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Segunda, 10 de fevereiro de 2014
A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 07-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Depois, os calibres mais grossos. O advogado Jeffrey Lena, que nos Estados Unidos venceu a causa para demonstrar que os papas não podem ser citados em tribunais como diretos superiores dos padres estupradores, atira à queima-roupa: “A comissão não tinha nenhum direito de se pronunciar sobre a questão dos abusos sexuais por parte de membros do clero católico”.
O representante da Santa Sé junto às organizações da ONU em Genebra, Dom Tomasi, declara que “os padres não são empregados ou funcionários vaticanos no mundo, mas sim cidadãos do seu país”. E continua: “O que me surpreendeu a impressão de que ele já estava escrito, talvez com o acréscimo de alguns parágrafos depois do encontro do comitê com a nossa delegação”.
O secretário da Conferência Episcopal Italiana, Dom Galantino, denuncia a “indevida interferência sobre aspectos qualificadores e eticamente sensíveis do ensino da Igreja sobre aborto e família”.
Sem falar do Il Giornale, que, em busca de votos da direita católica pelo retorno eleitoral do berlusconismo, se exibe em títulos truculentos tipo “ONU em guerra com o Vaticano“, ou, ainda mais saboroso, “Eles encobrem horrores e tiranos. Poupem-nos a pregação”, em que “eles”, naturalmente, são os membros das Nações Unidas enlouquecidos para “fazer com que a Igreja apareça como monstros à espreita…”.
Na realidade, por trás do muro de borracha erigido para reagir ao golpe, o Vaticano está se interrogando seriamente sobre a melhor forma de enfrentar a questão. O novo secretário de Estado, cardeal Parolin, deu uma resposta prudente: “Haverá uma resposta articulada. O fato de que a Santa Sé aderiu, significa justamente a sua vontade de cumprir todas as indicações da Convenção (sobre os direitos da infância)”.
Além das passagens individuais do documento, a comissão de Genebra fez perguntas específicas para o Vaticano. Todos os padres abusadores foram removidos e entregues às autoridades civis? Pode-se dizer tranquilamente que não. Porque, se as autoridades eclesiásticas não fazem investigações em todas as dioceses, uma grande quantidade de crimes e de culpados ficam impunes. Os arquivos foram abertos? Não. A Santa Sé forneceu um quadro completo do que aconteceu nas últimas décadas? Não.
O ponto crucial é que o Vaticano deve mostrar que está agindo com determinação para fazer com que sejam aplicadas em todas as partes as leis severas que ele adotou formalmente. Se, na Austrália, em 2011, o bispo William Morris foi expulso do seu cargo por vontade do Papa Ratzinger, pois havia ousado falar de sacerdócio feminino, a opinião pública se pergunta por que nunca foram incriminados os bispos que encobriram, com plena consciência, padres estupradores em série.
O jornal Il Fatto Quotidiano lembrou a história do padre Ruggero Conti, condenado em segunda instância por ter estuprado sete meninos. A pergunta é: por que, desde 2008, não houve sequer o processo eclesiástico contra ele? O que a Santa Sé faz se um bispo como Dom Gino Reali, apenas a alguns quilômetros da Praça de São Pedro, não cumpre o seu dever de esclarecer os crimes cometidos por um sacerdote seu?
Há uma história que está destinada a sair pela culatra, mais cedo ou mais tarde, contra o Vaticano e sobre a qual os “indignados” de sempre não abrem a boca. O núncio Jozef Wesolowski está sob investigação na República Dominicana por ter abusado de menores. Nada de conspiração anticlerical. O papa sabe que ele é culpado e o destituiu e chamou novamente a Roma.
Pergunta: a história de um arcebispo que abusou dos menores mais indefesos, rapazes das favelas na periferia de Santo Domingo, termina aqui? Com uma imunidade diplomática no discreto refúgio de algum apartamento ou convento romano? Ele será levado ou não à justiça em Santo Domino ou na Polônia, sua terra natal, como é possível fazer também com os turistas sexuais que vão para a Tailândia?
Não há muitas alternativas: ou ele é processado pelos seus crimes, ou não é apresentado à justiça, protegendo-o. Exatamente o que pede a Comissão da ONU.
Em Boston, o cardeal O’Malley, que fez a limpeza na sua diocese, garante que o Papa Francisco está trabalhando na criação de uma comissão vaticana especial para “lançar luz sobre os abusos cometidos por sacerdotes, com o objetivo de evitá-los”. O Papa Francisco foi eleito papa por um conclave, no qual faltava um cardeal (o escocês O’Brien), expulso por Bento XVI por causa das suas relações com quatro seminaristas. Agora, a opinião pública não pode se calar.
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