Após Constantino, o poder na Igreja ficou nas mãos dos bispos e do clero. Eram eles que ensinavam, administravam os sacramentos e governavam as comunidades. Cada pároco era papa na sua paróquia. Os leigos só tinham obrigações: frequentar a paróquia, obedecer e, sobretudo, sustentar financeiramente uma instituição onde não tinham nenhum poder. O poder do clero apresentava-se como sendo poder de Deus.
Hoje a Igreja já não tem o mesmo poder ou talvez viva da ilusão de ainda o ter. E o seu problema é ter de evangelizar sem o poder de outrora. Precisa fazê-lo numa relação de igualdade, entre pessoas iguais, e não num relacionamento de superior para inferior.
É esse o drama de muitos padres jovens: formados para o poder, descobrem, diante da realidade, que esse poder já não existe.
Entretanto, após o concílio Vaticano II, muito se tem falado e escrito sobre a promoção dos leigos na Igreja. Contudo, de um modo geral, eles continuam na mesma, como dantes, sem poder e sem autonomia. Quase tudo ficou só em palavras.
Os leigos têm um lugar próprio na Igreja!
O leigo não é um simples secular. É um membro da Igreja, atuando no mundo. Possui um mandato direto de Cristo (LG, 33/83). O seu campo de ação é o mundo, onde não se poderá eximir de um sério compromisso com a promoção da justiça e do bem comum. Há de ser agente da justiça, não apenas um denunciador da injustiça. Para tanto, cabe-lhe também a militância partidária.
É o que reafirma um documento relativamente recente, de maio de 2007: o “Documento de Aparecida”, texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Lê-se no número 174: “É importante recordar que o campo específico da atividade evangelizadora leiga é o complexo mundo do trabalho, da cultura, das ciências e das artes, da política, dos meios de comunicação e da economia, assim como as esferas da família, da educação, da vida profissional, sobretudo nos contextos onde a Igreja se faz presente somente por eles”.
Isto, porém, ainda nos faz recuar até ao concílio Vaticano II. Falou-se lá do sacerdócio comum a todos os batizados e do sacerdócio ordenado, diferente do comum, não só em grau, como também na essência. Aos leigos caberia cuidar da esfera temporal, ao clero e aos religiosos cuidar das coisas do espírito e do sagrado.
O pós-concílio fez com que essa contraposição fosse superada. Surgiram vigorosas vocações laicais a exercer serviços e ministérios, não só no mundo, mas também dentro da própria Igreja. Num tempo em que os seminários foram ficando desertos, muitos leigos encontraram a vocação em novas formas de servir à Igreja: além dos serviços tradicionais (educação religiosa, visita aos enfermos, etc.), assumiram formas mais recentes, inclusive a direção de paróquias e a pregação. São os ministros eclesiais leigos. E isso tem criado tensões, ainda não resolvidas, quanto ao modo como se há de entender a dignidade e vocação dos leigos em relação à dignidade e vocação do clero.
Um olhar às origens
No princípio, o essencial foi o serviço, não a autoridade nem o poder.
No movimento de Jesus e das primeiras comunidades, o ministério era exercido por homens e mulheres. E era um ministério laical.
Jesus era leigo, não sacerdote. Leigo não só sociologicamente, mas também na sua realidade de mediador. A Carta aos Hebreus chama-o sacerdote, mas a sua realidade de mediador vem-lhe do exercício de realidades laicas: misericórdia, fidelidade, entrega. Não precisou de acréscimos sacrais e de poder, de que se haviam de revestir mais tarde os ministérios eclesiásticos.
Leigo e laicato não têm qualquer referência na Sagrada Escritura. A originalidade no cristianismo é a de que todos são consagrados a Deus e não existe para o cristão vida profana. O leigo é o cristão sem acréscimos ou adjetivações, fora da sua pertença a Cristo pelo batismo.
Nas comunidades paulinas, o equivalente ao que denominamos ministérios, era também prerrogativa tanto de varões como de mulheres. Os ministérios surgiram para atender às necessidades das comunidades e a sua validade não provinha necessariamente de que um Apóstolo lhes conferisse qualquer autoridade.
Ouvindo os teólogos
Antes do concílio Vaticano II, predominava a ideia de que Jesus estabeleceu diretamente uma hierarquia sobre a qual recairia toda a autoridade ministerial da Igreja. A crítica histórica mostrou que não foi assim. E, com o florescimento do ministério leigo após o concílio, teólogos como Hans Küng e Edward Schillebeekx chegaram à conclusão de que o ponto de partida foram as comunidades cheias de Espírito e carismáticas, de onde surgiram variados modelos de ministérios, dirigentes e ofícios, que acabaram por se solidificar na tríplice forma ainda hoje existente: bispos, presbíteros e diáconos. Historicamente, estes, aos poucos, transformaram-se numa casta ministerial distinta.
Edward Schillebeekx diz que todo o ministério deve ser visto como “desenvolvido espontaneamente a partir de baixo (de acordo com as leis sociológicas da formação dos grupos)”. Originou-se do fato de as comunidades delegarem alguns dos seus membros para exercerem a função de servir, dirigir e coordenar a vida comunitária. Com isto, ele compartilha com Küng a opinião de que toda a terminologia que viria a diferenciar o sacerdócio ordenado do sacerdócio comum de todos os cristãos (diferença essencial, mudança ontológica, permanência, caráter) representa uma sacralização posterior desnecessária e inútil.
“Para uma teologia do laicato” é a obra de outro grande teólogo, Yves Congar. Reflete longamente sobre a importância da cooperação dos leigos no apostolado hierárquico. Ele não viveu para ver a evolução dos ministérios eclesiais leigos. Mas ninguém duvida de que ele os teria acolhido calorosamente. Uma das suas crenças era a de que a apostolicidade era uma marca de toda a Igreja, de todo o cristão. Por isso, o aumento das funções dos leigos nos ministérios, já visível no seu tempo, ele atribuía-o não apenas à escassez de sacerdotes. E entendia que a profusão de padres no passado é que contribuiu para esconder a apostolicidade dos leigos.
Em busca de uma proposta construtiva
O fenômeno da crescente participação dos leigos em ministérios antes reservados ao clero, veio suscitar questões.
João Paulo II não quis confusões entre o ministério de ordenados e os ministérios leigos. Nada de “clericalização dos leigos nem de laicização do clero”. E, nos últimos anos, o Vaticano tem insistido em acentuar as diferenças entre a forma ordenada e a forma leiga dos ministérios.
Tentando desfazer diferenças essenciais entre os ministérios, um leigo católico, professor de Teologia na Inglaterra, Paul D. Morray, apresenta uma nova noção, em sua opinião mais construtiva. É nisto, diz ele, que está o caráter distintivo dos ordenados: eles são testemunhas autorizadas e públicas e representação sacramental do ministério de Cristo, conduzido pelo Espírito em toda a Igreja. E isso, não só quando exercem funções pastorais específicas, mas na totalidade do seu viver. Como tal, o caráter distintivo do sacerdócio ordenado é assim que tem de ser entendido: não é um tipo de sacerdócio essencialmente diferente do sacerdócio dos leigos, nem uma versão de qualidade superior desse mesmo sacerdócio. É apenas um modo fundamentalmente diferente de exercer (de maneira pública, oficial, representativa) o único sacerdócio de Cristo, do qual todos os batizados participam.
Uma experiência radical do ministério leigo
Não se poderá discutir o futuro do ministério na Igreja Católica, sem ter em conta o fenômeno do chamado “ministério eclesial leigo”. Os ministros eclesiais leigos fazem hoje parte da paisagem paroquial católica em muitos países e começa a verificar-se que a Igreja já não pode funcionar sem eles. Eles assumiram cada vez mais papéis próprios do clero e realizam funções que eram antes responsabilidade exclusiva dos ordenados.
Serão eles meros substitutos em tempo de escassez de clero ordenado ou estarão a exercer uma verdadeira vocação ministerial? E se fossem, em vez disso, precursores inconscientes de uma reestruturação radical? Para alguns eles são arautos de um novo conceito do ministério sacerdotal.
O que acontece hoje em grande parte da Igreja, com a penúria de ministérios ordenados, faz-nos pensar inevitavelmente nas primitivas comunidades cristãs e, mais recentemente, na experiência radical das comunidades eclesiais de base, tão vigorosas no Brasil logo a seguir ao Vaticano II. A princípio, a liderança leiga destas comunidades era apenas uma necessidade pastoral prática, provocada pela falta de acesso dos mais afastados e mais pobres ao ministério ordenado. Criou-a a falta de sacerdotes. Foi daí, dessa experiência, que emergiu a visão de uma Igreja estruturada permanentemente em torno das comunidades cristãs de base, assentes na apostolicidade leiga. Para muitos, o futuro da Igreja está em comunidades como essas. Mas haverá sempre nelas alguém apto para presidir a eucaristia, porque uma comunidade que não se une na eucaristia, não é verdadeiramente uma comunidade cristã.
Luís Guerreiro
luisirenecacais@solar.com.br