O dia em que a Praça Saens Pena foi sitiada

Pedrinhas - Polícia invade 2Em plena luz do dia, com o mundo inteiro de olho no Rio de Janeiro, mais de 600 pessoas ficaram impedidas de sair do cerco da Polícia, intimidadas, violadas física e verbalmente.

A reportagem é de Camila Nobrega e publicada por Canal Ibase, 17-07-2014.

 

“O senhor pode nos explicar por que não podemos passar por aqui, por favor?”
O policial – ostentando uma patente de capitão – responde:
“É ordem de cima, ninguém passa, nem com comprovante de residência”
“E como fazemos, se todos os acessos no entorno da Praça Saens Pena estão fechados?
O senhor quer dizer que estamos presos aqui?
O senhor sabe que isso é cárcere privado?”
“Não sei de nada disso, só estou cumprindo ordens e digo que daqui não passa, vá tentar em outro lugar”
(risos de vários policiais atrás dele).
“Há pessoas feridas, senhor”
“Terão que ir ao hospital numa viatura da polícia”
“Mas elas não estão presas”
(Silêncio)

Assim terminava a peregrinação de grupos e pessoas sozinhas, depois de tentarem cruzar vários bloqueios da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro nas imediações da Praça Saens Pena, na Tijuca, Zona Norte da capital, na tarde do dia 13 de julho de 2014. Era a final da Copa do Mundo, pouco antes de a Alemanha derrotar a Argentina. A poucos quilômetros dali, imagens de festa eram transmitidas ao mundo inteiro. A estratégia da polícia tinha como objetivo sufocar um protesto que ocorria no local, que tinha como lema “A festa nos estádios não vale as lágrimas nas favelas”. A manifestação ocorreu um dia após 20 ativistas terem prisão preventiva decretada (13 deles foram soltos).

Aos poucos, diante da postura dos policiais, as pessoas percebiam o que estava acontecendo. Eles não explicavam a situação. Em cada rua percorrida, a única resposta era que naquele bloqueio era proibido passar. Todos que estavam ali, por volta das 15h, ficaram impedidos de sair. Pessoas que participavam do protesto, moradores das ruas do entorno, idosos, famílias inteiras. Ninguém podia se deslocar para fora de um raio de aproximadamente um quilômetro das ruas ao redor da Praça, uma das mais movimentadas do município. Nem o Metrô servia como deslocamento, havia sido fechado exatamente no momento em que começaram as agressões policiais contra as pessoas que protestavam no local.

Uma comunicadora popular que preferiu não se identificar havia sido ferida na cabeça, após ter sido atingida por um policial com um cassetete, dentro do Metrô da Saens Pena. Ela sangrava, enquanto negociava com os policiais sua saída para um hospital. Ao lado dela, uma estudante de 19 anos, vítima da mesma cena de agressão chorava, com o braço junto ao corpo imobilizado por uma tipoia improvisada com a camisa cedida por um manifestante. Ambas foram impedidas de sair do cerco da polícia e esperaram mais de 40 minutos por uma ambulância que as levou ao hospital Souza Aguiar. A reportagem do Canal Ibase estava no cerco e acompanhou toda a situação, registrada em fotos.

“É cárcere privado”, diz advogada

Um idoso de 82 anos andava de um lado para o outro, cruzando na frente dos policiais. Ele pedia para sair e recebia uma negativa. Sem conseguir explicações e sem sequer saber do protesto, concluiu: “Deve ser a presidente que vai passar, não sei, eu expliquei que não posso demorar muito, tem um remédio da pressão para tomar.”

Foram aproximadamente três horas e meia de cerco. Nas palavras da advogada Mariana Trota, do Centro de Assessoria Popular Mariana Criola (que divulgou nota sobre a situação, junto com o MST): “É cárcere privado o que estamos vivendo. Vários direitos estão sendo violados neste momento, de reunião, manifestação, direito de ir e vir, inclusive configurando abuso de autoridade. É importante buscar o Ministério Público, a Defensoria Pública, grupos de direitos humanos. Pelo menos seis pessoas foram presas, entre elas uma midiativista que registrava as violações cometidas pelos policiais. Outras três pessoas foram presas por tentar sair do cerco.”

O bloqueio começou logo após uma forte repressão da polícia sobre os manifestantes que participavam do protesto, cujo tom era de crítica à Copa e às violações que estão sendo cometidas diariamente nas ruas e nas favelas. Pouco mais de 20 minutos depois do início da manifestação, que se concentrara na Praça Saens Pena, a Polícia Militar começou a agir de forma absolutamente truculenta. Bombas de gás lacrimogêneo, gás de pimenta e balas de borracha foram usadas para sufocar o protesto, mesmo sem que as pessoas tenham cometido qualquer ato de violência. A cem metros de distância ainda se sentiam os efeitos das bombas.

Enquanto os policiais estavam protegidos com máscaras, cassetetes, escudos, os manifestantes lutavam para manter os olhos abertos. Com o efeito do gás, trata-se de tarefa difícil. Lacrimeja-se, e muito. A garganta 333por vezes parece fechar. Arde. Muita tosse, muita gente com dificuldade de respirar. Mesmo assim, foi nesse momento que cenas de guerra se sucederam. A Polícia encurralou as pessoas no Metrô e continuou a lançar bombas, além de bater usar cassetetes de forma aleatória – tudo dentro da estação. Foi ali que muita gente se feriu.

A jornalista Renata Leite levou um menino, de 14 anos, para casa, no Morro do Salgueiro. Ele andava de skate em uma rua próxima à praça, quando os policiais começaram a lançar bombas. “Ele dizia ‘vou morrer, vou morrer’, tive que levá-lo até a mãe, estava muito assustado.”, contou.

Quatro policiais presos, mais de 15 jornalistas feridos

Algumas pessoas que tentaram passar nas barreiras foram revistadas. Uma cientista social acabara de ser obrigada a abrir a mochila. Indignada, ela explicou: “Pegaram um pijama e uma máscara. Tudo que eu podia usar como defesa para o gás. Nem sei mais o que é isso que estamos vivendo, de tão absurdo.” Um amigo dela acabara de ser obrigado a deixar a mochila, porque estaria portando objetos perigosos. Perdeu a máscara contra o gás, cadernos de anotação de pesquisa, canetas e outros objetos.

As agressões não foram apenas físicas. Insultos deram o tom da Polícia durante as três horas de cerco. Uma mulher negra foi chamada de “Macaca”. O jovem Wallace de Souza Oliveira, morador do Centro do Rio, também negro, ouviu de um policial “Não vai passar não, Neguinho da Beija-Flor”, diante de pelo menos dez testemunhas.

“É uma humilhação ser brasileiro e ser negro, é o que sinto. Um policial que é da minha cor se dirige a mim dessa maneira. O que ele tem de diferente?”, perguntava Wallace.

Os policiais agiam de forma irônica, desrespeitosa. Acintosamente, se dirigiam a mulheres. “Gatinha, vem cá, para de filmar isso”, dizia um a uma midiativista. Ao ver uma pessoa ferida passar, uma major disparou: “Aí, se está sangrando é porque merece, coitadinho não é”, fazendo referência a um jovem, de 17 anos, também ferido na perna.

Pelo menos 15 jornalistas ficaram feridos durante o ato. A Policia Militar não teve qualquer constrangimento na ação, mesmo na presença de advogados (alguns também presos no certo) e da mídia. Por isso, alguns comunicadores conseguiram registrar cenas que serviram de provas para incriminar alguns agentes (Fotos e videos têm se tornado provas importantes das violações). Quatro deles tiveram prisão administrativa decretada pela Polícia Militar.

Os acusados são soldados (grifo aqui, são todos soldados, mas muitas das ordens para a repressão vinham de oficiais de mais alta patente) e ficarão presos no Batalhão de Policiamento de Grandes Eventos, por ordem do comandante da unidade, como mostra esta reportagem da Associação Brasileira de Imprensa. O Canal Ibase estava no local e teve uma repórter presa no cerco. Equipes de reportagem do jornal Folha de São Paulo, da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e de mídias internacionais, entre elas uma canadense e uma israelense que pediram para não se identificar também estavam no cerco. A israelense olhava assustada: “Há guerra em todo canto pelo visto.”

Ela se referia ao que acontece neste momento na Faixa de Gaza. O governo de Israel abriu fogo contra os palestinos, e o mundo assiste a tudo em tempo real, estarrecido.

Cerco durou quatro horas

Ao lado dela, um grupo de 14 pessoas se ajeitava no chão, com ajuda dos que estavam em volta. Com os próprios corpos, escreviam um grande “SOS”, para ser fotografado naquele momento e enviado pelas redes sociais, como tentativa de denunciar o que estava ocorrendo. A foto tem mais de 150 mil visualizações apenas no Facebook do Ibase.

Reunidos, representantes de movimentos de favelas conversavam, tensos. Eles sabem melhor do que ninguém o que pode ocorrer quando há cidadãos em poder de tantos policiais. “Na favela, os casos de desaparecimento estão na casa das centenas atualmente. Nada me intimida mais na cidade do que a polícia”, disse um jovem ativista que denuncia violações da Polícia Militar nas favelas.

O cerco foi mantido até o final do jogo entre Alemanha e Argentina. O Canal Ibase acompanha as manifestações há mais de um ano e vem registrando muitos casos de violações de direitos humanos. A situação de domingo, porém, não foi só mais uma. Ali, o direito de ir e vir foi violado. A manifestação, direito assegurado pela constituição, foi sufocada em menos de 20 minutos, após começar a caminhada na rua Conde de Bonfim. Em plena luz do dia, com o mundo inteiro de olho no Rio de Janeiro, mais de 600 pessoas ficaram impedidas de sair do cerco da Polícia, intimidadas, violadas física e verbalmente. Não foi como qualquer outro dia. Não há generalização. Foi grave demais para isso.

 

Camila Nobrega 2
Camila Nobrega

Fonte: http://www.canalibase.org.br/o-dia-em-que-a-praca-saens-pena-foi-sitiada/

 

 

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