O papa Francisco cativou o povo brasileiro por sua simpatia, simplicidade, o sorriso sempre estampado no rosto, o cuidado de parar o cortejo para benzer um doente, beijar uma criança, abençoar um fiel.
As falhas do poder público na Jornada foram inumeráveis: o carro de Francisco engarrafado na avenida Presidente Vargas; a pane no metrô do Rio; a falta de transporte público suficiente para escoar a multidão; a incompetência de prever que a chuva transformaria o campo de Guaratiba em um grande lamaçal.
Apesar de tudo, o papa e o povo foram o melhor da festa. E ele realizou dois milagres: fez a presidente Dilma sorrir como uma menina no dia de sua Primeira Comunhão e os brasileiros amarem de coração um argentino…
Francisco evitou tocar nos temas polêmicos que desafiam a Igreja Católica, como a moral sexual. Nenhuma palavra sobre
- pedofilia,
- uso de preservativo,
- homossexualidade,
- aborto etc.
Nada disse sobre:
- ordenação de mulheres,
- reabilitação dos padres casados (5 mil no Brasil, 100 mil no mundo),
- fim do celibato obrigatório.
Apenas pediu aos bispos que imprimam mais qualidade à formação dos sacerdotes.
O papa preferiu delinear seu perfil de Igreja: missionária, voltada “pra fora”, desenclausurada, engajada na periferia e servidora dos pobres. Uma Igreja: “advogada da justiça e defensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas que clamam ao céu”, como disse ao visitar a favela de Varginha.
A atuação pastoral da Igreja deve dedicar especial atenção às crianças, aos jovens e aos idosos. Os primeiros, por encarnarem o futuro; os segundos, por guardarem sabedoria.
A Igreja deve espelhar a simplicidade de Jesus, como Francisco de Assis e o papa Francisco, que dispensou a capa de arminho, os sapatos vermelhos, o anel e a cruz de ouro, os títulos de Sumo Pontífice e Sua Santidade, por preferir ser chamado apenas de papa, bispo de Roma, servo dos servos de Deus. Ela precisa saber “perder tempo” com os pobres, saber escutá-los.
Desafiou os cristãos a combater a “cultura do descartável”, que ignora o valor das pessoas e estimula o consumismo e o hedonismo. A segurança das pessoas de fé deve estar na confiança em Deus, e não no excessivo conforto que os afasta dos pobres e do povo.
Falou também de política ao frisar que se deve combater a corrupção e, ao mesmo tempo, alentar a esperança em “um mundo mais justo e solidário”. A solidariedade –”quase um palavrão”, disse o papa– deve ser o eixo de nossa pastoral, disposta a “colocar mais água no feijão”.
A política deve “evitar o elitismo e erradicar a pobreza”, condenando os opressores, como fez o profeta Amós ao denunciar que “vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias.” Francisco deixou claro que a Igreja deve retomar o seu profetismo, ser a voz dos que não têm voz.
Salientou que é preciso recuperar a confiança dos jovens nas instituições políticas, alentá-los na esperança; e “reabilitar a política, uma das formas mais altas de caridade.” Sim, com um prato de comida se mata a fome do mendigo. Com a política, se evita ou se promove a miséria, depende como ela é exercida.
Apoiou as manifestações dos jovens nas ruas ao frisar que merecem o nosso apoio, pois “eles saíram às ruas do mundo para expressar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna”. Lembrou que a sociedade futura, “mais justa, não é um sonho fantasioso”, mas algo que podemos alcançar. Os jovens devem ser os “protagonistas da história”, construtores do futuro, de um mundo melhor.
O papa convocou a todos para promover a “cultura do encontro”, favorecendo o diálogo sem preconceitos, combatendo os fundamentalismos e as segregações.
Francisco iniciou a reforma da Igreja pelo papado, como quem está convencido de que, para mudar o mundo, é preciso primeiro mudar a si mesmo. Talvez ele não demore a reformar a Cúria Romana e, quem sabe, extinguir o IOR, o Banco do Vaticano, alvo de graves denúncias de corrupção, e também as nunciaturas apostólicas, as representações diplomáticas do Vaticano no exterior, para valorizar as conferências episcopais e a colegialidade na Igreja.
Agora, há algo de novo na barca de Pedro, cujas velas são tocadas pelo sopro do Espírito Santo.
Frei Betto – escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.http://www.freibetto.org– twitter:@freibetto.
Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=76714
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