Completa-se um ano do histórico anúncio da renúncia de Bento XVI. Na ocasião, o “varredor de Deus” apontava, em perfeito latim – tanto, que poucos dos presentes na audiência observaram -, a decisão que marcaria um antes e um depois na vida da Igreja, e que tornou possível a chegada ao sólio pontifício do furacão Francisco.
O que significou este gesto? O que supôs para a Igreja e a sociedade? Teólogos vaticanistas e especialistas rememoram o que sentiram nesse momento, sem comparação. Dolores Aleixandre, Xabier Pikaza, José María Castillo, Pedro Miguel Lamet, Jesús Espeja, Paloma Gómez Borrero e José Ignacio González Faus nos apresentam seu particular balanço da marcha mais famosa na história recente da Humanidade.
As perguntas foram as seguintes:
1. O que você sentiu e pensou quando, há um ano, Bento XVI tornou pública sua renúncia?
2. Como qualificaria essa decisão do papa Ratzinger?
3. O que implicou, em sua avaliação, para a Igreja e para o mundo?
A reunião de todas as avalições é feita por Jesús Bastante e é publicada por Religión Digital, 10-02-2014. A tradução é do Cepat.
Eis as avaliações.
“Na Igreja o essencial é apenas o Evangelho”, avalia a teóloga e escritora Dolores Aleixandre
Senti surpresa e alívio. Tive a sensação de que aquilo que parecia imutável, mudava, que o
atado se desatava, o impensável acontecia, e o petrificado se derretia. Estava se abrindo uma fenda pela qual, felizmente, apresentava-se tudo isso que pertence e acompanha a nossa condição humana: a normalidade da aposentadoria, a aceitação da caducidade da vida e dos limites do envelhecimento…
Os papas, que pareciam isentos de tudo isso, nesse momento, baixavam a um grau que os fazia pisar, ao menos nesse ponto, na terra da normalidade. E o mais importante: reconhecia-se, implicitamente, que na Igreja o essencial é apenas o Evangelho e todo o restante é suscetível à revisão, questionável, reversível e adaptável.
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“O regime da Igreja não é o de monarquia absoluta”, considera o teólogo dominicano Jesús Espeja
1. Senti que seu gesto significava uma novidade na história da Igreja e no exercício do ministério peculiar do bispo de Roma, Sucessor de Pedro. A renúncia foi inovadora, pois o costume tradicional era o da permanência no cargo até a morte. Ao mesmo tempo, com sua renúncia voluntária, Bento XVI manifestou que o exercício do ministério papal poderia ter um tempo limitado, assim como o ministério dos demais bispos.
Pensei também no significado plurivalente do gesto. Primeiro, renunciando livremente, Bento XVI atuou com a sensibilidade moderna que enaltece com entusiasmo o valor da liberdade, e com sensibilidade evangélica, pois todos nós fomos colocados nas mãos de nossa própria decisão. Segundo, essa renúncia me sugeriu que o bispo de Roma deve se aposentar na mesma idade que os demais bispos. Terceiro, que o regime da Igreja não é o de monarquia absoluta, e que é preciso dar ênfase tanto à colegialidade dos bispos, como à consistência das igrejas locais, que são a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo.
2. Qualifico essa decisão como profética. Porta-voz do que Deus quer, com a necessidade de corresponsabilidade em todos os batizados na Igreja e a necessidade de revisar as formas que ainda hoje revestem o exercício do ministério papal. O Vaticano II enfatizou a imagem da Igreja como povo de Deus, em que todos os batizados, cada um a partir de seu lugar e com o seu próprio carisma, devem ser o sujeito responsável e ativo na vida e missão da Igreja. O exercício do primado ostentado pelo bispo de Roma deve ser articulado com a Igreja mistério de comunhão.
Por outro lado, desde a Idade Média o exercício deste ministério vem revestido com
aparências de poder. Paulo VI reconheceu que o exercício do ministério papal é o maior obstáculo no caminho à unidade da Igreja. E João Paulo II pediu a colaboração de bispos e teólogos para buscar as formas que deve revestir este ministério para prestar um serviço de fé e de amor reconhecido por uns e por outros. A renúncia de Bento XVI abriu as portas para esta necessária revisão.
3. Em minha avaliação, para o mundo a renúncia de Bento XVI significou uma mudança de imagem em relação à figura do papa, que caminha como os demais mortais e é vulnerável às inclemências do tempo. Sempre a partir da minha perspectiva, nessa renúncia vislumbrei um sinal de que para a Igreja se iniciava uma terceira etapa pós-conciliar. Houve uma primeira etapa de alegria e entusiasmo, com uma boa dose de otimismo ingênuo. Em uma segunda etapa, declarada explicitamente em 1980, a administração central da Igreja reagiu freando, para evitar desvios na teoria e na prática. Este foi um período de divisões e conflitos no interior da própria Igreja. A renúncia de Bento XVI abre espaço para se iniciar uma nova etapa, em que, admitindo-se a pluralidade, podemos processar com ânimo sereno orientações fundamentais do Vaticano II que fomentarão a comunhão entre todos os cristãos e que garantirão a presença pública da Igreja evangelizadora no mundo.
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“Estava cada vez mais frágil, mais angustiado”, pondera a jornalista e vaticanista Paloma Gómez Borrero
1. Devo reconhecer que não me pegou com excessiva surpresa, após estourar os Vatileaks e eu ler a resposta do papa ao jornalista Seewald, no livro “Luz do mundo”, pensava que o papa não descartava a possibilidade de renunciar. No livro, ele afirmava claramente que “não apenas pode, como deve”, em resposta a essa pergunta… Foi uma decisão muito meditada, diferente da que João Paulo II manteve…
Na medida em que se descobriam os escândalos na cúria, sobre os quais pudemos ler cartas inquietantes no livro Santidade, a conduta do mordomo Paolo, fotocopiando documentos, papéis, escritos pessoais da casa do Papa… nós víamos como tudo isso influenciava e era refletido no físico de Bento XVI.
O papa estava cada dia mais frágil, mais angustiado. Não tinha forças para carregar o peso do papado e, além disso, acredito que o resultado do relatório secreto, que pediu para ser elaborado por três cardeais encarregados pela investigação, foi determinante…
Meditou, refletiu e rezou muito, antes de renunciar, mas não duvidou um instante… Somente esperou para anunciar a decisão na Quaresma, para que na Páscoa já tivesse sido escolhido seu sucessor.
Quando escutei suas palavras em latim, não compreendi, até que a colega da Ansa, que
estava na sala de imprensa do Vaticano, acompanhando o consistório pelo qual se informava a respeito dos decretos de novos santos italianos, meio chorando me deu a notícia.
Fiquei paralisada, como o mundo inteiro, angustiada, mas, sinceramente, não me surpreendeu; apenas fiquei desconcertada no momento e pela maneira como foi comunicada…
2. A decisão foi coerente, revolucionária, de uma humildade e um valor extraordinário. Um gesto profético que muda a história da Igreja. Quando o helicóptero sobrevoava a cúpula de São Pedro, levando o Pontífice vivo, rumo a Castel Gandolfo, quando se fechou o portão da vila pontifícia e a Guarda Suíça deixou o lugar porque Bento já não era o papa…, reconheço que fiquei com um nó na garganta e pensei que um ser extraordinário, grandíssimo, capaz de um gesto sem precedentes, deixou-nos. Sem dúvida, Bento sentia o peso de sua decisão, mas devia tomá-la e não duvidou um instante.
3. Penso que agora, com a eleição de papa Francisco, as reformas tão necessárias e urgentes serão realizadas com relativa rapidez, segundo os habituais ritmos do Vaticano. O papa Francisco leu o relatório secreto dos Vatileaks e nomeou esse C8 de cardeais para que colaborem em uma tarefa difícil, mas não impossível.
Ajuda-lhe a simpatia que desperta, sua proximidade, seus gestos, seu jeito latino e, como se costuma dizer, melhor cair na graça… e o papa Francisco, a cada dia, desperta mais entusiasmo e aplausos. Na Igreja, há continuidade com Francisco, mas há uma simplicidade de linguagem, uma forma plana de exercer o ministério, que atrai enormemente. Converteu-se na pessoa amada, inclusive por aqueles que nunca elogiaram a Igreja.
O papa Francisco sabe e aproveitará o seu momento para transmitir a mensagem de Cristo. Para uma sociedade em crise de valor, mas também de esperança e de sonho, ele insiste na ternura, no amor, no perdão e na misericórdia, quatro pilares para sustentar um mundo em que, no mais recôndito de sua alma, sente que tem fome de Deus. É claro, haverá mudanças, mas não na doutrina e nos princípios imutáveis que a Igreja defende e prega, porque foram recebidos de Cristo.
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“O momento mais sublime, mais evangélico e mais exemplar da vida de Bento XVI”, exclama o escritor jesuíta Pedro Miguel Lamet
1. Após a surpresa, senti que assistíamos a um fato único na História da Igreja e que por trás disso estava ocorrendo um autêntico terremoto no Vaticano. Também, dado o contexto de notícias negativas e escândalos, como os vatileaks, a corrupção, a pedofilia e, sobretudo, a enorme divisão interna da comunidade, que não se tratava de uma decisão às pressas, mas, inclusive, de uma necessidade, a gota de água que enche o vaso e, por tudo isso, o fim de uma época de involução no que diz respeito ao Vaticano II.
2. Como o momento mais sublime, mais evangélico e mais exemplar da vida e do pontificado de Bento XVI. Contudo, emocionou-me especialmente a forma como o fez: sua simplicidade, sua discrição, as palavras medidas, a sobriedade de seus gestos e a coerência de sua decisão, com um silêncio admirável ao qual, desde então, adotou.
Acredito que Ratzinger salvou a Igreja, negando-se a si mesmo, entregando-se a ela “usque ad mortem”. Sem dúvida, como disse, estava agoniado, não podia mais resistir à pressão.
Esta decisão elevou a categoria de um papa continuísta, embora mais equilibrado e justo em suas decisões pastorais que o anterior, a uma figura chave e decisiva da história contemporânea da Igreja.
3. Por cinco motivos
- Primeiro, uma interrupção de um período de divisões, corrupção e decadência.
- Segundo, um exemplo para o mundo, no qual ninguém, nem governantes, nem políticos, nem empresários, abandona sua poltrona ou seu posto de mando.
- Terceiro, a abertura ao novo, o inesperado e ao possível vento do Espírito, com consequências que nem ele mesmo poderia prognosticar.
- Quarto, demonstrar que a denúncia é factível quando nela se empenha a própria vida.
- E quinto: que na Igreja de Deus, apesar de suas limitações e pecados, o legado evangélico de Jesus continua vivo e que sua força nasce do pequeno, do grão de trigo que morre, ou da mostarda que chega a ser grande árvore.
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“A última arma que restava a um Papa honrado, diante de uma cúria menos evangélica”, constata o teólogo jesuíta José Ignacio González Faus
1. Alegrei-me. Não apenas porque algumas coisas de seu pontificado não me agradaram, mas porque intui que não era um gesto de cansaço ou de fraqueza, mas a última arma que restava a um papa honrado, diante de uma cúria menos evangélica.
2. O mais revolucionário de seu pontificado. E uma prova desesperada de honestidade.
3. Não apenas a renúncia, mas a documentação, aquela secreta que vieram dos cardeais, parece-me que foi determinante para o conclave. Não sei como terminará toda essa promessa. Porém, o que me parece muito chamativo é que um papa que não está fazendo mais do que o normal, aquilo que qualquer sucessor de Pedro deveria fazer, acarrete tanta admiração e resulte tão extraordinário. Isso me parece um sinal de como estava mal nossa santa madre Igreja.
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“A renúncia de Ratzinger foi o ponto final de uma Igreja sem governo”, afirma o teólogo José María Castillo
1. Pensei no Papado. E pensei na Cúria. Sobre o papa Ratzinger, a primeira coisa que pensei é que teve que passar muito mal para se enxergar na condição de ter que aceitar que o melhor (para ele e para a Igreja) era se retirar do meio. Uma pessoa que em um cargo de tamanha importância, vê-se obrigada a ter que aceitar que o melhor é sair, sem dúvida alguma é uma pessoa sobrecarregada por um peso insuportável.
É de se elogiar, e elogiar muito, o ato de humildade e desapego que Bento XVI deu ao mundo. Porque não são comuns os supremos governantes que aceitam renunciar um cargo de tamanha importância.
Do Papado, o que pensei é que – como já disse – trata-se de um cargo que, da forma como está organizado e funciona, é uma responsabilidade desumana para a pessoa que o exerce. E, além disso, é um cargo prejudicial para a Igreja. Uma instituição de 1,2 bilhões de crentes, que pretende concentrar o poder em um só homem, não consegue semelhante despropósito. E, o que é pior, pode se ver em uma situação de abandono do poder, ou seja, pode se ver como uma enorme instituição sem governante, nem governo.
Sobre a Cúria, o que me ocorreu é que, em muitas coisas importantes, manda mais que o Papa. O que expõe a Igreja inteira ao perigo constante de se ver em situações sem saída ou com uma saída que não é precisamente exemplar.
2. Eu acredito que foi uma decisão certamente inevitável e, em todo caso, exemplar. Este fato abre brecha para se suspeitar que o mais provável seja que Ratzinger chegou à convicção de que ele não podia com o peso que representa o Papado, neste momento. Por isso, disse que a renúncia do Papa foi uma decisão inevitável. Foi, além disso, exemplar.
Porém, teria sido inteiramente exemplar, caso Joseph Ratzinger não tivesse ficado vivendo no Vaticano. A não ser que exista uma norma secreta que assim determine. Algo do qual duvido e que o próprio Papa também poderia cancelar. Quem abandona um cargo é inteiramente exemplar se, na medida do razoável e o possível, explica as razões que motivaram a renúncia. E, dada a explicação mais completa possível, retira-se do meio e renuncia qualquer forma de protagonismo.
3. Como todo mundo pode ver, a renúncia de Ratzinger foi o ponto final de uma Igreja sem governo. Insisto na exemplaridade do papa Ratzinger, naquilo que estava ao seu alcance. Foi um homem exemplar. No entanto, com uma exemplaridade que teria sido um modelo a ser imitado séculos atrás. Nesse momento, a situação a superava.
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“Ainda não temos tempo suficiente para avaliá-la”, pondera Xabier Pikaza
1. Telefonou-me Matilde de Palma: “Veja as notícias…”. Olhei no PC e ali estava, em todos os meios de comunicação, que não sabiam dizer outra coisa. O que senti? Compartilhei a notícia com Mabel e com algum amigo, e senti uma grande tristeza, um alívio, uma pena.
– Tristeza porque logo descobri, com toda clareza, que Ratzinger havia fracassado como papa, não foi capaz de “endereçar” a Igreja com sua proposta de retorno às fontes… A Igreja seguia o seu leito, sem levar em consideração o que o Papa dizia, por mais que seus discursos fossem precisos e bem organizados, seus gestos muito mensurados, seus livros profundos… O problema do grande clero o superava, não soube colocar em ordem sua casa. Os nanicos se rebelaram, pensei. Não foi capaz, acrescentei. E fiquei triste, porque no fundo estimava e estimo Ratzinger.
– Senti alívio, porque soube que uma etapa de direção eclesial unificada com grande teologia e direito, vinda de cima, com um papa alemão havia terminado. Não pôde ser como seu predecessor alsaciano Leão IX (Bruno de Egisheim-Dagsburg, 1409-1054), papa forte, soldado-reformador, iniciador da Reforma Gregoriana… Não pôde ser, renunciava.
E senti que a Igreja poderia voltar à sua origem, para ser ela própria, após o fracasso final dessa reforma gregoriana, iniciada por um papa alemão. Senti que poderia se recuperar, talvez, uma parte das forças perdidas em empreendimentos loucos (deslocados), como no referente à teologia da libertação, à secularização (canônica ou de fato) de grande parte do clero… poderia, talvez, iniciar-se de outra forma, terminando o ciclo da reforma gregoriana, iniciada justamente por um imperador (Henrique III) e um papa alemão.
– Contudo, ao mesmo tempo, descobri que me surgia uma grande pena dele, Ratzinger, causador direto/indireto de algumas de minhas tribulações teológicas, pois não soube ou não pôde fazer… o que no fundo talvez desejasse (como havia proposto em seus trabalhos teológicos dos anos 1960, de jovem professor). Tive pena dele, pessoalmente (estava lendo seus trabalhos iniciais sobre a Igreja como fraternidade), e por uma instituição secular (de séculos e de século/mundo) como é o Vaticano.
Pena e raiva, pois me parecia que foi ele próprio (Ratzinger) quem modelou a cinta que se impôs mais tarde como defensor de uma “ortodoxia” mais artificial do que evangélica (como diretor da Congregação para a Doutrina da Fé, nos anos 1980 e 1990). Uma cinta que depois foi estendida à Igreja inteira como Papa…
Tive pena, pois deveria ter sido ele próprio quem deveria ter soltado a amarra, atrevendo-se a nadar em liberdade (como se diz de Pedro, que se despiu e se jogou no lago da Galileia, para o chamado de Jesus). Poderia ter sido ele próprio, o profundo Ratzinger primeiro, aquele a deixar que a Igreja voltasse ao lago da Galileia, aos primeiros amores…
2. Precisei de algum tempo para me situar. Havia terminado de redigir uma avaliação acadêmica sobre seu terceiro livro sobre Jesus (Evangelho da Infância), que apareceu em várias línguas (na revista Concilium), na qual apresentava minha visão de conjunto do Jesus do Papa.
– Com a leitura fresca sobre o seu Jesus, pensei que ele (Ratzinger) não havia chegado a descobrir a novidade radical da Encarnação do Logos de Deus, mas que havia deixado que um tipo de Logos sobrevoasse a realidade concreta da vida e da Igreja.
Soube que sua última bagagem teológica/pastoral (e sua forma de entender o cristianismo como fortaleza assediada) havia lhe impedido de deixar em liberdade o evangelho, sobre o mar do mundo. Por isso, pensei que no fundo era bom que renunciasse, embora tivesse as minhas dúvidas.
Veio-me à mente a imagem da renúncia do papa Celestino (1294), a quem Dante acusa de ter feito “il gran rifiuto”: Não foi capaz de realizar como Papa aquilo que talvez havia vislumbrado. Sua renúncia foi pessoal (não se sentia com forças!), mas também institucional (estava dizendo que algo deveria mudar no rumo da nave da Igreja).
– No entanto, eu não estava seguro: talvez a renúncia de Ratzinger (Bento) não foi um “rifiuto” (uma pura rejeição, uma negação), mas também um reconhecimento de sua fraqueza, de sua incapacidade para enfrentar os problemas reais da Igreja, começando com aqueles mais vinculados aos temas sociais e de organização mundial das comunidades e terminando com aqueles mais relacionados com outras teologias possíveis e aos corvos reais do Vaticano.
Renunciou porque se sentiu frágil, para que outros assumissem a responsabilidade e dessem outros passos, e isso é o que aconteceu. Assim escrevi em algumas contribuições de meu blog, por aqueles dias, fazendo um balanço de sua contribuição teológica, curial (como Prefeito da Congregação da Fé) e papa.
Renunciou porque no fundo de sua grande “fortaleza” externa, parecia-me um homem frágil, um pensador que não se atreveu a colocar em marcha os poderes que ele tinha, para voltar ao Evangelho.
– Foi uma decisão corajosa (eu não posso!) e, ao mesmo tempo, temerosa (covarde?): Não quis enfrentar os problemas, e assim se retirou, para que outros os ajeitassem, deixando para o seu sucessor uma pasta com os assuntos não resolvidos, que talvez ele próprio teria que ter resolvido…
E, assim, se foi, com toda a gala do mundo, dispondo os passos e momentos de sua despedida, até o autogiro que o levou para o meio de uma grande cobertura midiática, das pedras do Vaticano à ribeira do lago de Albano. Tive uma sensação de grande perplexidade, e ainda a conservo. Passei por alguns escritórios da Roma vaticana (por volta dos anos 1980), entre a Congregação de Universidades e a da Doutrina da Fé, que era a de Ratzinger.
Soube que as coisas naqueles lares iam “piano piano”, de um modo quase inflexível, como uma roda que vai sempre na mesma direção… Faltava romper a roda, para voltar à liberdade da barca da fé. Não sabia se a decisão atual de Ratzinger poderia contribuir para isso.
3. Para o mundo implicou em mais uma notícia, uma notícia longa, que durou até seu retiro junto ao lago e até a eleição de Francisco. O universo midiático está ávido de notícias e ainda continua, de algum modo, com esta da renúncia de Ratzinger, pois Francisco supõe renovação. Mas, esse é outro assunto.
– Ainda é cedo para avaliar. Um ano é pouco tempo dentro dos ciclos seculares da Igreja. Por isso, voltando ao que implicou a renúncia de Ratzinger, devo afirmar que ainda não temos uma distância suficiente para avaliá-la.
Os grandes gestos necessitam de um tempo, isso que na linguagem da Igreja se chama “receptio”. Na forma como são recebidos, como são reelaborados.
Eu, ao menos, não sei os problemas reais que havia no Vaticano, os possíveis enfrentamentos de grupos… Tampouco conheço, de verdade, as visões e os temas de fundo de uma instituição como é o Vaticano, que precisa estar a serviço do evangelho (e estou convencido que Ratzinger queria servir ao evangelho!), mas que, de fato, está cativo de suas próprias ataduras de poder. Porque o poder oferece liberdade para fazer, mas prende muito mais. E o papa Ratzinger se sentiu sem dúvida amarrado, e por isso renunciou.
– Não nos encontramos ainda em plena “receptio”, de tal forma que ainda não se decidiu o sentido daquela renúncia, porque a história não é o que meramente foi no passado, mas o que ela impulsiona e possibilita no futuro. (a) E nesse fazer-se da história, alguns querem que aquilo (a renúncia) termine em nada.
Há muitos que querem que tudo continue como estava, dizendo que aquilo foi apenas um momento passageiro na permanência do sistema: “Que tudo mude, para que tudo continue igual”. Estes são os que querem apagar o fogo daquela renúncia, apagar o sentido daquele grande salto… (b) Outros, ao contrário, querem que aquela renúncia implique numa forte mudança… e, por isso, apelam a Francisco, um Francisco a quem querem apresentar como renovador de tudo, um anti-Ratzinger…
– A bola está no telhado da máquina curial do Vaticano (que poderia mudar com um duro golpe de timão…), e no telhado de nossa própria consciência e decisão de cristãos de base, que gostaríamos de mudar um pouco (ou um muito) as regras do jogo que o evangelho implica dentro da Igreja.Essa questão do assunto da bola que cai e que rola, leva-nos à grande profecia de Daniel 2, onde se diz que a pedra redonda que desce do monte e que rola é capaz de derrubar a grande estátua do poder social ou religioso.
Talvez a renúncia do papa Ratzinger tenha colocado em marcha essa bola/pedra (sinal do papado), que atingirá a estátua imensa e permitirá que todos possam dialogar lado a lado, coração a coração, sobre o lago e a colina de Jesus. Por isso, ao invés de dizer “o que avaliei”, temos que perguntar “o que se deve avaliar, o que implicará…”. Esta bola/pedra do evangelho está em nosso telhado, no telhado da grande Igreja. De nós depende que a fumaça da velha chaminé do Vaticano seja branca ou preta.
Fonte: http://goo.gl/6YR2OP




