Mandela: o milagre do perdão

Nelson Mandela morreu

Ainda se pode dizer algo que não tenha já sido dito sobre Nelson Mandela, perante quem o mundo todo se inclinou, em sinal de respeito e veneração, aquando da sua morte a 5 de Dezembro passado, aos 95 anos? Já antes também.

ANSELMO BORGES   –  01 de Fevereiro de 2014

Estive várias vezes na África do Sul, ainda no tempo do apartheid. Ainda vi, por exemplo, em bancos de jardim ou indicação de praia, a ordem: “Whites only” (só para brancos). Se pude visitar o Soweto, foi porque o afável bispo católico de Joanesburgo, que não era racista, pediu ao pároco negro que me acompanhasse. E foi com muita simpatia que me receberam.

Muitas vezes me perguntei como é que aquela ignomínia iria acabar. Seria possível sem um banho de sangue? Foi possível. Pacificamente, abriu-se o caminho para a democracia no quadro da coexistência racial. Isso deveu-se certamente também à inteligência política do presidente De Klerk, no novo contexto criado pela queda do muro de Berlim.

Mas, para evitar a tragédia, o espírito e a acção de Mandela foram determinantes. Afinal, tudo está naquele gesto de apertar a mão aos carcereiros e convidá-los para o banquete de inauguração da nova presidência da “nação arco-íris“. É necessário caminhar com a utopia, que nos diz, por um lado, o que não pode ser, porque intolerável, e, por outro, nos indica o caminho do para onde se deve ir.

Mandela percebera que os seus carcereiros eram seres humanos habitados pelo medo. Ora, o medo é do pior que há. O medo tolhe a razão e a capacidade de pensar. É preciso ter medo de quem tem medo, de tal modo que a primeira libertação tem de ser a libertação do medo. Também e sobretudo no universo da religião. Aterrados pelo medo de Deus, homens e mulheres que se julgam religiosos caminham fatalmente para desgraças tenebrosas.

Por isso, a Bíblia é atravessada pela compreensão histórica lenta, que culmina em Jesus, através da sua experiência, palavras e acções, de que a única tentativa de “definir” Deus é (está em São João): Ho theós agapê estín (Deus é amor incondicional, Deus é Força infinita de criar e só sabe amar).

Mandela era cristão. Por isso, sabia que se deve perdoar aos inimigos. Pelo Evangelho, também sabia que os romanos enquanto potência de ocupação podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: “Faz uma segunda milha de livre vontade.” Talvez o romano começasse a conversar, e quem sabe se não acabariam por beber um copo juntos? A reconciliação, a solução pacífica dos conflitos é preferível à violência e à guerra. E Jesus, do alto da cruz, rezou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”

De qualquer modo, o perdão é um milagre, também em política. Jürgen Habermas, agnóstico, talvez o maior filósofo vivo, que quereria uma filosofia que herdasse, num processo de secularização mediante a razão comunicativa, os conteúdos semânticos da religião e a sua força, reconheceu que há um resto na religião não herdável pela simples razão. Disse-o num discurso famoso, por ocasião da recepção do prémio da paz dos livreiros alemães e já depois dos acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. Esse resto tem que ver nomeadamente com o drama do perdão.

O perdão, em última análise, já não pertence à ordem do jurídico nem do político. No perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade do cálculo que é superada, pois nem o algoz tem direito ao perdão nem a vítima é obrigada a perdoar. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, “qualquer coisa de trans-humano”: “na ideia do perdão, há a da transcendência”, pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião.

“A partir desta ideia do impossível, deste “desejo” ou deste “pensamento” do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso.”
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

 

Anselmo Borges riAnselmo Borges

Fonte:  http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3662942&seccao=Anselmo%20Borges&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&page=-1

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