Segundo o evangelista Marcos, 10,45 “Não vim para ser servido, vim para servir”, definiu Jesus, aí, mui claramente sua metodologia libertadora do homem.
E o concílio Vaticano II, Lumen Gentium, item 5, parágrafo 5º, quando afirma que Jesus veio “para servir e dar a sua vida em redenção por muitos”, reforça a grande idéia de que o sentido preciso da igreja de Jesus é: “Um serviço ao homem”.
Quando da confraternização comemorativa dos meus oitenta anos (14/06/2009), após a missa em ação de graças, presidida por meu irmão, não me contive no buffet diante das cinco famílias presentes (consanguínea, padres casados, condomínio edifício Havona, projeto Interiorização do Ensino Superior – UVA e Colégio Vicente Dourado) e parti para o desabafo. “Nós, padres casados das últimas cinco décadas somos vítima do Concílio Vaticano II”.
Recém-ordenados, ávidos da Igreja Nova que se antevia pelas informações da mídia e das rádios diocesanas sobre o desenrolar do concílio, enchíamos a mente das mais alvissareiras esperanças: reunidos, estavam, entre bispos, padres-teólogos- peritos e demais assessores, três mil buscadores da nova Igreja.
Era o amanhecer de uma nova igreja que lançava sobre o mundo os raios luminosos da sua mais funda concepção de ser a “Igreja de Jesus”: Igreja – Povo de Deus, Igreja – Um serviço ao Homem, Igreja – mãe e mestra da verdade, Igreja – comunidade de Fé, esperança e caridade, Igreja – e sua vivência missionária, Igreja – e sua função profética.
Algumas vezes, por ocasião de encontros de rotina, refletíamos entre colegas a se tomar consciência do sentido da nossa atitude (pedir dispensa das funções sacerdotais), dizendo “amamos nossas esposas… e sentimo-nos realizados com nossas famílias… mas a razão primeira da nossa decisão foi o DESENCANTO frente ao retrocesso nas posições da hierarquia da nossa igreja, quanto a inadiáveis mudanças para um novo processo de EVANGELIZAÇÃO que respondesse às exigências dos tempos em que vivemos.
Ainda convivemos, no passado, com o modelo de evangelização da “Ação Católica, da Associação dos Moços Católicos , da JAC (Juventude Agrária Católica), da JEC (Juventude Estudantil católica), da JIC (Juventude Independente Católica), da JOC (Juventude Operária Católica) e da JUC (Juventude Universitária Católica). Era o modelo que, pela reflexão evangélica, em grupo, com o apoio da hierarquia, sem, porém, sua interferência direta, levava a grandes resultados, com seus reflexos positivos em todas as áreas da atividade humana. Era a Igreja presente.
Hoje, salvas honrosas experiências pessoais, que tipo de evangelização é oferecido aos jovens das grandes cidades, aos do campo, aos das escolas básicas, aos independentes, aos da indústria e do comércio e aos do ensino superior ?
Que adulto terá a igreja, proximamente, se não prepara o seu jovem para os desafios do futuro ?
Como poderá o jovem cristão, evangélica e teologicamente despreparado, inserido em um mundo de ritualismos, devocionices, pieguices e fanatismos da religiosidade apresentada pela nossa igreja atualmente, superar, os grandes avanços da ciência, da tecnologia e sobretudo das idéias, na busca de respostas coerentes às suas duvidas ? Avanços que cobram, mesmo de nós, de razoável formação filosófico-teológica, raciocínios aprofundados ?
Como enfrentará o nosso jovem cristão as grandes interrogações que se colocam, hoje, quanto às células tronco, ao uso de anti-concepcionais,e, até mesmo, a certas afirmações, tidas como verdades, por nós, mas facilmente contestáveis, se a nossa Igreja não for ao seu encontro, como mãe sábia e cuidadosa, com respostas claras, inspiradamente corajosas, e sem subterfúgios ?
Bastam as duas grandes perdas que já tivemos. A chance da reforma proposta por Frei Martin Lutero, cuja rejeição por parte da hierarquia , levou à dispersão do “Rebanho de Pedro”, e o pecado, que choraremos eternamente, em vão, da instalação do tribunal da Inquisição, porque o Espírito Santo de Deus só inspira, quando o homem não está levado pela vaidade e pelo egoísmo, mas humildemente, lhe pede a intercessão.
Na situação de cristãos católicos, não alienados nem tolos, mas críticos da nossa própria fé, sem racionalismos baratos, é claro, queremos expressar a nossa preocupação à hierarquia da nossa Igreja, no sentido de não se cometer o erro irreversível de jogar no ostracismo as grandes decisões do Concílio Vaticano II, principalmente, as que dizem respeito ao seu “Serviço” junto ao mundo jovem:
– tornando-os cientes da grandeza de alma daquelas que vivem um autêntico “Ecumenismo”. É até um dever nosso, em se tratando das Igrejas Evangélicas, uma vez que partiu de nós o pecado da intransigência e da intolerância a uma Reforma que já se fazia urgente, há mais de meio milênio.
– dando-lhe um exemplo arrastador na eliminação da “Discriminação” de toda natureza, seja no abraço fraterno de todas as etnias, seja no apoio incondicional à minoria homossexual, tanto masculina, quanto feminina, orientado-a no emprego da riqueza dos seus dons, quanto acolhendo-a como povo de Deus, inclusive, no anúncio da Boa Nova aos seus e nossos irmãos;
– oferecendo-lhe o bom testemunho, no atendimento do serviço pastoral na “preferência pelos pobres”.
Que pobres entraram com pedido, Cúrias Diocesanas, de declaração de nulidade de casamento ? melhor, quantos pobres realizam cerimonial público do seu casamento hoje ?
Que pobres freqüentam as igrejas e participam dos sacramentos ?
A grande maioria sente-se marginalizada. As missas dominicais atingem a classe média, nas igrejas. É o contingente, muito reduzido, que ainda está recebendo alguma mensagem. Mesmo assim, muito de cima para baixo. Só o padre fala, só ele sabe, os demais são tidos como tolos, bobos, ignorantes. É verdade. Que dioceses ou paróquias se preocupam com a criação de Escolas Bíblico-Teológicos para transformar aqueles tolos, bobos, ignorantes em excelentes instrumentos do anúncio da Boa Nova à massa informe que os rodeia ?
É urgente um “Serviço de Igreja” a esse pessoal. Certamente, algumas experiências estão sendo feitas, no momento. Mas, tímidas e alienantes. Em forma de guetos fechados, mais para um beatismo e fanatismo que para uma consciência critica do seu “ser cristão” no século XXI.
Em um dos seus estados divinamente inspirado, afirma o Pe. José Comblein (belga, há quase 50 anos, no Nordeste do Brasil): “mais que o impacto causado pela Reforma protestante, na Igreja, está sendo o causado pela Modernidade”.
Por isso, mais que nunca, nossa Igreja tem que se fazer aquela Mãe servidora dos Seus Filhos:
– ora, na defesa e valorização plena da Mulher, rompendo com os preconceitos, ainda arraigados na falsa interpretação da belíssima e riquíssima ficção cientifico – religiosa da lenda-romance do pecado original, em que a mulher aparece ultima e única culpada, … como, se sexo fosse pecado, e … só da parte da mulher, mas sábia coerente e, corajosamente inspirada, reconhecer o valor da sua influência , especificamente profética, no mundo de hoje, fazendo-a missionária no pelotão de frente, com a missão, inclusive, de presidir a todas as liturgias do povo de Deus;
– ora, no aprofundamento do estudo sobre o sentido da obrigatoriedade do celibato aos que, pela graça de Deus, são fascinados pela mensagem de Jesus. Quando das decisões conciliares, século XIII e XIV, que culminaram em tal imposição, entende-se, até certo ponto, pois a Igreja vivia um momento novo de expansão para outros continentes. Havia necessidade de enviar missionários aos quatros cantos do mundo. A família tornava-se um empecilho à obra de evangelização, do momento.
Hoje, porém, pelo contrário, a constituição de um lar faz parte da vida de todo homem moderno. Ocupe ele qualquer função de liderança civil ou religiosa.
A família, além de promover a realização integral do ser humano, por que o Pai nos imaginou HOMEM e MULHER, racional e biologicamente sexualizados um ao outro, traz a missão especifica de, no amor recíproco homem-mulher, expressar a grandeza do Amor do pai à sua mensagem de libertação do Homem, em Jesus. “Ame o marido sua mulher, como Deus, como Deus ama sua Igreja”
Por que, então, para ser mais santo, mais profeta, mais missionário, precisa alguém, obrigatoriamente, renunciar ao grande mandamento do Amor? Só por que tem sexo? Assim, nenhum patriarca, nenhum profeta, nenhum tolo (quase nenhum) teria sido santo, profeta, missionário.
Daqui, pode-se avaliar quanto o celibato tem empobrecido a Igreja católica. Primeiro, desperdiçando o trabalho valiosíssimo da mulher. Como Jesus soube fazer! Quem permanece, destemidamente, ao pé da Cruz ? Quem, corajosamente, pela madrugada vai ao túmulo ? Só o destemor e a coragem da Psicologia feminina – o amor da mulher, enfrentam tão arriscada situação.
Em segundo lugar, a riqueza da contribuição dos filhos. Além de ser o fruto do amor recíproco dos pais, o filho é o continuador da sua obra. A família se eterniza, nos filhos.
Sabe Deus, talvez o maior serviço que a Igreja católica pode prestar à humanidade, neste século XXI, é partir para um celibato opcional, quando, alguns se revelarão não celibatários de grandes virtudes, enquanto, outros, no casamento, levarão a obra do “Anúncio da Boa Nova”, como Jesus pensa.
Quantos problemas desapareceriam! Quantos valores… missionarismo da esposa e atividades infanto-juvenis a serviço da pastoral!
E… delinear-se-ia o novo modelo de Padre dos Novos Tempos. Mais “missionário… menos, só celebrador de missa… mais profeta… menos, vendedor de sacramentos… mais “anunciante da Boa Nova aos pobres”!… menos propagandista de devocionices e falsos milagres.
Afinal, mais um serviço: o casamento de homossexuais
Se o homossexualismo é: ou genético – biológico, ou só biológico, ou só comportamental, quem mais que a hereditariedade, ou os processos biológicos ou a influência de terceiros deve responder pelos seus desvios ?… jamais as vítimas!
Se o Papa Paulo VI, na sua Encíclica Humanae Vitae – afirma, divinamente inspirado, que o fundamento do casamento é o AMOR…
Se Jesus diz “onde quer que esteja o Amor de Deus (caritas) com o amor humano (amor), Deus aí está (ubi caritas et amor, Deus ibi est)’ que impede o casamento de uma pessoa, hormonalmente masculina, com outra, hormonalmente feminina, que se amam, na reciprocidade do amor humano, dentro da sublimedade do amor divino ?
Não é a estrutura física do corpo humano (macho ou fêmea) que, jurídica ou religiosamente, vai definir a condição essencial para a sublimação do relacionamento conjugal… mas, sim, a pessoa humana, macho ou fêmea, conforme seus hormônios a definam.
Até achamos que a Igreja Católica devia ir à frente, dando o exemplo de “mãe e mestra da verdade”,sem falsos medos, na tomada de posições comidas, que eliminem, na base, todo tipo de discriminação.
Preocupa-nos ver que o espírito que rege o direito canônico da nossa Igreja ainda é o tecnicismo cego, ultrapassado e, parecendo, distanciar-se de Jesus, porque, distanciando-se de seu serviço do homem.
Se não “estivermos para servir”, não seremos a Igreja de Jesus.
Fortaleza, abril de 2011
José Colaço Martins dourado
Filósofo, Teólogo, Pedagogo, Diretor da Escola