Uma interessante reflexão de Serafim Sousa, Presidente cessante da Associação Fraternitas-Movimento, dos Padres casados de Portugal.
Como uma história um pouco diferente do MFPC do Brasil, já que foi fundada por um padre da ativa, o Pe. Filipe de Figueiredo, a Fraternitas tem praticamente os mesmos objetivos: acolher os padres que saíram ou vão saindo do ministério e, juntos, se apoiar na caminhada, se cultivar e se empenhar no Reino de Deus, cada um segundo seu carisma.
A pergunta do título vale também para nós do MFPC. O futuro está em procurar e despertar o interesse dos padres novos que continuam a sair:
“Precisamos de gente nova e de novos sócios, para podermos ter a certeza que o grupo não morre, quando desaparecerem os fundadores.” – do texto abaixo.
João Tavares
Serafim de Sousa*
Passou o Dia de Todos os Santos e seguiu-se a Comemoração de todos os Fiéis Defuntos. Ao pensar nestas datas, que se repetem todos os anos, dei por mim a reflectir no futuro que nos espera. Muitos dos associados também já estão na eternidade, gozando a felicidade dos Santos e contemplando a face de Deus, Pai de misericórdia e do Amor por excelência, A lista já é muito grande, a idade não perdoa, e mais tarde ou mais cedo lá teremos de partir.
Fonte: http://fraternitasmovimento.blogspot.com/
A Fraternitas foi concebida para unir as pessoas, que foram dispensadas do exercício das ordens sacras, que optaram por uma vida de família, através do casamento e que em determinado tempo andavam cada um para seu lado, num isolamento mais ou menos acentuado, dados os condicionalismos que nos foram impostos. Numa palavra mais agressiva fomos quase todos marginalizados e em muitos casos abandonados à desgraça de sermos uma espécie de “ralé” nesta sociedade, que nos ostracizou sem dó nem piedade. Houve gente que passou mal, nalguns casos até a fome bateu às suas portas e foi muito dura a adaptação à nova situação. Éramos um rebanho disperso, quase ainda como agora, cada um com os seus espinhos, e muito longe uns dos outros sem podermos ajudar-nos numa linha de solidariedade e caridade concreta. Neste aspecto temos de prestar homenagem ao Cónego Padre Filipe de Figueiredo, que se lembrou de nós e começou por nos convocar à medida que ia descobrindo o nosso paradeiro.
Com muitos encontros e retiros fomo-nos juntando por diversas vezes, sempre em Fátima, aos pés da Virgem Nossa Senhora e foi-se criando um grupo cada vez maior, que culminou na Associação Fraternitas–Movimento, mais tarde reconhecida pela Conferência Episcopal Portuguesa, caso único no mundo. O Espiral é o órgão oficial desta associação, com periodicidade trimestral, que vai anunciando a quem o lê os nossos anseios e a nossa vida inserida nas comunidades e na pastoral da Igreja. Vamos continuar, enquanto pudermos, nesta linha, dando os nossos testemunhos, vivendo em comunidade e partilha com todos que nos rodeiam e conhecem, vivendo a fé em Cristo. Somos um grupo de pessoas, que, quando nos encontramos, difundimos alegria e paz à nossa volta. Encontramo-nos pelo menos duas vezes ao ano e é sempre o mesmo espectáculo.
Há uma coisa, porém, que me/nos preocupa, estamos cada vez mais avançados em idade, temos bastantes viúvas e viúvos e não temos recebido gente nova, para continuar o movimento. Somos uma cela da Igreja actual, com defeitos e com virtudes, como todos os outros. Não somos mais nem menos. Somos cristãos, vivemos intensamente e com algum sentido crítico os problemas que existem a todos os níveis, e não vislumbramos o tal sangue novo que possa rejuvenescer o movimento.
Precisamos de gente nova e de novos sócios, para podermos ter a certeza que o grupo não morre, quando desaparecerem os fundadores. Temos contactos de muitos, comunicamos com eles, dialogamos, não somos saudosistas, nem “beatos”, como já alguém nos chamou. Homens e mulheres de fé e dinâmicos em todos os aspectos queremos contribuir com seriedade para uma igreja viva e renovada, dentro das linhas do Evangelho. Todos não somos demais para tarefa tão árdua e complexa. Cada um dá o que tem de melhor e mais profundo por esta causa, que depende essencialmente de pessoas conscientes e livres.
Os sinais dos tempos são muitos e evidentes demais para não cruzarmos os braços. Temos plena consciência disso. Há muita coisa que precisa de mudar! O nosso movimento apela à união entre todos os que têm consciência para que em cada hora se procure a santidade dos homens, único caminho que leva a Deus, que nos ama a todos sem limites, deu a vida por nós venceu a morte com a Sua ressurreição. Ele está vivo no meio das multidões e no coração de cada um. Vamos dar-nos a Ele sem medo e sem hesitações, pois que vive connosco para sempre e venceu o mal.
* Ex-Presidente da Associação portuguesa de Padres casados ASSOCIAÇÃO FRATERNITAS-MOVIMENTO