Os partidos radicais avançam com força no Parlamento Europeu

os populismos confirmaram nas urnas a fulgurante subida apontada nas pesquisas, e complicaram a governabilidade do projeto europeu.

A abstenção, o outro grande perigo, foi menos feroz do que se esperava: de novo alta, ainda que menos do que apontavam todos os prognósticos. Ao final a participação foi de 43,1%, uma alta pela primeira vez desde 1979.

Nem o fulgurante impulso dos populismos nem a abstenção embaçam o triunfo pela diferença mínima de Juncker nem o sabor agridoce que deixa para seus adversários: as eleições são sempre uma espécie de tribunal de última instância, e os eleitores decidiram que o social-democrata alemão Martin Schulz ficasse a vários corpos do candidato conservador. A esquerda segue assim com sua particular travessia no deserto.

Eleições Parl Europu 14 - Junker-Schulz

Isso em relação à disputa Juncker-Schulz. Porque a foto panorâmica das eleições é distinta: o bloco de esquerdas (social-democracia, esquerda radical e Verdes) conseguia à noite certa vantagem a respeito da centro-direita (PPE e outros partidos conservadores), com os liberais na metade do caminho entre uns e outros, e os populistas claramente em alta, especialmente na França, Itália e Reino Unido.

“Esse auge da eurofobia é desanimador; é uma depressão política amadurecendo”, afirmou a este jornal uma alta fonte comunitária. Além do crescimento da Frente Nacional, do UKIP britânico e companhia —que em nenhum caso põe em perigo a maioria pró-europeia—, se o restante dos números se confirmar isso deixa as coisas muito abertas na Eurocâmara, à espera do jogo das alianças habitual em Bruxelas, com a possibilidade de uma grande coalizão à la alemã ganhando força.

Segundo as primeiras pesquisas,

  • além dos populares (211 assentos, o que os permite indicar Juncker como presidente da Comissão Europeia)
  • e dos socialistas, que sobem em relação a 2009 (193),
  • perderam espaço os liberais (74),
  • os Verdes subiram ligeiramente (58 deputados)
  • e a esquerda radical ganhou terreno (47 eurodeputados) entre os cinco partidos mais votados.

Mas as eleições europeias não são como as demais: nas semanas posteriores à votação há sempre uma dança das cadeiras capaz de engordar ou emagrecer os principais grupos parlamentares, o que pode modificar a fisionomia da foto final e dar uma virada para as maiorias que apenas vislumbravam à noite.

O auge dos eurofóbicos é uma sacudida e indica que o grau de incerteza ainda é altíssimo

O veredicto —ainda provisório até a conclusão deste texto— das urnas deixa um punhado de leituras-chave.

O bipartidarismo está em crise mas não se entrega: Juncker ou Schulz terão que se aliar ou buscar parceiros para governar, mas ambos partidos serão imprescindíveis e, mesmo em queda, seguem somando mais de 60% dos assentos. Mas cuidado.

Se a política é a forma em que uma sociedade se ocupa da incerteza, o auge dos eurofóbicos é uma sacudida em toda a regra e indica que o grau de incerteza ainda é altíssimo.

Eleições P. Europeu 14 - Marine le Pen

  •  O populismo, com seus remédios simples para problemas complexos e acariciando o gatilho de seu tenebroso arsenal anti-imigração, mostra as garras com uma pujança que marcará algumas das agendas políticas fundamentais dos próximos anos.
  • Os partidos eurocéticos, eurofóbicos e demais somam pouco mais de 20% dos votos, com resultados impactantes em vários países.
  • As repetições da história: a história da Europa no século XX demonstra que as grandes crises e determinadas receitas econômicas “provocam que a democracia se volte contra a democracia”, afirmou um diplomata.

A sede em Bruxelas do Parlamento era à noite um ir e vir incansável de jornalistas, políticos e funcionários. O PP era considerado ganhador desde as primeiras pesquisas; Schulz era visto como “forte” e “capaz de encontrar uma maioria” de governo. Em meio a essa confusão, as análises coincidiam em ser qualquer coisa menos complacentes. Charles Kupchan, do CER, considera o auge do populismo como “uma severa, feia e sonora reprimenda ao projeto europeu”.

E o sociólogo José María Maravall avisou que a ascensão dos radicais deveria vacinar a Europa contra a tentação de uma grande coalizão. “Seria uma grande declaração de debilidade, quando o projeto precisa de um governo que assuma responsabilidades: a UE é um estranho animal político em que a responsabilidade dos líderes se esfuma e o povo é incapaz de atribuir culpas e de castigar alguém de forma coerente. Por isso os radicais crescem”.

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/531677-os-partidos-radicais-avancam-com-forca-no-parlamento-europeu

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