QUE TROUXE DE NOVO O PAPA FRANCISCO  (1-3)

Francisco - 25-04

Nota editorial:  Pela unidade do assunto, publicamos hoje três artigos  de Frei Bento Domingues, o notável e destemido teólogo dominicano português e uma das vozes mais abalizadas da Igreja católica em Portugal.

1. Segundo parece, a ladainha continua: as máfias de dentro e de fora das instituições religiosas não vão aceitar as contínuas provocações de Jorge Bergoglio. Agora, a propósito de uma entrevista bem-humorada, acusam-no de querer canonizar K. Marx e baptizar o comunismo(1).

O aviso está dado: ou ele muda ou não lhe invejem a sorte!Creio que é mais interessante procurar entender porque continua a seduzir tanta gente tão diferente e a irritar os mesmos grupos por toda a parte.Um livro de entrevistas ao bispo de Buenos Aires, publicado anos antes da sua eleição papal, merece atenção(2). Não revela nem um herói nem um santo prefabricado. Foi aprendendo a ser “simples como as pombas e prudente como as serpentes”. Desarmante.

Ele não vem do mundo dos pobres. Foi vendo as consequências e as causas dos escandalosos contrastes sociais, num país cheio de riquezas. Levou tempo a descobrir as monstruosidades da repressão, os requintes das torturas aos presos, as mães dos milhares e milhares de desaparecidos, despejados no mar, etc. Não se coloca fora daqueles – padres e bispos – que ainda demoraram mais a dar-se conta da urgência em participar na defesa dos direitos humanos e a desmascarar a colaboração de outros com governos criminosos e os seus métodos.

Confessa: Eu tive dificuldade em ver, insisto, até que começaram a trazer-me pessoas e tive de esconder o primeiro. Não foi de repente que descobriu as razões pelas quais a Argentina “passou dos 4% de pobres, no princípio dos anos setenta, para mais de 50% durante a crise de 2001”.

Eu próprio estava, nessa data, a trabalhar na Argentina. Testemunhei as dimensões e as consequências da loucura e da irresponsabilidade política, financeira e económica por aquela situação.

Este Papa acabou por ir ver o sofrimento das diversas periferias de Buenos Aires e, por isso, só entende a Igreja em movimento de saída, para o meio dos explorados, seja onde for.

2. A Exortação Apostólica, A Alegria do Evangelho, da qual comecei a falar no passado Domingo, é um dos frutos maduros da progressiva conversão que lhe foi libertando o olhar e desinibindo a voz perante as questões chocantes da Igreja e da sociedade, a nível local e global.

Como Bispo de Roma – o serviço donde derivam todas as outras responsabilidades – não olha para a realidade de maneira neutra e asséptica como um sociólogo. Procura o discernimento evangélico que ajude as comunidades cristãs a desenvolver uma capacidade de cuidadosa atenção aos sinais dos tempos, consciente de que vivemos não apenas numa época de mudanças, mas numa mudança de época.

O texto mais citado do documento referido e que mais polémica tem gerado, é mesmo chocante: ”Assim como o mandamento não matar põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata.

Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida para o lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social.

Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspetivas, num beco sem saída.

O ser humano é considerado como um bem de consumo que se pode usar e deitar fora. É a promoção da cultura do descartável. Já não se trata de exploração e opressão, mas de uma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na raíz, a pertença à sociedade: quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder, já está fora. Os excluídos nem explorados são, mas resíduos, sobras(3). Esse é o facto. Quais são as causas?

3. O argentino tenta responder. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos, pacificamente, o seu domínio sobre nós e sobre as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano.

Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro(4) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que afecta as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e, sobretudo, a grave carência de uma orientação antropológica, que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo(5).

Para desviar a atenção destas e de outras denúncias concretas, diz-se que já está tudo nos princípios da Doutrina Social da Igreja, que não deve descer muito ao concreto, porque a realidade está sempre a mudar. Quanto mais abstracta fôr, mais eterna se mantém. Também mais inútil.

in Público, 13.07.2014

1. Il Messaggero, 29.06.2014
2. Francesca Ambrogetti | Sergio Rubin, Papa Francisco, Paulinas 2013 (original 2010). Cf. Nello Scavo, A Lista de Bergoglio, ib., 2013; Arnaud Bédat, Francisco O Argentino, Guerra e Paz, 2014
3. Cf. E.G. 53

07 Julho 2014

Que trouxe de novo o Papa Francisco (2)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. A sacralização da dimensão humana da Igreja e das respectivas estruturas acaba por impedir a sua reforma permanente e encobrir situações recentes de triste memória. A Alegria do Evangelho* mostra que o Papa Francisco não tem acções nas indústrias de conserva: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual do que à auto-preservação”.Este sonho deve concretizar-se em processos de mudança nas paróquias, nos movimentos e nas dioceses.

O Bispo deve estimular organismos de diálogo e participação nos quais todos sejam ouvidos e não apenas àqueles que estão sempre prontos a lisonjeá-lo.Jorge Bergoglio comprometeu-se a praticar aquilo que pede aos outros, isto é, a trabalhar na conversão do Papado e das estruturas centrais da Igreja universal. Importa dar conteúdo à colegialidade e tornar as Conferências Episcopais sujeitos de atribuições concretas, mesmo doutrinais. A centralização excessiva não responde às necessidades actuais da evangelização a partir de situações sociais e culturais tão diversificadas.Este argentino recusa a consagrada receita da rotina: fez-se sempre assim! É preciso ser ousados e criativos na tarefa de repensar objectivos, estruturas, estilos e métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Sem identificação comunitária dos fins e dos meios, o sonho não passa de uma fantasia (nº 27-33).

2. Donde poderá vir a energia para tanta desenvoltura reformadora? Do encontro com o núcleo essencial do Evangelho. É este que dá sentido, beleza e fascínio ao novo estilo missionário, que faz a triagem entre o principal e o secundário e vence essa obsessão de amontoar doutrinas desconexas impostas à força de insistir no ridículo.

Bergoglio retoma, do Concílio Vaticano II, uma perspectiva entretanto esquecida: “existe uma ordem ou hierarquia das verdades da doutrina católica, pois o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente”.

Uma das tarefas teológicas mais urgentes consiste em passar, a pente fino, certas posições do magistério eclesiástico declaradas irreformáveis, certamente para evitar questões incómodas. Quem poderá fechar o futuro ao Espírito de Deus?

O Papa retoma o ensino de S. Tomás de Aquino para destacar que também na mensagem moral da Igreja existe hierarquia de virtudes e acções que delas decorrem. ”O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, manifestada através da fé que opera pelo amor”. Relativamente ao agir exterior, a misericórdia é a maior de todas as virtudes, pois compete-lhe debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta na realidade – remediar as misérias alheias. Tudo o resto só existe para secundar e exprimir o Evangelho da graça, do amor e da liberdade que exige e supera a justiça (S. Th. I-II, 66; 106-108).

Bergoglio conhece bem as consequências nefastas nas orientações pastorais, quando esta hierarquia não é respeitada e as virtudes que deveriam ser as mais presentes na pregação e na catequese – a caridade e a justiça – são as mais ausentes! Acontece a mesma coisa quando se fala mais da lei do que da graça, mais da Igreja do que de Jesus Cristo, mais do Papa do que da palavra de Deus (nº 36-38).

A moral cristã não é uma ética estoica, uma ascese, uma mera filosofia prática nem um catálogo de pecados e erros. É a resposta de amor ao amor que nos amou primeiro.

3. Este Papa resolveu descongelar a liberdade e o pluralismo na interpretação da Palavra revelada, honrando o trabalho dos exegetas e dos teólogos, assim como o pensamento filosófico e as ciências humanas. Serve-se de Tomás de Aquino para rejeitar o sonho de uma doutrina monolítica defendida por todos. O Evangelho é multiforme.

O empenhamento dessacralizador do novo hóspede da Casa de Santa Marta põe em causa costumes, alguns muito radicados no decurso da história da Igreja, mas que não têm ligação directa ao núcleo de Evangelho. Diz a mesma coisa de normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não são canais de vida. Não tenhamos medo de os rever!

Recorre a Tomás de Aquino para sublinhar que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus “são pouquíssimos”. A Igreja não deve transformar a nossa religião numa escravatura, quando a misericórdia de Deus quis que ela fosse livre e libertadora. A Igreja de portas abertas e enlameada pelos caminhos de todas as periferias o mundo, encontra os passos de Cristo (nº 37-49)

O guia do Papa, no seu programa reformador, é S. Tomás de Aquino, cuja novidade o espanta. Umberto Eco lembrou que, desde os finais do séc. XIX até aos nossos dias, uma corrente conservadora tentou transformar um incendiário, o condenado do séc. XIII, num bombeiro.

Esperemos que o irrequieto Bergoglio continue a desassossegar as Igrejas, as religiões, a banca, as sociedades, os governos para que se coloquem ao serviço da justiça.

P.S. A Sophia não precisa nada do Panteão. O Panteão Nacional precisa muito da Sophia.

Público, 06.07.2014

* Nesta crónica limitámo-nos a tocar em alguns números do 1º cap. do E.G.

 

Frei Bento Domingues

Fonte: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/que-trouxe-de-novo-o-papa-francisco-2-1661745

29 Junho 2014

Que trouxe de novo o Papa Francisco (1)

Frei Bento Domingues, O. P. 
 
1. Valerá a pena tentar uma resposta à pergunta do título deste texto? Creio que sim. Os incomodados com a intervenção surpreendente deste Papa tendem a desvalorizar, de modo displicente, a sua evidente novidade. Os deslumbrados com as suas prioridades, o seu método e o seu estilo tomam as espectativas do desejo como possibilidades reais de mudança na sociedade e da Igreja. No entanto, as mudanças reais e profundas não se decretam.Importa, por isso, lembrar alguns momentos, embora de forma muito sumária, da história eclesial que precederam o Papa Francisco, para se poder avaliar o que continua e o que muda.

Vivemos no presente, mas o olhar crítico sobre o passado é importante para discernir as opções que podem abrir ou fechar as portas ao futuro.Em continuidade e ruptura com o século XIX, a primeira metade do século XX foi, no plano da Igreja Católica, um tempo difícil e admirável. Entre anátemas e surtos criadores, foi uma época das grandes redescobertas cristãs, através dos mais diversos movimentos: social, bíblico, litúrgico, teológico, missionário, ecuménico, laical, de arte sacra, de grandes escritores católicos, etc..

No entanto, acabou por ser também o de condenações das iniciativas mais inovadoras, no campo da evangelização do mundo do trabalho e das elaborações teológicas, em confronto com as expressões modernas da cultura.Deveria fazer parte da formação dos Seminários e das Faculdades de teologia, o testemunho doloroso do mestre da eclesiologia do século XX, Yves Congar.*2. Ortodoxia, heterodoxia, medo do comunismo, renovação das expressões do catolicismo, polémicas em torno das formas de resistência ao nazismo tornaram o pontificado de Pio XII, nos anos 40 e 50, extremamente complicado para o próprio e para o conjunto da Igreja. Depois dele, muita coisa mudou.

Para João XXIII, a atenção à luz interior, aos “sinais dos tempos”, às vozes que vinham de dentro e de fora do mundo católico, todas falavam da mesma urgência: o aggiornamento da Igreja. Apontou-o como objectivo da convocação do Vaticano II, assumindo o diálogo como método de trabalho – o que diz respeito a todos deve ser tratado por todos –, a recusa dos anátemas como pressuposto geral e nunca aceitar respostas elaboradas antes de estudar as perguntas. O humor e a firmeza no projecto de reforma da Igreja ajudaram-no a não alinhar com os “profetas da desgraça”. De modo gráfico, poder-se-ia dizer que a concepção da Igreja, antes do Vaticano II, era uma pirâmide hierárquica e a celebração da Eucaristia colocava o padre de costas para o povo.

Paulo VI era uma personalidade muito culta que nos deixou gestos e textos admiráveis. Era, porém, um eterno perplexo. Usando a terminologia simplista da época, dir-se-ia que, para não perder os tradicionalistas, acabou por perder os “tradicionalistas e os progressistas”. Por exemplo, na atormentada preparação da encíclica Humane Vitae – usada como uma doutrina definitiva, que ele não desejava – multiplicou as dificuldades, quando pretendia ser uma grande ajuda no discernimento da ética sexual e familiar. Diz-se que para não perder a minoria, acabou por perder a maioria.

João Paulo I foi Papa apenas durante um mês e ficou conhecido como o “Papa do sorriso”. Filho de gente pobre, o seu pai, um socialista, teve de imigrar várias vezes para ganhar o sustento da família. Manteve-se fiel a esse passado, era anti carreirista e recusou ser coroado Papa. Era a aliança da alegria, do bom humor e da coragem. A sua morte repentina adiou, sine die, a reforma da Cúria romana, o seu projecto.

João Paulo II foi o combatente. Veio da Polónia, da ditadura comunista, inimiga da democracia política. A hierarquia da Igreja, por razões de sobrevivência, não podia promover o aggiornamento do Vaticano II na vida interna da Igreja. Contribuiu para abalar o comunismo. Como Papa, percorreu o mundo católico várias vezes, acolhido com entusiasmo, teve um apoio mediático de grande vedeta. O cardeal alemão, J. Ratzinger, Prefeito para a Doutrina da Fé, encarregou-se de extirpar as turbulências teológicas pós-conciliares na Europa e no Terceiro Mundo e, de forma estrondosa, na América Latina. Karl Rahner, um dos teólogos mais importantes, chamou a esse tempo o inverno da Igreja.

Os últimos tempos de João Paulo II foram tristes, não apenas do ponto de vista físico, mas sobretudo pela imagem da Igreja revelada todos os dias nos meios de comunicação: a pedofilia no mundo eclesiástico e os escândalos em torno do Banco do Vaticano. Bento XVI esteve muito tempo na Cúria Romana. Eleito Papa, não podia ignorar o que se tinha passado e continuava. Não podia deixar de condenar tudo isso. Manifestou-se incapaz de enfrentar esse universo, bem mais difícil do que varrer o campo teológico. Demitiu-se.

3. Eleito Papa, o cardeal Bergoglio escolheu o nome de Francisco, o de Assis. Esta escolha encerra o seu programa. Optou pelos pobres nas diferentes periferias do mundo: geográficas, sociais, culturais e existenciais. Os seus gestos e as suas atitudes foram os seus primeiros e mais eloquentes discursos, como veremos nas próximas crónicas.

in Público, 29 Junho 2014

*Cf. Journal d’un théologien 1946 -1956, Cerf, Paris, 2001.

Frei Bento
Frei Bento Domigues, OP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *