Um ponto sólido na modernidade líquida

Quase meio-dia de domingo, 29 de setembro de 2013, Vaticano, Roma. A Piazza San Pietro e a Via della Consolazione encontram-se completamente tomadas de gente. Menos mal que as nuvens escondem o calor do sol e não chove, o que torna o clima bem apropriado. Os rostos, as vestes, os comportamentos, as bandeiras e as conversas são as mais variadas.

Cruzam-se os idiomas, os olhares, as trajetórias e os passos. Respira-se uma cordialidade fraterna e contagiosa. São dezenas de milhares de pessoas, todas com os olhos voltados para a escadaria da Igreja São Pedro ou para os enormes telões que transmitem as imagens ao vivo. Ali, no final dos degraus, um carro espera o Papa Francisco para o encontro e a benção domenical com os fiéis provenientes de todas as partes do mundo. A expectativa cresce a cada minuto, no tom ansioso de cada coração e da vozes. Como um colossal organismo vivo, a multidão acompanha o relógio com a respiração suspensa. Quando os dois ponteiros se cruzam e os sinos tocam, surge a figura branca do Pontífice. Desce os degraus, sobe no carro e põe-se a percorrer a praça em todas as direções.

Grupos compactos passam a acompanhar a marcha, quase atropelando-se unas aos outros. Braços, bandeiras, gritos e máquinas fotográficas erguem-se, disputando espaço. Um feixe de mãos ansiosas levanta-se na direção do carro e do homem de branco. A cada parada, os pais e mães, com as crianças sobre os ombros, tentam aproximar-se o mais possível do Papa. Este acena, volta-se de um lado para o outro, sorri o tempo todo, troca apertos de mão, toma uma ou outra criança e a beija com delicadeza. Depois prossegue, fazendo confluir atrás de si o rio de gente. Inevitáveis, surgem algumas perguntas: o que leva aquela multidão anônima à praça? O que espera do Pontífice, aparentemente tão frágil e impotente? Poderá este preencher o vazio que aquela parece evidenciar? O que reúne tanta gente ao redor de um homem? Mito? Culto da personalidade? Ou estará em jogo algo de muito mais complexo?

A metáfora da modernidade líquida

A “modernidade líquida” (Zygmunt Bauman) rompe com o chamado Contrato Social, alicerce e sustentação dos tempos modernos. Na era medieval dominava a teocracia da cristandade, governava-se em nome de Deus. As dinastias perpetuavam-se no poder. Deus representava a referência última para a verdade, a beleza, os costumes, o modo de agir e o sentido da vida. Diferentemente do “obscurantismo medieval”, porém, os filhos do Renascimento e do Iluminismo, por um lado, da Independência dos Estados Unidos e da Revulução Francesa, por outro, fazem da razão e da ciência sua própria auto-referência. Homens adultos e emancipados da tutela religiosa, lançam-se destemidos ao mar aberto dos descobrimentos, dos inventos, da experimentação, da tecnologia e do progresso. Fundamentam o comportamento pessoal e a prática política sobre acordos, tácitos ou explícitos, entre as diversas forças sociais. O equilíbrio entre estas é que mantém mais ou menos firme e estável o fiel da balança, ao mesmo tempo que constitui a bússula em meio às tormentas. O poder é exercido em nome do povo e dos direitos do cidadão. Instala-se, pouco a pouco e em graus diferenciados, o proceso democrático.

Ocorre que na “modernidade tardia” (A. Giddens) ou na “pós-modernidade” (J.F.Lyotard), fortemente marcada pelo individualismo exacerbado, pelo pluralismo cultural e religioso e pela fragmentação das visões de mundo, as “verdades e certezas absolutas” se derretem, se liquidificam. No lugar delas surge uma enorme pluralidade de opiniões, dúvidas e novas interrogações. As referências se multiplicam ao extremo, ao ponto de cada um centrar-se sobre si mesmo. Relações fortes e duradouras dão lugar a laços leves, virtuais, frequentemente superficiais e facilmente descartáveis. Esboça-se desse modo uma espécie de sociedade atômica, feita de átomos isolados, justapostos e pretensamente independentes, onde cada indivíduo torna-se um núcleo ao redor do qual giram, em órbitas cerradas e concêntricas, os próprios interesses e energias, paixões e desejos, medos e temores…

Chega-se assim à “era do vazio” (G. Lipovetsky), ou a um caos de interrogações como becos sem saída, em que o hedonismo adquire uma centralidade preocupante: se as estrelas se apagaram no céu, eu me torno minha própria referência! Dessa atmosfera nebulosa resulta o discurso da crise, tão familiar nos dias atuais. Crise que se faz patente quando as perguntas se tornam maiores que a capacidade humana de encontrar uma resposta. Duas alternativas se impõem: de um ponto de vista negativo, cresce o risco do ceticismo, do relativismo e do niilismo, num mundo e numa história em que predomina o senso do absurdo e do destino; em termos positivos, verifica-se a emergência crescente da questão fundamental do ser humano sobre o significado mais profundo de sua existência. Acende-se aqui uma pequena chama que ajuda a caminhar no escuro e, ao mesmo tempo, a buscar um sentido para nossos priojetos, caminhos e passos titubeantes. Não é à toa que uma das características da pós-modernidade é justamente o “retorno dos deuses” (no plural). Na impossibilidade de responder às próprias inquietações, o ser humano apela para o transcendente. Os deuses estão de volta com a mesma força com que foram banidos pelo advento da modernidade. O barulho das máquinas e do tráfego não consegue esconder “o rumor de anjos” (P. Berger), que se impõe às pessoas com a energia de águas represadas.

29 de setembro de 2013

 

Pe. Alfredo Gonçalves

Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.asp?lang=PT&cod=77884

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