A sucessão do papa e dos bispos das grandes dioceses se presta bem à linguagem de um jogo de futebol, de uma eleição política ou de uma corrida de carros ou de cavalos, com torcedores, apostas mais ou menos volumosas, influências rudes e pesadas.
De quem? Daqueles que, tendo renunciado ao casamento para serem ordenados e exercerem o poder (sempre maior e exclusivista) na Igreja, quando conseguem ser fieis no não uso da energia sexual (concupiscência da carne), canalizam suas forças pra as outras duas concupiscências de que nos fala o Evangelista S. João na sua Segunda carta, (II Jo, 2, 16-17): a cobiça, ganância (concupiscência dos olhos) e a do poder (soberba da vida):
«Tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida — não vem do Pai mas do mundo».
Sobre a concupiscência da carne, temos tido notícias horrorosas nestes últimos 5 anos, de gravíssimos e extensíssimos abusos em vários países católicos que fizeram milhares de vítimas inocentes e indefesas.
Das outras duas, a ganância e a vontade de poder (Ver aqui), infelizmente os homens da hierarquia da nossa Igreja também não estão imunes, pois muitos por elas se deixam arrastar e dominar, como se pode ver claramente no artigo abaixo.
João Tavares
Lunedì 07 marzo 2011 16:15
36028. roma-Adista.
Fonte: http://www.adistaonline.it/index.php?op=articolo&id=49284
A corrida final para a sucessão do cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão que está prestes a deixar a diocese por ter atingido a idade da reforma, já começou. Mas o resultado, como sempre, nesta ocasião, é incerto. Para muitos, continua na frenteo cardeal Gianfranco Ravasi, o ex-prefeito da Galeria de Arte Ambrosiana e agora presidente do Conselho Pontifício da Cultura, um ilustre estudioso bíblico.
Mas, apesar do currículo excelente, para Ravasi a estrada que leva à “Madonina” (no topo da catedral de Milão – NT) é todo em subida. O estudioso da Bíblia, de fato, não tem muitos admiradores no Vaticano, apesar de correr voz que a sua candidatura seria apoiada pelo Secretário de Estado, Tarcisio Bertone. Mas isso é uma faca de dois gumes, porque Bertone, nos últimos anos, em termos de nomeações de cardeais para sedes diocesanas de prestígio, tem tido altos e baixos de influência perante o papa. Basta pensar sobre a forte derrota sofrida em Turim, quando dois de seus candidatos, o arcebispo de Alexandria, D. José Versaldi, Observador Permanente da Santa Sé ao Conselho da Europa, e D. Aldo Giordano, foram derrotados por D.Cesare Nosiglia, fidelíssimo ao card. Camillo Ruini.
Ravasi, no entanto, tem também o apoio e a simpatia da mídia e da opinião pública: ele sempre prestou muita atenção ao cuidado com sua imagem. Tanto dentro do mundo católico através de livros, ensaios, palestras e inserções diárias sob o título “Matutino” na primeira página do “Avvenire” , como no mundo laico: ao seu “histórico” programa – “As fronteiras do Espírito” – transmitido no Canal 5, no domingo de manhã, D. Ravasi acrescentou recentemente uma coluna regular – “Opinião Diferente” – no semanário L’Espresso. Além disso, colabora também no encarte dominical do Sole 24 Ore, onde mostra uma boa capacidade de comunicação com o mundo dos negócios e das finanças , necessária para quem aspira à Sede Arquiepiscopal de Milão. Finalmente, a recente iniciativa do “Pátio dos Gentios”, um projeto que teve grande cobertura da imprensa e que se propõe a confrontar ateus e crentes sobre temas universais.
O “Pátio” com certeza, está de olho na “cátedra para não-crentes” desejado pelo cardeal Martini em Milão, na década de 80. Mas a escolha da palavra “gentios” em vez de “não-crentes” ou “ateus”, além de uma homenadem a S. Paulo, é também um sinal dos tempos: a escolha cuidadosa das palavras de quem, num momento em que na Igreja os “não-crentes” são mais um território a evangelizar do que uma realidade com a qual se confrontar, procura não construir uma imagem “secularizada” demais. Mas essa a grande exposição na mídia, constitui para Ravasi tanto um limite, como um recurso.
O episcopado da Lombardia, que o núncio apostólico na Itália consultou para rastrear orientações e humores que devem ser comunicados ao Vaticano, critica Ravasi exatamente por sua excessiva presença nos jornais e na televisão, bem como por seu perfil excessivamente intelectual e pela falta de experiência pastoral “na realidade concreta”. Contudo, também é certo que o card. Carlo Maria Martini, em 1980, foi nomeado arcebispo de Milão sem primeiro ter sido pároco ou bispo em qualquer diocese. Mas o calibre do personagem era enorme; e, como bem se sabe, a nomeação de Martini foi uma jogada teatral de Wojtyla, que logo que se tornou papa, se impressionou com a profunda cultura do estudioso jesuíta, então recém-nomeado Reitor Pontifícia Universidade Gregoriana.
Comunhão e Libertação pega tudo?
A nomeação do arcebispo de Milão, vai ser, necessariamente, o resultado de difíceis mediações. Além do episcopado da região da Lombardia, na verdade, também vai ser preciso ter na devida conta o ponto de vista do card. Tettamanzi, que fará pesar a credibilidade adquirida nos últimos anos, durante os quais ele representou (voz quase única entre os grandes do episcopado italiano) a oposição à linha do card. Ruini dentro da Conferência Episcopal Italiana (CEI). Depois, com certeza não menos importante, há o poder de Comunhão e Libertação, que através da Companhia das Obras e com o apoio do presidente da Região da Lombardia, Roberto Formigoni, conquistou, uma a uma, as alavancas do poder político e econômico na Região, por meio de nomeações, contratos, e uma densíssima rede de relações.
Comunhão e Libertação empurra para a eleição para Sede de Milão o card. Angelo Scola, membro desse movimento e atual patriarca de Veneza. Com o arcebispo Scola, o movimento de Giussani conquistaria um papel de hegemonia na diocese, ganhando o controle dos gabinetes da Cúria.
Mas a nomeação de Scola também teria um enorme valor simbólico: Milão, na verdade, é a cidade onde o Pe. Luigi Giussani começou sua ascensão, lenta, mas inexorável. Se bem que Milão é também a diocese em que o movimento de Giussani sempre teve vida difícil.
Primeiro com o card. Montini, futuro Papa Paulo VI, que no final dos anos 60 lhe limitou muito a área de ação; depois, durante o episcopado do card. Martini, que teve com esse Movimento um relacionamento muito conflituoso. Nessa época, caso quase único na história das dioceses italianas, o movimento de Giussani foi denunciado ao tribunal eclesiástico de Milão pelo movimento católico da “Rosa Branca”. Foi em 1987.
O reitor da Universidade Católica Giuseppe Lazzati tinha morrido há um ano, quando dois jornalistas do jornal O SÁBADO, do Movimento de Giussani, Antonio Socci e Roberto Fontolan, criticaram duramente o pensamento e a obra do Reitor Lazzati, chegando a acusá-lo como um dos responsáveis pela “corrosão protestante” que estava a atravessar a Igreja pós-conciliar.
Não chegou a haver processo, mas os dois jornalistas foram obrigados a publicar uma retratação. Mas, se os seguidores de Giussani, a reconquista de Milão seria a cereja no bolo de uma irresistível ascensão. Tanto dentro do episcopado milanês como no Vaticano, a hegemonia tão escancarada de Comunhão e Libertação na Região, levanta mais do que algumas preocupações. Inclusive em relação às investigações judiciais que estão fazendo aparecer as ligações entre os clãs calabreses no norte da Itália e o poder da máquina de Comunhão e Libertação.
Difícil, portanto, que a Igreja dê uma legitimidade tão patente ao movimento do Pe. Giussani, justamente quando parece que o sistema de poder de Comunhão e Libertação na Lombardia começa a expor rachaduras na sua estrutura. Assim, a própria força do movimento, em Milão e na Lombardia poderia – paradoxalmente – constituir o limite para a candidatura de Scola. Por outro lado, o currículo de Scola não apresenta sequer o indispensável perfil intelectual e pastoral requerido pela diocese mais importante da Itália, depois de Roma.
Muitos correndo por fora
Mas é exatamente a “estatura” que está a faltar aos “adversários” de Ravasi. Com a cumplicidade do pontificado de Wojtyla, que nos últimos 20 anos, eliminou (demitindo uns e substituindo outros por pessoas de sua confiança, no mundo inteiro – NT) todos os expoente mais vibrantes e ativos do episcopado italiano e do mundo teológico, substituindo-os por homens de “aparelho”, de obediência comprovada, mas muitas vezes de baixa qualidade.
Sendo assim, além de Scola e Ravasi, há espaço para um grande grupo de candidatos que correm por fora. Certamente nomes menos conhecidos, mas com alguma carta a jogar. Eles incluem D. Gianni Ambrosio, bispo de Piacenza, ex-assistente eclesiástico da Universidade Católica de Milão, cujo nome teria o consentimento Comunhão e Libertação e o apoio de Bertone (que foi seu bispo de Vercelli há alguns anos e que o sagrou bispo em 2008) e cujo currículo inclui o Institut Catholique e da Sorbonne. Ambrosio, além de ser Bispo no norte, é originária do Piemonte: todas características que o tornam “papabile” à Sede de Milão.
Ao contrário de D.Bruno Forte, que cresceu na escola do card. Martini, mas que é originário de Nápoles e agora é bispo de Chieti. E que dificilmente, sendo do sul, atingirá a Sede de Milão, embora nos últimos anos tenha mudado sua imagem de “conciliar” e “progressistas”, pela de um firme defensor do Ratzinger-pensador.
Envolvido em diálogo com as Igrejas do Oriente e os judeus, Forte tem a seu favor a fama de grande comunicador. Tem excelentes relações com o mundo secular, que cultiva ao colaborar em jornais como Il Sole 24 Ore, Corriere della Sera e Il Centro.
Mas o novo bispo de Milão, também poderia ser um bispo da região da Lombardia, em perfeita continuidade com o cartão.Tettamanzi. Este perfil poderia coincidir com o atual bispo de Pavia, D. Giovanni Giudici (que recentemente concordou em se encontrar com representantes da Arcigay local); ou com D. Luciano Monari, bispo de Brescia, discípulo de Martini – ou com D. Diego Coletti, bispo de Como. No entanto, talvez seja ainda demasiado jovem e inexperiente o novo bispo de Bergamo, D. Beschi Francesco (60 anos em agosto próximo). Enquanto que entre os atuais auxiliares Tettamanzi, o único nome que circula é a de Franco Giulio Brambilla.
(Gigante Valerio)
Tradução do italiano: João Tavares