Querido papa Francisco: Como hoje tudo passa tão rápido, já chegou às nossas mãos o questionário sobre a família que o senhor acaba de dirigir aos bispos de todo o mundo: 38 perguntas bem concretas, organizadas em 8 blocos temáticos.
José Arregui * – Tradução: ADITAL
Entendemos que não somos somente o objeto, mas, também, o destinatário dessas perguntas que nos atingem – e doem -, inclusive, mais do que aos bispos. Por isso, nos permitimos respondê-las diretamente, pelo carinho que temos por ele e pela confiança que nos inspira. Obrigado, papa Francisco, por perguntar-nos sobre tantas questões incômodas que têm sido e continuam sendo tabu! Obrigado por escutar-nos, por acolher nossas vozes saídas da alma, com suas certezas e suas dúvidas.
1. Se o ensino da Sagrada Escritura e do Magistério hierárquico sobre a sexualidade, o matrimônio e a família é conhecido e aceito entre os crentes.
Talvez não seja bem conhecido; porém, certamente é mal aceito ou simplesmente ignorado. Constatamos que nas últimas décadas, a brecha ou melhor, a ruptura entre a doutrina oficial e o sentir majoritário das/dos crentes, tem aumentando a um grau crítico. Isso é grave e nos dói. Porém, cremos sinceramente que a razão da quebra crescente não é a ignorância e menos ainda a irresponsabilidade dos crentes; mas, o fechamento da hierarquia em esquemas do passado.
Os tempos mudaram muito em pouco tempo no que se refere à família, ao matrimônio e à procriação e com a sexualidade em geral. Sabemos que são temas delicados, que o mais sagrado está em jogo, que é necessário o máximo cuidado. Porém, não se pode cuidar da vida repetindo o passado. Cremos profundamente que o Espírito da vida continua falando-nos a partir do coração da vida, com seus gozos e dores. Cremos que a Ruah vivente não pode ser encerrada em nenhuma doutrina, nem texto, nem letra do passado; e que continua inspirando o sentir de todos os crentes e de todos os homens e mulheres de hoje. Nunca nada deve ficar fechado.
Papa Francisco, o felicitamos por sua vontade de voltar a escutar a voz do Espírito nos homens e mulheres de hoje, e nos atrevemos a pedir-lhe: continue pronunciando palavras de misericórdia e de alento; não volte a “verdades” e “normas” obsoletas, que não têm sentido. Em nome da vida!
2. Sobre o lugar que o conceito de “lei natural” em relação ao matrimônio ocupa entre os crentes.
Falaremos com toda simplicidade e franqueza: para a grande maioria dos pensadores, cientistas e crentes de nossa sociedade, o conceito de “lei natural” já não ocupa nenhum lugar. Sim, a natureza que somos tem uma maravilhosa ordem, leis maravilhosas e, graças a elas, a ciência torna-se possível. Porém, a lei suprema da natureza é sua capacidade de transformação e novidade. A natureza é criadora, inventiva. Dessa capacidade criadora e inventiva, dessa criatividade sagrada nascem todos os átomos e moléculas, todos os astros e galáxias. Delas somos fruto todos os viventes, todas as línguas e culturas, todas as religiões. Dela serão fruto durante milhares de milhões de anos infinitas novas formas que ainda desconhecemos.
A natureza está habitada pelo Espírito, pela santa Ruah, que pairava sobre as águas do Gênese; que continua vibrando no coração de todos os seres, no coração de cada átomo e de cada partícula. Tudo vive, tudo alenta, tudo se move. Tudo muda. Também a família foi mudando sem cessar, desde os clãs primeiros até a família nuclear, passando pela família patriarcal, que conhecemos até bem pouco tempo.
Ante nossos próprios olhos, o modelo familiar continua mudando: famílias sem filhos, famílias monoparentais, famílias de filhos/as de diversos pais… E continuará mudando, não sabemos como. Tudo é muito delicado. Há muita dor. Pedimos à Igreja que não fale mal das novas formas de família, pois já é suficiente o que têm que viver cada dia para seguir em frente, em meio às maiores ameaças que nos atingem partindo de um sistema econômico cruel, desumano. À Igreja não lhe compete ditar, mas, antes de tudo, acompanhar, aliviar, alentar, como o senhor mesmo tem afirmado.
3. Sobre como se vive e como se transmite nas famílias a fé, a espiritualidade, o Evangelho.
Questão decisiva. Constatamos com dor que as famílias estão deixando de ser “igrejas domésticas”, onde se reza, se cultiva, se respira, se transmite a boa notícia de Jesus. Porém, não cremos que seja justo culpá-las por isso. A crise da religião e da transmissão da fé na família tem que a ver, em primeiro lugar, com a profunda transformação cultural que estamos vivendo. E constitui um grande desafio não só nem talvez em primeiro lugar para as próprias famílias, mas para a própria instituição eclesial: assumir as novas chaves espirituais e formas religiosas que o Espírito está inspirando nos homens e mulheres de hoje.
4. Sobre como a Igreja enfrentará algumas “situações matrimoniais difíceis” (namorados que convivem sem ser casados, “uniões livres”, divorciados que voltam a casar-se…).
Obrigado de novo, papa Francisco, somente por querer recolocar essas questões! Obrigado por querer escutar-nos e por nomear a misericórdia em suas perguntas! O senhor conhece bem a complexa e variável história do “sacramento do matrimônio” desde o começo da Igreja. A história tem sido muito variável e continuará sendo. Por exemplo, veja o que acontece entre nós, nessa Europa ultramoderna. Nossos jovens, até os 30 anos, no melhor dos casos, não dispõem nem de casa, nem de meios econômicos para casar-se e viver com seu/sua companheiro/a. Como a Igreja pode pedir-lhes que se abstenham de relações sexuais até essa idade?
As formas mudam; porém, acreditamos que o critério é muito simples e que Jesus estaria de acordo: “Onde há amor, há sacramento; casando-se ou não, onde não há amor, não existe sacramento, por mais canonicamente casados que estejam”. Tudo o demais é detalhe. E se o casal está em dificuldades, como acontece demais, somente Deus pode ajudá-los a resolver suas dificuldades e voltar a querer-se, se isso for possível; e somente Deus poderá ajudá-los a separar-se em paz, se não puderem resolver suas dificuldades, nem voltar a querer-se.
Elimine, pois, lhe rogamos, as travas canônicas para que àqueles que fracassaram em seu matrimônio possam refazer sua vida com outro amor. Que a Igreja não continue colocando mais dor a sua dor. E que, de nenhum modo os impeça de partilhar o plano que reconforta na mesa de Jesus.
5. Sobre as uniões com pessoas do mesmo sexo.
O dano causado pela Igreja aos homossexuais é imenso, e algum dia deverá pedir-lhes perdão. Tomara que o papa Francisco, em nome da Igreja, lhes peça perdão por tanta vergonha, desprezo e sentimento de culpa carregado sobre eles durante séculos e séculos!
A imensa maioria dos homens e mulheres de nossa sociedade não podem compreender essa obsessão, essa hostilidade. Como podem continuar sustentando que o amor homossexual não é natural, sendo tão comum e natural, por motivos biológicos e psicológicos, entre tantos homens e mulheres de todos os tempos e de todos os continentes, e em tantas outras espécies animais?
Nessa causa, como em tantas outras, a Igreja deveria preceder; porém, a sociedade nos precede. Celebramos que sejam cada vez mais numerosos os países que reconhecem os mesmos direitos à união de pessoas do mesmo sexo que a de pessoas heterossexuais. E o que impede que seja chamado “matrimônio”? Por acaso não são assim chamadas as uniões heterossexuais que, por qualquer motivo, não visam gerar filhos? Mudem, portanto, os dicionários e o Direito Canônico, moldando-se aos tempos, atendendo às pessoas.
E que impede que chamemos sacramento a um matrimônio homossexual? É o amor o que nos faz humanos e o que nos faz divinos. É o amor o que faz o sacramento. E tudo o demais são glosas e tradições humanas.
6. Sobre a educação dos filhos no seio de situações matrimoniais irregulares.
Cremos que essa linguagem – regular, irregular– não é acertada; e mais, é perniciosa. Faz mal a uma criança escutar que nasceu ou que vive no seio de um matrimônio ou de uma família “irregular”. E faz mal a seus pais, sejam quem forem. O que faz mal não é ser exceção, mas ser censurado por ser exceção. Todos sabemos que basta que os casos se multipliquem para que a exceção se converta em norma. Em qualquer caso, a Igreja não está para definir o que é regular e o que é irregular; mas para acompanhar, animar, sustentar cada pessoa tal como é no lugar onde está.
7. Sobre a abertura dos esposos à vida.
Ainda bem que são contados entre nós os crentes abaixo dos 60 anos que escutaram falar da Humanae Vitae, a Encíclica de Paulo VI (1968), que declarou pecado mortal o uso de todo método contraceptivo “não natural”, todo método que não fosse a abstinência ou a adequação ao ciclo feminino da fertilidade. Porém, fez sofrer muito a quase todos os da geração de nossos pais. Essa doutrina, adotada contra o parecer de boa parte do episcopado, foi lamentável na época e não é menos lamentável que tenha sido mantida até hoje.
Atualmente, ninguém a compreende e quase ninguém a cumpre entre os próprios católicos. E poucos sacerdotes e bispos se atrevem a expô-la. Já não tem sentido afirmar que a relação sexual tenha que, necessariamente, estar aberta à reprodução. Já não tem sentido continuar distinguindo entre métodos naturais e artificiais, e menos ainda condenar um método porque seja “artificial”, pois, pela mesma razão, teriam que condenar uma vacina ou uma injeção qualquer.
Em nossos dias, assistimos a uma mudança transcendental em tudo o que tem a ver com a sexualidade e a reprodução: por primeira vez depois de muitos milênios, a relação sexual deixou de ser necessária para a reprodução. É uma mudança tecnológica que traz consigo uma mudança antropológica e requer um novo paradigma moral. A sexualidade e a vida continuam sendo tão sagradas como sempre e é preciso cuidá-las com suma delicadeza. Porém, o critério e as normas da Humanae Vitae não ajudam nisso; mas a dificultam. Que a palavra da Igreja seja luz e consolo, como o Espírito de Deus, como foi a palavra de Jesus em seu tempo e seria também no nosso.
8. Sobre a relação entre a família, a pessoa e o encontro com Jesus.
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