Segunda, 24 de fevereiro de 2014
A reportagem é do sítio Cath.ch, 18-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
As três conferências episcopais, alemã, austríaca e suíça, ao invés, publicaram as sínteses obtidas a partir das consultas feitas junto à população. O questionário elaborado pelo Vaticano em vista do Sínodo sobre a família, que se realizará em Roma entre os dias 5 e 19 de outubro próximos, sobre o tema dos “desafios pastorais da família no contexto da nova evangelização”, reservou muitas surpresas, tanto na Alemanha, quanto na Suíça e na Áustria.
Por exemplo, os bispos alemães constatam que o ensinamento da Igreja sobre a sexualidade não desempenha praticamente nenhum papel na vida cotidiana de muitos católicos. Os documentos dessas conferências episcopais revelam, em muitos pontos, o fosso entre o pensamento dos fiéis e o que é proposto pelo magistério.
O resumo da consulta da Conferência Episcopal Suíça mostra que 90% dos católicos suíços gostariam que a Igreja reconhecesse e abençoasse os casais de divorciados em segunda união. Os bispos suíços se alegram com a abertura de mentalidade com relação à fé constatada nas 25 mil pessoas que responderam. Eles observam, porém, que essa abertura não é necessariamente acompanhada de uma adesão incondicional à doutrina da Igreja sobre família, matrimônio e sexualidade.
Na Alemanha, as constatações são mais ou menos as mesmas. Casamentos, divórcio, contracepção, homossexualidade: as respostas recebidas trazem à tona as divergências entre os católicos e as posições oficiais. Para que o documento tivesse uma ampla difusão, a Conferência Episcopal Alemã chegou até a traduzir a sua síntese em inglês e em italiano. Nesse contexto, os católicos canadenses esperavam ansiosamente a revelação dos resultados da consulta nacional. Em vão.
Também no Canadá, a moral sexual católica é um problema
Em um comunicado divulgado no início de fevereiro, a CECC declarava que a sua síntese tinha sido enviada a Roma e não seria publicada. Usando um tom geralmente positivo, o comunicado da Conferência Episcopal levava a entender, no entanto, que nem todos os católicos seguem ao pé da letra o ensinamento do magistério sobre os problemas da família e da moral sexual.
Além disso, observam os bispos católicos canadenses, o processo revelou que um certo número de católicos “não são muito conscientes do conteúdo positivo e da riqueza do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família, o que poderia criar uma lacuna preocupante entre a doutrina da Igreja e o pensamento de inúmeros católicos”.
Convidada a explicar a sua decisão de não publicar o documento, a CECC fez saber, através de uma nota do seu secretário-geral, que não se tratava “nem de uma investigação, nem de uma pesquisa”, e que os bispos canadenses se limitaram a seguir diretrizes. O papa pediu uma consulta ampla e rápida sobre os temas propostos: “Foi o que a CECC fez. Ele pediu confidencialidade sobre as respostas: e também foi o que a CECC fez”, defende Dom Patrick Powers, secretário-geral da CECC.
A esse respeito, a Conferência Episcopal da Inglaterra e do País de Gales, assim como a da Irlanda, deu uma resposta semelhante nesses dias. “Em conformidade aos desejos da Santa Sé, a síntese das respostas enviada ao Sínodo dos Bispos é confidencial”, disse um porta-voz ao jornal Catholic Herald. Os católicos ingleses, no entanto, receberam um resumo estatística da participação na consulta, no qual se constata que 16.500 pessoas responderam ao questionário.
Decepção no Quebec
No entanto, no Canadá e mais particularmente no Quebec, não se hesita em manifestar uma profunda desilusão diante da escolha da CECC. “Isso me decepciona muito”, afirma André Gadbois, coordenador da equipe nacional para a Rede de Fóruns André Naud [inspirada pelo teólogo e filósofo André Naud, de Montreal, que morreu em junho de 2002, a rede visa a promover a liberdade de pensamento e de expressão na Igreja].
Responsável pelo Fórum de Montreal, ele destaca que, na rede, “havia uma expectativa. Esperávamos um movimento de ‘ida e volta’, e dizíamos que nos seria devolvida uma síntese da consulta. Ao invés, caímos das nuvens…”.
Diversos membros do Fórum André Naud participaram da consulta, diz André Gadbois. E ele se diz desapontado pelo modo como algumas dioceses fizeram essa tarefa. No entanto, ele disse satisfeito com a forma pela qual o trabalho foi realizado, em particular em Trois-Rivières, onde a consulta foi ampla.
Ele não exclui a possibilidade de que o Fórum André Naud de Montreal peça à Assembleia dos Bispos Católicos do Quebec (AECQ) publique um resumo provincial das respostas. A diocese do Quebec realizou cada uma das suas consultas com base nos seus próprios recursos e modalidades, a partir do questionário enviado por Roma, mas usando diversas estratégias.
Entre as 19 dioceses do Quebec, foi em Trois-Rivières que mais esforços foram feitos, observa a emissora cristã Radio Ville-Marie. Foram organizados dez encontros abertos com a população; também foi solicitada a opinião de diversas pessoas nos Centros de Acolhida e Cuidados de Longa Duração (CHSLD) e de vários lares para idosos.
O espírito de transparência desejado pelo papa
A imprensa local também contribuiu. Ela acolheu positivamente esse esforço de consulta. A diocese considera que várias centenas de pessoas contribuíram com a realização da atividade. Jasmine Johnson, diretora de comunicação da diocese de Trois-Rivières, se disse “muito estupefata” com a decisão da CECC de não publicar nada. A diocese avaliará, de sua parte, a sua possibilidade de publicar a sua própria síntese, uma escolha motivada por “uma preocupação de transparência”, segundo Johnson.
O professor Guy Jobin, especialista em relações públicas dos bispos, observa que, no atual contexto eclesial caracterizado pela “franqueza”, a decisão da CECC de não publicar a síntese da consulta pode realmente criar desconforto. “É algo que destoa diante do espírito que anima a proposta do questionário”, disse o professor, que leciona na Faculdade de Teologia e de Ciências Religiosas da Universidade Laval.
“Há um clima de transparência em escala planetária: convida-se a consultar o povo de Deus, não só a hierarquia. Isso cria uma expectativa, a de um retorno. É normal, não um privilégio”, observa Guy Jobin.
Ao contrário, esse “dever” é recusado, adiado até a publicação do “instrumento de trabalho”. O instrumento de trabalho será o próximo documento [preparado em Roma em vista do Sínodo] a ser publicado pela CECC. Ele será concebido levando em conta as respostas à consulta recebidas por todas as Conferências Episcopais do mundo.
PARA LER MAIS:
- 24/02/2014 – Nota dos bispos franceses sobre as respostas ao questionário do Sínodo
- 24/02/2014 – Bispos japoneses publicam respostas ao questionário para o Sínodo
- 24/02/2014 – Movimento Familiar Cristão responde ao questionário do Sínodo Extraordinário para a Família
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- 19/02/2014 – Padres irlandeses criticam bispos a propósito do questionário vaticano
- 14/02/2014 – O ”vazamento” de respostas ao questionário vaticano
- 12/02/2014 – ”Chega de Paulo VI”: a resposta da Igreja alemã ao questionário sobre a família
- 11/02/2014 – Espanha. Por que o questionário do Papa não chega aos católicos?
- 10/02/2014 – Divorciados em segunda união e a doutrina sobre a moral sexual, chaves nas respostas ao questionário
- 24/01/2014 – As primeiras afetadas. Resposta da Associação de Mulheres Católicas Feministas Cristãs ao questionário do Sínodo sobre a Família
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- 14/01/2014 – 4000 “católicos pela reforma da Igreja” responderam ao questionário
- 16/12/2013 – As respostas dos fiéis alemães ao questionário do Sínodo
- 07/12/2013 – O questionário por uma Igreja viva. Artigo de Giannino Piana
- 26/11/2013 – Sínodo dos Bispos sobre a família. Jovens alemães respondem ao questionário
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