Comemorando o 50º aniversário do Concílio Vaticano II
As religiões nascem e se desenvolvem no tempo. Cada uma, pouco a pouco, constrói sua tradição elaborando dogmas (princípios), práticas (moral) e ritos (liturgia/celebração) para orientar seus fiéis. A Igreja Católica, como todas as outras, sempre foi considerada muito tradicionalista. Depois da morte e ressurreição de Jesus, a nossa Igreja foi criando, aperfeiçoando e desenvolvendo suas normas teológicas e jurídicas, seus cultos e suas práticas, zelando pelos ensinamentos do magistério e pela correta interpretação da Bíblia. Sua rigidez, por vezes, a paralisou.
No fim da década de 50 do século passado, dez anos antes da chamada “revolução cultural de 1968”, a Igreja Católica, porém, iniciou uma mudança radical e extraordinária. Com a morte do papa Pio XII, foi eleito, em 28 de outubro de 1958, o Cardeal Angelo Giuseppe Roncalli, arcebispo de Veneza, assumindo o nome de papa João XXIII.
Pessoa simples, humilde como suas origens familiares, era o primogênito de uma numerosa família de lavradores da terra, na região de Bérgamo, no sopé dos Alpes, norte da Itália. Mas papa Roncalli, além de conhecer bem a vida do campo e dos pobres, era um sonhador, intuitivo e de rara perspicácia, um pastor incansável e que possuía uma extraordinária fé em Deus e nos homens.
Foi assim, que o “papa bom”, como logo foi chamado João XXIII, durante a semana de orações pela unidade dos cristãos, em 25 de janeiro de 1959, surpreendeu a todos anunciando a convocação de um Concílio Ecumênico. Espanto, admiração, preocupação e infinitas reações por parte de todo mundo.
Cardeais, (principalmente os que trabalhavam na Cúria vaticana), bispos, padres, pastores, eminentes professores evangélicos, lideres de todas as principais religiões daquele tempo e chefes de nações, todos, atônitos, se perguntavam o que, realmente, queria aquele “bom velhinho” que, de voz enérgica e ao mesmo tempo suave e convincente, convidava a todos para um “aggiornamento” afirmando:“Vamos procurar o que nos une e não o que nos separa”.
Os católicos participavam com sugestões e correntes de orações. As outras grandes religiões (muçulmana, hebraica, hinduísta e budista principalmente), e as igrejas “protestantes” manifestavam adesão e esperança para um encontro ecumênico fraterno. Até os religiosamente indiferentes e os ateus, que o Papa João XXIII chamou “homens de boa vontade,”manifestavam simpatia e interesse pela renovação que o Concílio, poderia trazer à sociedade mundial e às relações internacionais. Havia imensa expectativa.
Os documentos do Concílio Vaticano II, cujas Assembleias Gerais foram realizadas em Roma (Itália), entre outubro de 1962 e dezembro de 1965, foram todos extremamente importantes. Nas reuniões das Comissões ou das Assembleias, os padres conciliares (Bispos, Cardeais, Padres e Consultores convidados) participavam intensamente e com acaloradas discussões.
O Concílio, nos três anos de sua duração e na sua reflexão sobre os principais problemas na Igreja na segunda metade do séc. XX, produziu 16 Documentos:
4 Constituições Dogmáticas, 9 Decretos e 3 Declarações. (clique e veja)
Apenas algumas palavras sobre cada uma das 4 Constituições Dogmáticas, os documentos mais importantes de Concílio, em que ele se preocupou em completar, ampliar e esclarecer melhor, em linguagem compreensível em nossos tempo, a doutrina católica e suas conseqüências na vida dos cristãos no mundo atual..
- Lumen Gentium, Luz dos Povos: tem a intenção de “oferecer a seus fieis e a todo o mundo um ensinamento mais preciso sobre a sua natureza e a sua missão universal”. Em vez da Hierarquia, é o Povo de Deus (cap. II) que é posto no centro. A hierarquia (cap. III), também faz parte do Povo de Deus, e está a serviço, é serviço ao Povo de Deus.
- Dei Verbum, A Palavra de Deus: sobre a Revelação divina “se propõe expor a genuína doutrina acerca da Revelação divina e sua transmissão”
- Gaudium et Spes, Alegria e Esperança: sobre a Igreja no mundo de hoje “pretende falar a todos, para esclarecer o mistério do homem e cooperar na descoberta da solução dos principais problemas do nosso tempo”
- Sacrosanctum concilium, O Sacrossanto Concílio, sobre a Liturgia, quer relembrar os princípios e estatuir normas práticas para a renovação e o incremento da Liturgia, da forma de celebrar a Vida e de louvar a Deus. A começar pela sua tradução em todas as línguas e pela sua adequação aos esclarecimentos e atualização doutrinal nas constituições dogmáticas acima.
Destas quatro, todas muito importantes, verdadeiro coração do Concílio Vaticano II, queremos hoje dar um destaque especial à Constituição “DEI VERBUM” (A Palavra de Deus) sobre a Revelação Divina. Este documento foi um dos que recebeu, talvez, mais intervenções, questionamentos e acirrados debates por parte dos padres conciliares e consultores. Foi aprovado e promulgado em 15 de novembro de 1965, depois de mais de três anos de questionamentos e avaliações, praticamente às vésperas do encerramento do Concílio que ocorreu em 8 de dezembro daquele mesmo ano.
Os debates entre os “progressistas” e os “conservadores” garantiam a importância do tema central: a Revelação de Deus. Pela primeira vez, a Igreja católica em sua história, admitia a possibilidade da salvação mesmo “fora da Igreja”, pois Deus se revela a todos os povos. E se toda religião tem Deus como fundamento, então este Deus quer a felicidade, a libertação do mal e a salvação de todos os homens.
Ao longo de milhões de anos da evolução do universo, Deus vem se revelando, não só na nossa religião cristã,
mas em todas as religiões. Pois, em todas elas há virtudes e vivência heroica, dedicação e espírito generoso que levam muitos de seus seguidores até ao martírio. Exatamente como os santos mártires da Igreja Cristã.
Esta é uma das grandes novidades do Concílio Ecumênico Vaticano II, o de reconhecer e afirmar que os “religiosos”: cristãos, muçulmanos, hebreus, budistas, hinduístas, evangélicos, os seguidores de Krishna, mesmo com muitas incompreensões e até guerras entre si, sempre acreditaram e orientaram os adeptos à sua religião para se comportarem conforme a revelação de seu Deus, Verdade Absoluta, Bom, Eterno, Misericordioso, Princípio e Fim de todas as coisas.
Depois de 50 anos desta decisão dos padres conciliares, já é tempo de cada um de nós, fiéis de qualquer religião, deixarmos de nos considerar o “povo eleito”, “escolhido”, “santo”, o “único” a quem Deus se revelou e salvou com exclusividade, conforme uma interpretação errônea dos nossos Livros Sagrados.
30 de setembro de 2013
Fonte: enviado por e-mail, pelo autor: mariocella@gmail.com

