Sobre a celebração do 50º aniversário do Concílio Vaticano II
Neste intervalo, lembre-se que a nossa história está mergulhada no desespero que se torna esperança.
Boécio, um filósofo do século quinto, ensinou ao povo do seu tempo a respeito do Império Romano em decadência, uma verdade que é de suma importância para nós: “Cada época que está morrendo é simplesmente uma outra época que está nascendo”.
Em outras palavras, a vida nova não é morte, a não ser que a gente a rejeite. Vida nova deve ser crescimento, não declínio, evolucionário, não revolucionário, a não ser que nós o tornemos assim.
Um mestre de Zen escreveu na mesma época: “Nenhuma semente jamais vê a flor” Portanto, todos nós devemos iniciar obras novas que apenas vão frutificar após a nossa volta ao Pai.
Com estas percepções em mente, podemos perguntar como é que dois grupos de pessoas, com as mesmas tradições, tiradas do mesmo ambiente social, podem ver o mesmo acontecimento – a celebração do 50º aniversário do Concilio Vaticano II, que traz todos as facetas da Igreja para se comprometerem em viver plenamente aquele Concilio, tão diferentemente, ou seja, um grupo está cheio de esperança, e o outro, no desespero total?
Aí, eu me lembrei de outra estória que pode bem explicar a diferença entre o desespero do presente e a esperança do futuro.
Nesta estória Taoista, um agricultor pobre tem apenas um filho e um garanhão bonito que usa para cultivar sua terra. Todos os outros agricultores da área têm pena dele por causa da sua pobreza, mas o velho sempre fala da sua situação: “Coisa boa, ou coisa ruim: quem sabe?”
Certo dia o garanhão foge para as montanhas, deixando o agricultor e seu filho para fazerem os trabalhos sozinhos, apenas com suas enxadas. Os vizinhos têm pena, mas o velho apenas diz: “Coisa boa, ou coisa ruim: quem sabe?”
De repente, na manhã seguinte, o garanhão desce a montanha e entra no curral, seguido por um rebanho de cavalos selvagens. Os vizinhos, surpresos pela nova riqueza, se congratulam com o velho, mas ele simplesmente repete: “Coisa boa, ou coisa ruim: quem sabe?”
Logo mais, um dos cavalos selvagens derruba o filho que o montou, quebrando as pernas e deixando o filho paralítico pelo resto da vida. Os vizinhos choram esta falta de sorte, mas o velho apenas repete: “Coisa boa, ou coisa ruim: quem sabe?”
Um dia no outono, no início da colheita, o governo local conclama todos os jovens rapazes para o exército, menos um, ou seja, o paralítico inútil filho do agricultor. Os vizinhos choram a falta de sorte de cada um e a sorte do velho, que novamente repete: “Coisa boa, ou coisa ruim: quem sabe?”
Como esta estória me ensinou, o desespero pode estar presente em qualquer situação, apesar das coisas boas que também podem estar aí presentes. No final das contas, a maneira como a gente vê uma situação depende do que nós procuramos. O fato é que nós vivemos num tempo de evento bom, e evento ruim, ou seja, quando uma época esta morrendo e outra nova nascendo. Nós somos a geração entre as duas épocas, e as sementes não vão ver as flores. A única pergunta é se em nosso tempo nós vamos ver nossa realidade como motivo para desesperar, ou como o alicerce para uma nova esperança. Se vamos ver as sementes que nós também estamos plantando como início de um novo futuro, semeadas em terra dura, mas sim, crescendo devagar, e com bastante cuidado, fé e esperança, certamente vão produzir uma boa colheita futuramente.
O fato é que a história dos caminhos de Deus com Seu povo sempre foi uma situação de evento bom e evento ruim, uma afirmação contínua de vida apesar das ameaças constantes da morte. Nós somos os filhos da história mergulhados em desespero que se torna em esperança, de eventos ruins que se tornam bons: a escravidão do povo de Deus pelos faraós com sede do poder leva o povo procurar a vida plena no desespero. E aí veio Moisés com a coragem de enfrentar aqueles que se preocupavam mais em cristalizar seu poder do que com o bem-estar do povo. Enfrentar a opressão é a essência da esperança, em qualquer época.
Realmente, a vida Cristã inteira é uma história de evento bom e evento ruim. Um evento ruim que se tornou bom pelos que o recusaram como tal. É uma história da necessidade de enfrentar aqueles que negam ao povo o direito de ser pessoa, de ser gente. É uma seqüência de momentos nos quais os excluídos e os invisíveis são elevados para salvar o sistema de si mesmo.
A pergunta é: como podemos distinguir entre o bom e o ruim? Como podemos saber o que é para ser feito aqui e agora pelos que amam a Igreja e desejam ver um novo desabrochar, para que agora, como no passado, escravidões possam terminar, as discriminações sejam evitadas, o povo possa ser salvo e a Igreja finalmente possa se tornar a Igreja e o modelo de Jesus, e não modelo de um sistema medieval que agora foi abandonado pela humanidade em todos os lugares, exceto por nós?
O fato é que nós já recebemos a receita para o bem vencer o mal. Se chama Vaticano II. Já vimos o Concílio trazer vida nova para odres velhos. E ao mesmo tempo, podemos ver a Igreja sendo destruída silenciosamente, em segredo, com passos seguros, em muitos lugares, de muitas maneiras. Se você for um católico que presta atenção, você sabe que para os Católicos, ultimamente, a vida tem sido boa, e não-tão-boa por muito tempo.
A decisão de tirar a Igreja do século XVI – tirar a Igreja do caráter e do modo de ser de Trento – para uma visão e caráter do Vaticano II, foi boa.
No Concílio de Trento, no século XVI, a resposta da Igreja para os pedidos de reformas foi jogar novas regras e nova regulamentação sobre as costas do povo, em vez de trazer reformas para as políticas do centro do sistema em si.
A decisão corajosa dos bispos do mundo todo, em nosso tempo, de trazer a Igreja para o século XX no Vaticano II – 400 anos após este fato, foi mais necessária que nunca e foi muito boa. Mas a resposta esta vez, também está sendo adiada por um pequeno grupo. Está sendo negado por aqueles que, dentro do sistema eclesiástico, temem a perda de seus privilégios e de seu poder, o que pesa mais do que o valor espiritual da maioria. Em nome de reformar as reformas, há hoje em um movimento que quer definir quem está “de dentro” da Igreja – o clero, a hierarquia, os homens, e quem “está de fora”, novamente os leigos, as mulheres, os gays.
Mas mesmo assim, muita coisa boa está acontecendo em nosso tempo. Em nosso tempo, aprendemos que a Igreja é o povo de Deus – não simplesmente uma reunião de clérigos ao redor da hierarquia mais alta ainda. Em vez disto, aprendemos de uma Igreja viva do Vaticano II que realmente a Igreja é o povo de Deus, que somos nós!
Se eu fosse um Bispo Católico, eu não me preocuparia com o fato que mulheres católicas estão se jogando nas escadas da Catedral, esperando e pedindo por tudo uma oportunidade de serem ministras na Igreja. Eu me preocuparia, sim, com o fato de que elas tiveram de ir para Seminários Protestantes para conseguirem seu preparo teológico e pastoral.
O Vaticano II dá a todos o direito de dedicar os dons recebidos de Deus, para os trabalhos de Deus, na Igreja de Deus. Entre as grandes Ordens e Congregações da Igreja, as ideias para os Beneditinos, Bento, Franciscanos, Francisco, Jesuítas, Inácio Loyola, Irmãs da Misericórdia, Madre Catarina McAuley, Irmãs da Caridade, Madre Isabel Seaton, Irmãs de Loreto, Maria Ward; as idéias para o ministério do ensino, educação de meninas, enfermagem para cuidar dos doentes, sem falar paz e não-violência pela Dorothy Day e Pedro Maurin – todos vieram dos leigos.
Lembre-se: a Igreja sempre necessitou muito mais do que dinheiro dos leigos. Precisa de capital intelectual, moral e espiritual novamente, aqui e agora. É seu nome que estão aguardando, o nome logo em baixo do nome de Moisés e Judite, Ester e José e Jesus. Você hoje em dia é a voz da Igreja. Fale alto. Você é o fogo, a chama, da Igreja agora. Brilhe bem. Você é a esperança da Igreja neste momento, e durante os próximos séculos.
Deixe sua fé lhe impulsionar. Deixe que o amor lhe direcione. Deixe que a esperança seja a cola que lhe segura, e deixe que a coragem seja sua eterna chama de Pentecostes. Você é o evento bom da Igreja que com frequência se tornou um evento ruim.
Joan Chittister
Fonte: http://ncronline.org/blogs/where-i-stand/good-event-bad-event
Publicado na revista Católica National Catholic Repórter dos EUA no dia 19 de julho de 2011.
Tradução do inglês: James Hellman (jhellman@terra.com.br)