No passado dia 15 de janeiro deste ano, 2011, na catedral católica de Westminster de
Londres, três velhos bispos anglicanos foram ordenados sacerdotes católicos. Seus
nomes: Keith Newton, John Broadhurst e Andrew Burnham. Um acontecimento
sem precedentes, uma nova página na história entre anglicanos e católicos. Com esta
ordenação, inaugurou-se o “Ordenariato” criado por Bento XVI em novembro de 2009.
Essa nova estrutura inserida na Igreja Católica destinava-se a ajudar os convertidos a
manterem as suas tradições.
Esta ordenação era uma primeira etapa. Antecedia a passagem de uma cinquentena de
clérigos anglicanos à Igreja Católica, prevista para a próxima semana da Páscoa. Tudo
gente oposta à ordenação de mulheres como bispas, prestes a ser autorizada na Igreja da
Inglaterra.
Os três bispos agora ordenados secerdotes católicos, há muito eram marginalizados
na Igreja Anglicana por sua oposição à ordenação de mulheres, admitida desde 1992.
O debate sobre as mulheres-bispas acabou por tornar a sua posição insustentável. E,
quando Bento XVI propôs criar um “Ordinariato” para transferir paróquias anglicanas
inteiras para a Igreja Católica, eles não hesitaram, a sua decisão foi rápida.
Na homilia da ordenação, o arcebispo católico de Westminster, Vincent Nichols
sublinhou que muitas ordenações tinham sido feitas naquela catedral, mas nenhuma
como esta. Esta ordenação assinalava um momento histórico.
Após o ritual da prostração dos ordenandos, um gesto significativo: as suas esposas
aproximaram-se do altar e ajudaram-nos a revestir-se da casula. A sua presença nesse
momento-chave sublinhava que o “Ordinariato” seria necessariamente uma realidade à
parte na Igreja Católica. Não sendo os três velhos bispos os primeiros padres católicos
casados, eles serão, sem dúvida, dos mais visíveis.
Durante a celebração, rendeu-se homenagem ao arcebispo de Cantorbery, o mais alto
reposnsável pela Igreja Anglicana, por haver cooperado plenamente na instituição
do “Ordinariato”.
Mas essa vontade de apaziguamento da hierarquia católica não parece ser seguida pelas
bases. Quando os três novos sacerdotes saíram da catedral, foram saudados por uma
estrondosa trovoada de aplausos. A multidão que ocupava a escadaria era constituída
fundamentalmente por anglicanos que pensavam segui-los na mudança de Igreja. “Nós
não suportamos mais a fragmentação da Igreja da Inglaterra”, disse uma senhora. “Nós
estamos a meias fora da Igreja da Inglaterra e é normal que saiamos completamente”,
pensa Paulo, de 28 anos.
Nem todos, porém, têm a mesma certeza. Tentado a passar ao catolicismo, o
padre anglicano David Herbert desejaria conhecer exatamente as condições do seu
acolhimento entre os católicos. Interroga-se não só sobre o tipo de paróquia que poriam
ao seu dispor , mas também sobre o seu salário, provavelmente mais magro que o que
recebe na Igreja Anglicana. São estes, entre outros problemas, que o agora padre Keith
Newton, anunciado como mais alto responsável pelo “Ordinariato”, terá de acertar.
Mas não só. Há anglicanos que são hostis à troca de confissão. Se a ala liberal que
se tem batido a favor das mulheres-bispas, se sente aliviada com a partida desses três
bispos, uma parte dos tradicionalistas “anglo-católicos” lamenta essas ordenações
que enfraquecem, segundo eles, a Igreja da Inglaterra. Alguns julgam-nas prematuras,
porquanto não se concluíram ainda as disposições referentes às mulheres-bispas.
Entre os católicos ingleses também nem todos celebram o acontecimento. É o caso do
grupo “Ordenação para as Mulheres Católicas” que veio defraldar uma bandeira de
protesto à saída da ordenação. “É uma má notícia para nós, disse Sue Williamson, uma
do grupo. Nós não queremos esta gente na Igreja Católica”. Ela própria tinha cogitado
em tempos em aderir à confissão anglicana. Depois preferiu conduzir a campanha
dentro da sua própria Igreja.
Extraído de reportagem de Sébastien MARTIN, Londres, por Luís Guerreiro