Professor aposentado da Universidade Estadual de Ponta Grossa Pr.

 

Fonte: Enviado pelo autor. E-mail:  padreroquezmsf@hotmail.com

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *