CELIBATO: O MITO E A REALIDADE DA HISTÓRIA

(Do Jornal RUMOS, Brasília, junho 1994, pág. 12)

Em seu “Journal”, maio  l994, a Associação CORPUS do Canadá inseriu um pequeno encarte sobre o assunto, baseado em dados  do “The Oxford Dictionary of Popes”.  Encabeça-o uma frase de João Paulo II, proferida em julho de l993:  “O celibato não é essencial ao sacerdócio; não foi uma lei promulgada por Jesus Cristo”.  Afirmar outra coisa seria contradizer a própria história da Igreja.

No século I, Pedro, primeiro papa, e os apóstolos que Jesus escolheu, eram todos casados, excetuado João.  E fato particularmente significativo:  os documentos indicam que também as mulheres presidiam à ceia eucarística na Igreja primitiva.

Séculos II e III, época do gnosticismo: a luz e o espírito são bons, as trevas e a matéria são más. Ninguém pode estar casado e ser perfeito ao mesmo tempo.   Entretanto, a maioria dos padres eram casados.

No século IV, deram-se alguns acontecimentos marcantes.  Em 306, teve lugar o Concílio de Elvira, na Espanha, onde se decretou: o padre que dormir com a esposa na noite anterior à missa, perderá a função.  O Concílio de Nicéia, 325, iria mais além, decretando que, após a ordenação, nenhum podia casar. E, no de Laodicéia, 352, encontramos uma proibição singular: a de que as mulheres não deviam ser ordenadas, o que parece sugerir que antes o eram.  Em 385, o papa Sirício deixa a mulher para se tornar papa e ordena que os padres não podem dormir com as esposas.

No século V, ano 401, escrevia Santo Agostinho: “Nada tem tanta força para debilitar o espírito do homem como a carícia de uma mulher”.

No século VI: posições contrastantes. Enquanto o II Concílio de Tours, 567, declara que todo o clérigo encontrado na cama com a mulher será excomungado por um ano e reduzido ao estado laical, o papa Pelágio II, 580, é mais condescendente: sua política é de deixar em paz os padres casados, desde que não fizessem herdeiros dos bens da Igreja sua mulher e seus filhos.  Já o papa Gregório, o Grande, afirma que todo o desejo sexual é,  por si,  pecaminoso, ou seja, intrinsecamente mau.

Do século VII existem documentos que indicam que a maioria do clero era casado.

No século VIII, São Bonifácio comunica ao papa que, na Alemanha, quase nenhum bispo ou padre vive como celibatário.

No século IX, o Concílio de Aquisgrano, 836, admitiu abertamente que, nos mosteiros e conventos, se cometiam abortos e infanticídios para encobrir a incontinência sexual dos clérigos.

Santo Ulrico, um santo bispo, arguindo com as Escrituras e o bom-senso, afirmou então que o único caminho para purificar a Igreja dos graves excessos do celibato era permitir que os padres se casassem.

Entretanto,  no século XI, 1074, Gregório VII exigiria que quem quisesse ser ordenado, havia de se comprometer primeiro com o celibato: “A Igreja não poderá escapar das garras dos leigos, se os padres não escaparem primeiro das garras das esposas”.  Mas, em 1095, Urbano II foi bem mais drástico e cruel: ordenou que as esposas dos padres fossem vendidas como escravas e seus filhos abandonados.

No século XII, sendo papa Calisto II, realizou-se o I Concílio de Latrão, 1123.  Um dos seus decretos declara inválido o casamento dos clérigos.  O II Concílio de Latrão, celebrado durante o pontificado de Inocêncio II, confirmaria tal decisão.

No século XIV, coisa estranha. o bispo Pelágio ainda se queixa de que há mulheres que estão sendo ordenadas e ouvindo confissões.

O século XV é um século de transição:  50% dos padres estão casados e são aceitos pelo povo.

Século XVI, 1545-1562, acontecimento extremamente decisivo para a Igreja: Concílio de Trento:  o celibato e a virgindade são superiores ao matrimônio.

Século XX: depois da Inquisição, da Revolução Francesa, Darwin, Marx, Freud, novos contrastes. Em 1930, Pio XI reconhecia que o sexo pode ser bom e santo.  O Concílio Vaticano II, 1958-1963, iguala o matrimônio à virgindade. Em 1966, o papa Paulo VI autoriza a dispensa do celibato: seguiu-se uma avalanche de pedidos.  Em 1978, Joio Paulo II. congelou as dispensas.

PAPAS QUE FORAM CASADOS: São Pedro Apóstolo.  São Félix III, 438-492, 2 filhos, viúvo durante o pontificado.  São Hormidas, 514-523, l filho, casado antes da ordenação.  São Silvério, 536-537, casado com Antônia.  Adriano II, 867-872, l filha, casado antes da ordenação.  Clemente VI, 1265-1268, 2 filhas, viúvo.  Feliz V, 1439-1449, l filho, viúvo.

PAPAS QUE FORAM FILHOS DE PAPAS OU DE CLÉRIGOS: São Dâmaso I, 366-378(?), filho do padre São Lourenço. Santo Inocêncio, 401-417, filho de Anastácio I.  Bonifácio, 418-422, filho de um padre.  São Félix, 483-492,  filho de um padre.  Anastácio II, 496-498, filho de um padre.  Santo Agapito K, 535-536, filho de Gordiano, padre.  São Silvério, 536-537, filho de Santo Hormidas, papa. Deusdedit, 615-618, filho de Estêvão, subdiácono. Teodoro I, 642-649,  filho de um bispo. Marino I, 882-884,  filho de um padre.  Bonifácio VI, 896-896,  filho de Adriano, bispo. João XI, 931-935, filho ilegítimo do papa Sérgio III, 904-011. João XV, 989-1006, filho de Leão, padre.

PAPAS QUE TIVERAM FILHOS ILEGÍTIMOS após a lei do celibato de 1139. Inocêncio VIII, 1484-1492,pai de vários filhos. Alexandre VI, 1492-1503, pai, enquanto cardeal, de vários filhos.  Júlio II, 1503-1513, pai, enquanto cardeal, de 3 filhas.  Paulo III, 1534-1549, 3 filhos e l filha.  Pio IV, 1559-1565, 3 filhos.  Gregório XIII, 1572-1585, 1 filho antes de se tornar padre aos 40 anos.   São retalhos da história que não dão nenhuma consistência ao mito do celibato clerical.

 

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