O que muda e o que não?
Para nós, no Brasil, não é fácil entender a hierarquia católica da Igreja argentina.
Quando, por exemplo, nos tempos da ditadura brasileira, a maioria dos bispos ficou ao lado do Povo, defendendo-o da perseguição militar e produzindo diversos fortes documentos contra a ditadura, e se empenhando a fundo na opção preferencial pelos pobres e pela pastoral capilar das CEBs, no espírito do Vaticano II, de Medellin e de Puebla, os bispos argentinos, na sua maioria, deixou, calada, os generais e seus comandados, assassinar, torturar e fazer desaparecer milhares de pessoas, inclusive crianças. E davam a comunhão aos generais, tidos como salvadores da pátria argentina contra o comunismo.
As exceções foram Dom Enrique Angelelli, bispo de Rioja, Dom Jeronimo Podestà, bispo de Avellaneda, que, para não ser preso ou assassinado, teve de fugir do país. E os bispos Carlos Horacio Ponce de León, Jorge Novak, Jaime de Nevares y Miguel Hesayne, que lutavam pela aplicação na Argentina, do Concílio Vaticano II e das Conferências de Medellin e Puebla e pelos direitos humanos negados aos mais humildes.
Dom Henrique Angelelli, bispo de Rioja, foi assassinado a mando dos militares, num estranho acidente de carro. O Episcopado argentino, inclusive o cardeal Bergoglio , muito amigo do presidente general Massera, e que quis presidir as homenagens a Dom Angelelli, na comemoração dos 30 anos da sua morte, até hoje, ainda não teve a coragem de aceitar a morte dele como assassinato. Mesmo depois em junho de 1986, quando a justiça de Rioja deu por provado o assassinato de Dom Angelelli.
Mas o Presidente Kirchner, em 2 de agosto de 2006, dois dias antes do trigésimo aniversário do assassinato de Dom Angelelli, proclamou o dia 4 de agosto dia nacional de luto, “comemorando os religiosos que furam vítimas do terrorismo de Estado”.
Para se chegar a esse veredicto, foram excepcionais os esforços dos bispos acima citados, Jaime de Nevares, Jorge Novak y Miguel Hesayne, junto com o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel e Emilio Mignone, “que ainda durante a ditadura apresentaram a denúncia pelo assassinato de Dom Angelelli. O juiz Aldo Morales, na sentença, afirmou se tratar de um homicídio friamente premeditado”. (Cf. http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-70720-2006-07-30.html)
Também nos soa muito estranho que em pleno séc. XXI, pela Concordata entre o Vaticano e a Argentina, o governo ainda financie a Igreja católica.
João Tavares
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Como vão ser as relações entre o Governo e a hierarquia católica depois da eleição da nova direção do episcopado encabeçada pelo arcebispo de Santa Fé José María Arancedo? Formalmente, não haverá mudanças: em ambos os lados se continuará falando de “normalidade”, “institucionalidade”, “cordialidade”. A mesma coisa em relação aos temas que serão debatidos. É isso que indicam também as respostas da maioria dos consultados de um lado e de outro. Nas questões substanciais, nos acordos e nas diferenças de fundo, não se deve esperar maiores novidades.
A reportagem é de Washington Uranga e está publicada no jornal argentino Página/12, 10-11-2011. A tradução é do Cepat.
Os acordos? Autonomia entre Estado e Igreja, embora respeitando a tradição histórico-cultural-religiosa do país que impõe inclusive alguns marcos de referência. Começando pelo mandato constitucional que indica que o Estado argentino financia a religião católica. Mas também com um Estado que diariamente reconhece mais a pluralidade religiosa existente no cenário nacional.
Haverá coincidências para continuar colaborando em temas sociais. As substituições de Jorge Lozano por Jorge Casaretto na Pastoral Social e de Oscar Ojea por Fernando Bargalló na Cáritas Argentina garantem uma mesma linha de pensamento e ação. Colaboração entre o Governo e a Igreja em temas sociais é algo que se vem verificando desde o começo da gestão de Néstor Kirchner, fundamentalmente através do Ministério do Desenvolvimento Social, comandado por Alicia Kirchner, e do Ministério de Planejamento Federal, encabeçado por Julio de Vido, neste último caso mediante a participação da Cáritas na execução de planos de moradia. Este trabalho conjunto se manteve inclusive nos momentos em que Igreja e Governo apareceram mais distanciados publicamente.
Em geral se pode dizer que na frente social da Igreja ficou estabelecido claramente a marca de um estilo forjado ao longo de anos pelo bispo Jorge Casaretto. Faltando pouco para encaminhar seu pedido de renúncia por atingir os 75 anos, o bispo de San Isidro pode ver com satisfação que seus pares reafirmaram esse modo de ação pastoral escolhendo para os cargos chaves bispos que seguramente continuarão com a mesma linha de trabalho.
Os desacordos? Os já conhecidos temas sobre “a vida”, de acordo com a linguagem eclesiástica. Oposição eclesiástica a qualquer legislação favorável ao aborto ou à eutanásia… E um que persiste como obstáculo permanente na relação, mas sobre o qual ambas as partes preferem no momento não fazer maior referência: a intenção do Governo de eliminar a diocese castrense e os capelães militares e a oposição do Vaticano de aceitar uma reforma nesse sentido. Os bispos não deixarão de insistir sobre a situação social e de demandar soluções para o tema da pobreza. Mas é certo que isto não tem nada a ver com esta administração em particular. Quase se pode dizer que é sua pregação permanente.
No alvo episcopal também está o que eles chamam de “institucionalidade democrática”. Estarão muito atentos à evolução da situação política e ao funcionamento dos poderes do Estado. Bergoglio mexia constantemente este tema. Arancedo, que foi vice-presidente na gestão anterior, não ficará atrás.
O que mudará então? É provável que mude o estilo da relação, basicamente porque as personalidades de Arancedo e de Bergoglio são diferentes. O cardeal é um homem sumamente reservado, às vezes hermético. Isso não significa que não mantenha uma ativa vida de relações políticas e institucionais, mas sempre em ambientes reservados. Arancedo tem outra forma de comunicação e, pelo menos até o momento, uma grande disposição para o intercâmbio franco de ideias e opiniões. A isto se soma a presença do novo bispo de Neuquén, Virginio Bressanelli, como primeiro vice-presidente. O bispo recebeu muitos apoios (inclusive em um momento pôde disputar a presidência com Arancedo) e isso o potencia também no interior do corpo. Bressanelli tem uma trajetória pessoal que o caracteriza como uma pessoa de firmes convicções, de grande inteligência e capacidade, e também de perspectiva dialogal.
Qual será a influência de Bergoglio? Embora o cardeal insista em assinalar que deve “descansar” e que agora poderá fazer algumas coisas que vinha protelando, não há dúvida de que sua experiência e prestígio pessoal, o fato de que muitos dos que hoje são bispos tenham sido indicados por ele para essas responsabilidades e sua administração como arcebispo de Buenos Aires (que se estenderá ainda por alguns anos), convertem-no em um homem de referência permanente em todas as decisões que forem tomadas. Além disso, porque um de seus colaboradores diretos, o bispo Enrique Eguía, continuará na Secretaria Geral da CEA.
Também é certo que as eleições da Conferência Episcopal podem ser lidas como uma reafirmação da primazia dos setores moderados. Isso transparece das nomeações. Mas também o fato de que os mais conservadores não obtiveram a presidência de nenhuma comissão, salvo a ratificação em seu cargo como presidente da Educação Católica do arcebispo de La Plata, Héctor Aguer. Mario Cargnello, segundo vice-presidente, será o canal mais procurado pela ala conservadora para fazer chegar suas posturas e reivindicações à Comissão Executiva.