A árvore da vida/2 – As “imprudências” que nos salvam de Caim
«Confrontei as suas antigas palavras e as minhas velhas perguntas com os acontecimentos da história, da cultura, da tradição. Isto é, usei a minha fé hebraico-cristã como chave de leitura; e mais convencido fiquei de que ela é hoje a única chave possível.» (Sergio Quinzio)
No princípio não era Caim. Era algo de bom e belo que no sexto dia, com o Adam, se tornou muito bom e belo (Gén. 1,31). Era a bênção que pairava sobre o mundo criado. O início, o bereshit, o princípio da terra, dos seres vivos e dos humanos é bondade e beleza; mostra qual é a vocação mais profunda e verdadeira da terra, dos seres vivos, do homem e da mulher.
E mostra também que a terra é viva porque está dentro de uma relação de amor e reciprocidade; que são vivas também as montanhas, as pedras, os rios. De contrário, os outros seres, que dizemos vivos, estariam circundados pela morte; e a pouca vida existente haveria de ser muito triste (como, aliás, deve parecer a quem já não sabe ver esta vida).
O primeiro capítulo do Génesis é todo ele um sublime hino à vida e à criação que tem por cume o Adam, o ser humano. E todas as criaturas são boas, muito boas, belas e abençoadas porque queridas com amor transbordante.
No entanto, a realidade histórica da humanidade de então (VI-V séc. a.C.) – como a de hoje – era um espetáculo de lutas, homicídios e morte. Este texto tem então uma primeira grandeza que me parece espantosa: a primeira palavra não é dada às relações humanas que os escritores sagrados podiam quotidianamente observar; pelo contrário – graças à força e inspiração dos autores – a primeira palavra é dada à harmonia, à bondade, à beleza, às bênçãos das criaturas e da mais bela e boa de entre elas: o Adam.
Esta positividade antropológica (e ontológica) não a encontramos nas narrações da criação do Próximo Oriente ou da Índia, contemporâneos ou anteriores ao Génesis, nas quais o mundo nascia de violências, lutas entre deuses, de decadências e degenerações. Pelo contrário, a primeira palavra sobre o homem do humanismo bíblico é bondade-beleza (tov). O mal pode ser tremendo e louco, mas o bem é mais profundo e forte que qualquer mal, por maior e mais devastador que ele seja.
Muitos destes primeiros trechos do Génesis foram escritos durante o exílio na Babilónia ou quando era ainda muito viva e dolorosa a memória do mesmo. Os exílios só podem ter fim quando houver fé e esperança de que o bem é maior e mais profundo que os males do presente.
Nessa realidade boa e bela do princípio estavam já Caim e Lamec,
- os irmãos que venderam José,
- os habitantes de Sodoma,
- o vitelo de ouro,
- os habitantes de Gàbaa, da tribo de Benjamim.
Mas também nós lá estávamos,
- com os lager,
- as dolinas (depressões naturais que serviram de valas comuns para civis massacrados pelos nazis em Itália),
- os gulag,
- milhares de matanças de inocentes,
- os traficantes de pobres e do jogo de fortuna e azar,
- as guerras religiosas,
- o 11 de setembro,
- os jovens mortos em Kiev e todos os males e extermínios que estão a acontecer agora e que, com grande probabilidade, faremos acontecer no futuro.
Mas antes, antes de tudo, havia aquela coisa muito bela e muito boa, criada pouco inferior aos anjos (Salmo 8): uma bênção dita para sempre e que todos os nossos pecados não conseguem eliminar.
Esta coisa muito bela e muito boa fica doente e degenera, mas nenhuma doença da alma e do corpo tem força suficiente para anular a beleza e a bondade primordiais. São precisas muita dor e muita agape para continuar a crer neste bereshit; mas esta fé tenaz e teimosa é o único modo para nos salvarmos dessas doenças, para não sucumbirmos perante o cinismo e o niquilismo, ameaças sempre presentes nas civilizações, sobretudo nos tempos de crise e de exílio.
A vida não morrerá, não se apagará dentro de nós, enquanto não esquecermos que antes de Caim existe Adam, tendo embora que olhar a história na perspetiva de Caim e dos seus filhos. E se Adam existe antes, poderá existir também depois, porque a escuridão do oitavo dia não consegue escurecer a luz da aurora do sexto dia; é esta a principal mensagem e o grande ato de amor que brota do Génesis e da Aliança.
A esperança que não é vã consiste inteiramente em não deixar-se nunca convencer que o primeiro capítulo do Génesis não passa de mito consolatório, paraíso perdido para sempre, fumo teológico para os olhos dos povos, fábulas para adormecer meninos à noite, a primeira novela da história.
Acreditar nesta primeira palavra sobre o mundo e sobre o homem significa não acreditar na multidão dos cínicos, nos muitos amigos de Job que querem convencer-nos de que a primeira e última palavra sobre o homem é a de Caim. Sobre este pessimismo antropológico radical fundámos
- contratos sociais e Leviatãs,
- direito penal e tribunais,
- impostos, taxas e respetiva cobrança,
- bancos,
- o fundo monetário,
- a eutanásia para crianças.
Pelo contrário, uma economia baseada no primado de Adão sobre Caim e Lamec teria por fundamento a ética das virtudes, cuja raiz verdadeira está no primado do bem sobre o mal e não se deixaria colonizar pelo utilitarismo vulgar que hoje a manipula.
Consideraria os trabalhadores como pessoas antes de mais capazes de bem e de beleza; e desenharia as organizações para permitirem o crescimento de dons e beleza e não apenas do cinismo e do oportunismo produzidos por visões e teorias que mais não fazem que multiplicar os filhos de Caim.
Seriam utilizados mais prémios (os instrumentos motivacionais do Adam) e menos incentivos (que resultam da antropologia de Caim).
O homem real é um misto de Caim e de Adão, mas o humanismo bíblico diz-nos que primeiro está Adão. Se a primeira e a última palavra sobre nós fosse a de Caim, nenhum perdão e nenhum recomeçar seriam verdadeiros.
Quem levar a sério aquela primeira palavra sobre o humano – ou quem a receber em dom – terá olhos novos da alma para olhar à sua volta. Verá que o mundo está repleto de coisas belas e boas: quando admira o pôr do sol, as estrelas e as montanhas cobertas de neve; mas coisas muito boas e muito belas descobre-as nos colegas, nos vizinhos, no velho que morre, no doente terminal, em tanta gente deformada por excesso de miséria ou por excesso de riqueza, na avó que volta a ser menina e a brincar com bonecas, em Dimitri que tresanda a vinho, no metro, em Lucia que não acorda do coma; Caim continua a ferir-nos. Não há floresta amazónica ou cume de montanha alpina que cheguem à beleza-bondade de Maria, sem-abrigo da estação Termini.
Bastam poucos destes “olhares” para nos fazer ressuscitar cada manhã, para nos fazer sair de qualquer crise. Se ainda estamos vivos é porque houve e continua a haver olhares assim; a nossa cidade não foi “destruida” porque nela existiu pelo menos um destes olhares. Olhares que se dirigiram também a nós, talvez, sem que nos déssemos conta; a começar pelo primeiro olhar de mulher que nos acolheu quando chegámos ao mundo.
Os carismas são sobretudo o dom ao mundo de olhares diferentes que, pousando sobre nós e pronunciando o nosso nome, fazem com que nos tornemos naquilo que verdadeiramente somos já. Com a sua presença salvam Adão da mão homicida de Caim.
Estes olhares maiêuticos existiram e existem também nas empresas e nos mercados. Muitas vezes me cruzei com eles:
- num empresário que voltou a dar a sua confiança a um trabalhador, depois de grave deslealdade;
- num trabalhador que perdoou a um colega que o tinha enganado;
- num abraço entre sócios, após anos de profundas feridas recíprocas.
Tais olhares existem mesmo em tempo de exílio e de crise, quando estas atitudes de imprudência custam e valem muito. Olhares agapicamente imprudentes, mas nunca ingénuos; sempre verdadeiros e salvíficos, fazem milagres quando se cruzam com outros olhares, de olhos iguais. E viu que era tudo muito bom e muito belo.
Luigino Bruni
In Avvenire Trad.: António Bacelar


