domingo, 9-3-2014
Em Roma, sente-se brotando como um mal-estar. Desde alguns dias, quando as respostas ao questionário enviado pelo Vaticano às paróquias para preparar o futuro Sínodo sobre a Família começaram a chegar, o desconforto é palpável.Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, alertou sobre a “urgência de tomar consciência das realidades vividas pelas pessoas e de retomar o diálogo com aqueles que se afastaram da Igreja”, dirigindo leves reprimendas às Conferências dos Bispos da Alemanha, da Áustria e da Suíça. Ao publicar as respostas, esses últimos transgrediram, com efeito, a obrigação de sigilo que havia sido imposta.
Dirigindo-se aos jornalistas, no dia 25 de fevereiro, exatamente um dia depois que o Colégio dos Cardeais teve uma reunião de dois dias para discutir sobre a pastoral da família, o cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, declarou como “lamentável” a falta generalizada de conhecimento dos católicos sobre a doutrina da Igreja.
Por outro lado, afirmou que não é porque as pessoas não compreendem a palavra de Jesus que ela possa ou deva ser mudada: “Seria paradoxal que a Igreja dissesse: ‘Uma vez que ninguém conhece a verdade, a verdade não será mais obrigatória no futuro’”.
A reportagem é de Marie-Lucile Kubacki e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 28-02-2014. A tradução é de André Langer.
As devoluções da “base” seriam mais problemáticas que o previsto?
Na França, a maioria das respostas registradas pelos bispos franceses aponta um “desajuste” entre “o ensinamento da Igreja e as escolhas dos casais”, desajuste que aparece “particularmente em relação à contracepção e às demandas que os divorciados recasados dirigem à Igreja em relação aos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação”.
Por outro lado, uma grande maioria das respostas destaca que a Encíclica Humanae Vitae (1868) “entranhou em muitos casais uma ruptura com o ensinamento da Igreja” e que “a insistência da Igreja sobre esse ponto parece incompreensível para essas pessoas”.
Na Suíça, 90% das respostas se dizem a favor da comunhão às pessoas divorciadas recasadas e 60% “apóiam o voto de reconhecimento e de bênção pela Igreja dos casais homossexuais”.
Na Alemanha, os jovens católicos julgam “irresponsável” comprometer-se com um casamento sem ter provado a solidez do seu laço coabitando antes de receber o sacramento. Eles são 90% nesse caso e julgam a situação “quase universal”.
A síntese das respostas, que não deveria ter sido publicada, afirma que muitos católicos eram favoráveis à iniciativa lançada em 2013 pela Arquidiocese de Friburgo que encorajou os casais divorciados recasados a falar da sua situação a um padre local, a fim de que a questão da comunhão seja considerada como um caso de consciência pessoal.
As coisas se complicam quando cada um tem uma ideia muito precisa do que espera do “seu” sínodo e as expectativas de uns não são necessariamente as de outros. Assim, as respostas dos católicos diferem sensivelmente quando nos afastamos da Europa.
Na África, a questão sensível não é tanto saber se os divorciados recasados vão poder enfim comungar ou se confessar, mas saber como acabar com a poligamia. E para um bom número deles, acabar com a poligamia supõe incitar a Igreja a abrandar o propósito da indissolubilidade do matrimônio como relação entre um homem e uma mulher para a vida e, portanto, frear uma possível evolução concernente ao acesso a alguns sacramentos para os divorciados recasados.
Assim, de acordo com o vaticanista John Allen, “a voz da África no debate parece reforçar a ala conservadora”. Segundo os prelados que participaram das sessões, “os cardeais dos países em desenvolvimento emitiram conselhos de prudência em relação a uma eventual flexibilização da posição da Igreja”.
A polifonia poderia virar uma cacofonia? Em um artigo do National Catholic Reporter, “entre os 150 cardeais que participaram das sessões a portas fechadas com o Papa Francisco para repensar as práticas da Igreja católica em matéria de pastoral familiar, alguns declararam que o Papa fez uma convocação para uma discussão num processo “mal compreendido”.
Uma vez que não é possível para as pessoas de países diferentes conhecerem as especificidades de cada região do mundo, o cardeal francês Paul Poupard declarou que esperava que as reuniões ajudassem os cardeais “a encontrar meios para dialogar, sem que fosse uma guerra civil”.
E se o objetivo do Sínodo foi mal compreendido? A dúvida parece aflorar. Esta é, ao menos, a opinião do arcebispo de San Francisco: “A ideia de preparar o Sínodo sobre a Família consultando os católicos como eles vivem o ensinamento da Igreja no dia a dia era uma iniciativa boa. Seu objetivo foi mal compreendido; não houve tempo para fazer o trabalho corretamente.”
Com efeito, o sínodo tem por tema “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”: “O simples fato de que tenha este título já é em si uma resposta”, explica Florence de Leyritz, responsável, junto com seu marido, da Alpha France.
“Nos concentramos sempre sobre os temas em que o ensinamento da Igreja, ao ser extremamente mal compreendido, é rejeitado. Ora, tudo está ligado. Muitas crianças não participam da catequese e deixam a fé cair. Mesmo nas famílias católicas, as crianças recebem toda sua educação, inclusive sua concepção da sexualidade, do mundo, e não da Igreja.
E embora seja um serviço às pessoas machucadas, isso se vê muito pouco… É preciso, em primeiro lugar, articular todas essas dimensões. Se não nos focarmos nas questões sobre as quais se desviam todos os olhares, nos contentaremos em tratar os sintomas do problema sem arrancá-lo pela raiz.”
Mas se, ao contrário, a proposta foi perfeitamente compreendida? Para o
vaticanista Sandro Magister, o Sínodo dos Bispos poderia ser influenciado de maneira determinante por um outro sínodo, aquele da opinião pública: “Pode-se prever que estas expectativas da opinião pública se farão ainda mais fortes e prementes quando o Sínodo se reunir pela primeira vez em outubro próximo. (…)
Está acontecendo então com este Sínodo, por decisão voluntária do Papa e das altas hierarquias, o que aconteceu de maneira imprevista com o Concílio Vaticano II, ou seja, sua duplicação em um concílio “externo”, muito ativo nos meios de comunicação e em resposta a outros critérios, capazes de influir de forma determinante no verdadeiro Concílio.
” Um sínodo “externo”, da opinião pública, poderia emergir, favorecido pela consulta lançada em novembro pelo envio do questionário. Então, sínodo da opinião pública e/ou Sínodo dos Bispos.
A questão é tanto mais difícil porque nem a opinião pública de um lado, nem os bispos do outro, tocam a mesma partitura. Há uma forte aposta, portanto, em que o papel do chefe da orquestra seja determinante.
Para ler mais:
- 26/02/2014 – Questionário do Sínodo dos Bispos mostra que a maioria dos fiéis rejeita a doutrina sobre contraceptivos
- 06/02/2014 – Mais de 16 mil respondem à sondagem sobre a família antes do Sínodo dos Bispos
- 26/11/2013 – Sínodo dos Bispos sobre a família. Jovens alemães respondem ao questionário
- 25/11/2013 – Sínodo dos Bispos sobre a Família. “Uma real aproximação ao diálogo democrático na Igreja”
- 09/10/2013 – O Papa convoca um Sínodo dos Bispos extraordinário sobre a família]
