”As mulheres devem ter igual dignidade na Igreja”

Ao ser perguntada se lhe desagrada não poder ser sacerdote, ela que é uma das mulheres mais influentes da Igreja, ela dá uma risada suave: “Veja, eu conheço pastoras evangélicas ligadas ao movimento, amigas e mulheres excepcionais que fazem muito bem nas suas Igrejas, mas eu nunca pensei que a possibilidade de se tornar sacerdote aumentava a dignidade da mulher. Entrevista com Maria Voce

Seria apenas um serviço a mais. Porque a questão é outra: como mulheres, aquilo que devemos aspirar, me parece, é ver reconhecida a igual dignidade, a igual oportunidade na Igreja Católica. Serviço, e não servidão, como diz o próprio Papa Francisco…”. Maria Voce lidera desde 2008 os Focolares, 2,5 milhões de aderentes em 182 países, o único movimento liderado por estatuto por uma mulher.

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 30-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ela sucedeu a fundadora, Chiara Lubich, que a chamava de “Emaús” e está sepultada pouco longe daqui, na pequena capela do centro mundial de Rocca di Papa, com o vitral com vista para a sua casa entre os pinheiros e, na frente da lápide, um mosaico que representa Maria como Mãe da Igreja. No dia 7 de dezembro, terão passados 70 anos da “consagração a Deus” de Chiara. Uma mulher leiga que antecipou diversos temas do Concílio. “A Igreja como abertura, comunhão, amor recíproco…”.

Eis a entrevista.

Qual é hoje o papel das mulheres na Igreja e quanto elas são ouvidas?

O papel é o de todo ser humano, homem ou mulher, que pertence à Igreja como corpo místico de Cristo. Como ele é considerado por outros, ao invés, é algo um pouco diferente. Parece-me que as mulheres ainda não têm muito voz no capítulo. Muitas vezes são reconhecidos a elas os valores de humildade, docilidade, flexibilidade, mas um pouco se aproveitam disso. O Santo Padre, aliás, disse que lhe causa pena ver a mulher em servidão, não a mulher em serviço: o serviço é uma palavra-chave do seu pontificado, mas como serviço de amor. Não no sentido de serviço pelo fato de você ser considerada inferior e, portanto, submissa. Eu acredito que ainda há o que fazer nisso.

O papa disse que é preciso pensar uma “teologia da mulher”. O que isso significa para você?

Eu não sou teóloga. Mas o papa deu o título: “Maria é maior do que os apóstolos”. É bom que o diga, é muito forte. Mas deve surgir disso a complementaridade. A participação no magistério também, em certo sentido…

Em que sentido?

Chiara pensava Maria como o céu azul que contém o sol, a lua e as estrelas. Nessa visão, se o sol é Deus, e as estrelas, os santos, Maria é o céu que os contém, que contém Deus também: por vontade justamente de Deus, que se encarnou no seu seio. A mulher na Igreja é isso, deve ter essa função, que só pode existir na complementaridade com o carisma petrino. Não pode haver apenas Pedro guiando a Igreja, mas deve haver Pedro com os apóstolos, e sustentado e cercado pelo abraço dessa mulher-mãe que é Maria.

Para Francisco, é preciso refletir sobre o lugar da mulher “também onde se exerce a autoridade”. Como se poderia fazer isso?

As mulheres poderiam liderar dicastério da Cúria, por exemplo, eu não vejo dificuldade nisso. Eu não entendo por que, por exemplo, à frente de um dicastério sobre a família deve haver necessariamente um cardeal. Poderia muito bem ser um casal de leigos que vivem cristãmente o seu matrimônio e, com todo o respeito, estão certamente mais a par dos problemas da família do que um cardeal. O mesmo poderia valer para outros dicastérios. Parece-me normal.

O que mais?

Eu penso nas Congregações Gerais antes do conclave. Poderiam participar delas as madres superiores das grandes congregações, talvez representantes eleitas das dioceses. Se a cúpula fosse mais ampla, isso também ajudaria o futuro papa. Além disso, por que ele deve se consultar apenas com os outros cardeais? É uma limitação.

Isso também pode valer para o grupo cardinalício do Conselho desejado por Francisco?

Certamente. Eu não vejo um grupo de mulheres apenas que se acrescenta. Seria mais útil um organismo misto, com as mulheres e outros leigos que, junto com os cardeais, possam dar as informações necessárias e perspectivas. Isso me entusiasmaria.

E as mulheres cardeais? Falou-se de Madre Teresa. Como ela teria visto isso?

Eu gostaria de entender como ela se veria! Uma mulher cardeal poderia ser um sinal para a humanidade, mas não para mim, nem para as mulheres em geral, acredito eu. Não me interessa. Seria uma pessoa excepcional que foi feita cardeal. Tudo bem, mas e depois? Grandes figuras, santas e doutoras da Igreja, foram valorizadas. Mas é a mulher como tal que não encontra o seu lugar. O que deve ser reconhecido é o gênio feminino no cotidiano.

A famosa complementaridade…

Certamente. Eu falava de carisma petrino e carisma mariano. Mas, em geral, eu diria entre homem e mulher, a complementaridade inscrita no desígnio divino. O homem à imagem de Deus, “homem e mulher os criou”, não se realiza de outra forma. Isso também vale para os consagrados: mesmo que alguém renuncie à relação sexual, não pode renunciar à relação, à relação com o outro.

03 de dezembro de 2013

Gian Guido Vecchi

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526293-as-mulheres-devem-ter-igual-dignidade-na-igreja-entrevista-com-maria-voce

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