“Devemos elogiar o Ratzinger”. Perdão? Você não é o ex-franciscano Leonardo Boff, adversário histórico do cardealJoseph Ratzinger? Não foi você quem, quando ele foi eleito Papa, disse que com Bento XVI chegava “o inverno da Igreja”? Desenha-se um sorriso entre a barba branca de Boff e não se precisa de muita perspicácia para entender que na Igreja de Francisco estão se evaporando inclusive os conflitos teológicos nos quais o Vaticano se viu envolvido desde os anos 1970.
Não muito tempo atrás, teria sido difícil imaginar que um autor com o perfil de Leonardo Boff pudesse ser considerado “assessor” do Pontífice. No entanto, é justamente o que o Papa Francisco está fazendo com ele, segundo indica o próprio Boff: escrevem-se e conversam mediante uma amiga em comum da Argentina.
A entrevista é de Marco Bardazzi e publicada no sítio Vatican Insider, 15-09-2013. A tradução é de André Langer.
Eis a entrevista.
Você disse que Bento XVI merece ser elogiado. Por quê?
Quando leu o relatório sobre os escândalos na Igreja, entendeu que já não tinha a força física, psicológica nem espiritual para enfrentar um problema desta gravidade. Humilde e sinceramente, com coragem, na minha opinião, renunciou. Quis pensar mais na Igreja do que em si mesmo.
Vocês tiveram uma relação difícil no passado, sobretudo desde que o cardeal Ratzinger, em 1984, abriu um “processo” contra você…
Éramos amigos, é uma pessoa extremamente elegante, fina, nunca levanta a voz. Sempre mostrou um grande respeito para comigo. O problema é que, quando se converteu em prefeito, revelou-se muito “alemão”. Eu pregava uma Igreja que promove a liberdade na sociedade. Ratzinger entendeu isso como um discurso protestante. Me dizia: “Assim fala Lutero”. E eu respondia: “Pois bem, escutemo-lo: há 500 anos a Igreja não escuta Lutero com suficiente atenção”.
Você agora deposita muitas esperanças no Papa Francisco? Por quê?
Porque antes de fazer a reforma da Cúria fez a reforma do papado. Normalmente, alguém é eleito Papa e assume todos os ritos do poder. Ele fez todo o contrário, continuou sendo o que era e está acostumando a todos a mudar segundo sua tradição pessoal.
O que lhe sugere o nome que Bergoglio escolheu?
Muito mais que um nome, Francisco é um projeto de Igreja e de mundo. Uma Igreja na pobreza e humildade humana. A atenção que o Papa tem pelos pobres vem desta intuição, própria da América Latina. Devemos recordar que vem de outro tipo de Igreja e de teologia, ele é da tradição da teologia do povo argentina. Ele se define como um Papa peronista e justicialista.
Você pede a convocação de um Concílio Vaticano III para reformar a Igreja. Este Papa conseguirá fazer a mudança que você espera?
Ele é muito inteligente. Não quer presidir a Igreja monarquicamente, mas colegiadamente. Por este motivo, escolheu oito cardeais de todos os continentes que farão com ele a reforma da Cúria e que dirigirão a Igreja colegiadamente. Creio que chegou o momento, como escrevi a ele, porque ele me pediu uma opinião.
Conversa com o Papa? Como?
Temos uma amiga em comum na Argentina. Eles se falam todos os domingos, se comunicam com frequência. Eu mando algumas coisas para ela e ele me pede outras.
O que você aconselhou ao Papa?
Por exemplo, que todas as Igrejas, sobretudo a católica, são ocidentais e serão cada vez mais acidentais. Caminhamos para uma nova fase da humanidade que será globalizada. A Igreja não encontrou um lugar neste processo, mas é hora de defini-lo com as outras Igrejas. As diferenças doutrinais são pequenas e inclusive as Igrejas Protestantes aceitam um Papa que não domina, mas que se converte em referência simbólica do cristianismo, como fenômeno histórico e memória de Jesus.
Quando pensa em sua relação com a Igreja, nos confrontos, na saída da ordem franciscana, arrepende-se de algo?
Deixei a função institucional de sacerdote, mas não a de teólogo. Troquei de trincheira, mas não de luta. E no Brasil nunca tive conflitos com a Igreja. Sigo sendo teólogo nas comunidades de base. E eu celebro, faço batizados, casamentos, celebro todos os sacramentos quando não há sacerdote. Os bispos sabem disso e me dizem: “Continue”. Me sinto bem neste papel de leigo. Afinal de contas, Jesus não era sacerdote.
Marco Bardazzi
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