Essas agências, sabemos, têm critérios bastante duvidosos de análise, o que nos leva a suspeitar de muitas de suas conclusões e, ainda mais, de suas previsões. No caso atual do anúncio da Standard & Poor’s, era um acidente anunciado. Ela vinha dizendo que observava de perto a economia brasileira e que havia uma probabilidade de rebaixamento da nota. Seus eventuais efeitos – se é que eles são significativos – já tinham sido incorporados aos preços do mercado.

Aconteceu. No comunicado, a S&P cita fatos, mas a interpretação que oferece para eles nos parece exagerada. O Brasil não tem hoje grave problema fiscal. Temos uma relação Dívida Bruta/PIB estável há dez anos, em torno de 60%. Temos, infelizmente, uma “perspectiva” de que esse equilíbrio fiscal possa piorar no futuro, desde que o governo não tome as providências para enfrentá-lo.
Não tem, entretanto, um fato que hoje nos leve a isso. O atual déficit fiscal é em torno de 3,5% e 4%. Não é nada exagerado para um país como o Brasil. O governo Dilma se comprometeu a manter a relação Dívida/PIB. Vai fazer em 2014 um superávit primário de 1,9%. A agência não acredita e antecipa, sem esperar alguns meses para confirmar sua dúvida, que ele é impossível.
Com relação ao crescimento, é inegável que ele é muito pequeno, talvez abaixo de nossas possibilidades. O mundo inteiro enfrenta o mesmo problema. Crescemos no ano passado 2,3%, o que não é, evidentemente, dos menores dentre as demais economias, num ano em que até o crescimento chinês encolheu.
De qualquer forma, não podemos estar satisfeitos. É uma taxa muito baixa, ruim para uma economia como a brasileira,
- que criou uma inclusão social,
- desenvolveu um mercado interno muito importante,
- que mantém um consumo em alta
- e um nível de emprego bastante satisfatório.
O crescimento é liderado pelo investimento, que é o que o governo tem tentado estimular, com alguns avanços depois de ter aprendido como ativar as concessões nos projetos de expansão da infraestrutura.

A agência diz que o Brasil está numa situação externa complicada, o que precisa ser relativizado. Temos reservas acumuladas da ordem de 370 bilhões de dólares, mas o déficit em conta corrente é grande.Agora mesmo o Banco Central acaba de estimá-lo em 80 bilhões de dólares para 2014. Não é uma coisa que possa continuar.
De fato o mercado aqui ajudou a corrigir os erros do governo: a desvalorização cambial em curso vai dar mais resultados daqui a 10 ou 12 meses. Pode-se dizer que a situação é desconfortável, mas não que indica a iminência de uma tragédia.
A agência S&P luta bravamente em busca da credibilidade que ela e suas companheiras menos exibicionistas perderam na crise de 2008.
Graças aos rapapés dos analistas financeiros e das autoridades brasileiras, ela teve, enfim, seus 15 segundos de preciosa visibilidade. Não adianta brigar com os fatos. As agências têm importância devido a um oligopólio misteriosamente construído e conservado pela legislação administrativa dos EUA. O “grau de investimento” que o Brasil ainda mantém estabelecido por ao menos duas agências é necessário para os fundos de investimento poderem aplicar no País.
Não vamos ter ilusão: tudo isso deverá ter consequências. Talvez o anúncio já estivesse até marcado na curva, mas significa, no mínimo, a consolidação da elevação dos custos do financiamento do Brasil, não apenas do governo, mas também do setor privado.
A única coisa a lamentar é que uma opinião arbitrária, firmada no puro preconceito a priori de que o governo não aprendeu nada e estava apenas ganhando tempo com suas promessas, tenha levado a S&P a atravessar o samba, negando um voto de confiança de no mínimo um semestre para verificar se ele não havia mesmo mudado.
Delfim Netto
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/793/a-201csabedoria201d-das-agencias-2059.html