O Papa Francisco pode até abraçar a simplicidade, mas ele está longe de ser um homem simples. O pontífice jesuíta é também um político extraordinariamente astuto, e a reforma financeira anunciada pelo Vaticano na última segunda-feira (24-02-2014) prova isso.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal Boston Globe, 25-02-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Com efeito, Francisco conseguiu fazer algo extremamente difícil e raro. Ele criou um novo ministério de finanças para supervisionar todos os departamentos vaticanos, sobretudo aqueles que lidam com dinheiro.
O órgão preparará um orçamento anual e supervisionará demonstrativos financeiros detalhados, dando conta de uma queixa antiga feita pelos cardeais ao redor do mundo, a saber: de que nunca conseguiam obter uma resposta do Vaticano sobre quanto de dinheiro há ou o que aconteceu com ele.
O ministério, chamado Secretaria da Economia, reportar-se-á diretamente ao papa e implementará políticas definidas por um novo conselho composto de oito membros e sete leigos com experiência em assuntos financeiros. Como seu primeiro“ministro das finanças”, Francisco nomeou o cardeal australiano de 72 anos George Pell, de Sydney, que já era membro do Conselho dos Cardeais assessores do papa.
É a reforma mais significativa da Cúria Romana nos últimos 25 anos. Chamar o novo departamento de “secretaria” é sublinhar sua importância, já que há apenas um outro no Vaticano com este nome, a Secretaria de Estado, que por tradição é o mais poderoso entre os poderosos aí existentes.
Apresento aqui o que faz este movimento uma jogada tripla.
Em primeiro lugar, Francisco resolveu um problema crônico de gerenciamento financeiro no Vaticano, que é o de que, até então, ele vinha sendo confiado quase inteiramente ao clero sem nenhuma formação real em administração de negócios ou finanças.
O novo conselho incluindo sete leigos assume o papel de um órgão criado sob o Papa João Paulo II composto de 15 cardeais.
Ao mesmo tempo, porém, o papa mostra que, no mundo consciente do Vaticano, as pessoas não irão pensar que ele estará sendo sério sobre alguma coisa, a menos que ele coloque um sacerdote peso-pesado responsável por ela. Ele certamente conseguiu isso com George Pell, um ex-jogador de australiano que aparentemente era ia se tornar jogador profissional antes de entrar para o sacerdócio.
George Pell ainda mantém boa parte da mentalidade resistente de jogador. Para aqueles que o conhecem, ele é como se fosse um zagueiro usando batina: um alguém resistente, não suscetível de ser intimidado pelos mandatários vaticanos que se ressentem com intrusão em suas prerrogativas.
Em segundo lugar, Francisco igualmente abordou um outro problema crônico nas finanças vaticanas ao nomear um não italiano.
O Vaticano historicamente tem sido condicionado por um ethos italiano no qual muitas formas de corrupção não são sequer percebidas como tal. Vazar informações em processo de licitação para beneficiar amigos, e outras práticas similares, é frequentemente visto como parte do “manter as coisas em família”.
Tal mentalidade está por trás do caso que estourou durante o tempo em que o ex-contador do Vaticano, monsenhor Nunzio Scarano, foi preso por participar em um esquema para contrabandear milhões em dinheiro vivo da Itália para a Suíça, em um jato particular e com a ajuda de um ex-agente da polícia federal italiana.
Ao fazer de um australiano imbuído com noções anglo-saxônicas de transparência e responsabilidade o seu ponta de lança, Francisco comunicou ao mundo que um novo dia está raiando.
Em terceiro lugar, o papa também demonstrou um toque pessoal habilidoso ao colocar Pell no único lugar onde os dois homens se relacionam diretamente.
Em questões doutrinárias, Pell tem a reputação de um conservador convicto, garantindo-lhe um lugar um pouco à direita do pontífice. Há alguns anos espalharam-se rumores de que Pell assumiria a importante Congregação para os Bispos, órgão responsável por nomear novos bispos ao redor do mundo. O papa recentemente removeu um prelado americano com um perfil parecido, o cardeal Raymond Burke, como membro desta congregação.
No entanto, quando se trata de gestão financeira, tanto o papa quanto o cardeal pensam de forma parecida. De fato, Pell estava entre os líderes de uma insurreição de guerrilha contra a velha guarda vaticana no conclave um ano atrás que levou Francisco ao papado.
De uma só vez, Francisco deu para si uma chance de nomear um novo líder para a Igreja na Austrália e alocou um aliado extremamente capaz para trabalhar num lugar onde o próprio se encontra plenamente capacitado para levar as coisas a cabo.
Para todos aqueles que querem saber se as mudanças sob o papado de Francisco são apenas no tom e no estilo, a segunda-feira mostrou – em outras palavras – haver muito mais do que se podia imaginar.
John L. Allen Jr
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/528699-reforma-financeira-mostra-lado-astuto-do-papa-francisco


